Mercados emergentes sacodem a velha ordem nas telecoms

Andrew Parker

Naguib Sawiris, um empreendedor egípcio de telecomunicações, brincou que seu mais recente plano de negócios -uma licença de 25 anos para fornecer serviços de telefonia móvel na Coréia do Norte- nasceu do desespero.

O raciocínio, explicou o presidente da Orascom Telecom, com sede no Cairo, é que a disputa por novos mercados no lucrativo setor de telefonia móvel está chegando ao fim. Como ele coloca, sem preocupação: "Esta é minha prova para o mundo de que não resta mais nada. Se é preciso ir até a Coréia do Norte em busca de novas oportunidades, o espaço mundial está encerrado".

Operadoras de telefonia móvel como a Orascom agora se vêem diante de oportunidades cada vez menores nos mercados emergentes. Mas a corrida da última década para fornecer celulares para bilhões de pessoas nos países em desenvolvimento está criando uma nova ordem mundial para as empresas de telecomunicações.

Zohra Bensemra/Reuters - 7.fev.2008 
Mulher refugiada dos conflitos tribais no Quênia fala ao celular em Nairóbi

Várias operadoras ocidentais de telefonia móvel que antes dominavam o setor, agora correm o risco de um status de segundo escalão porque os mercados desenvolvidos estão saturados de celulares. Lugares na mesa principal do setor são cada vez mais reivindicados por operadoras com sedes em países em desenvolvimento.

O papel chave dos mercados emergentes é um dos principais temas de debate no Congresso Mundial de Telefonia Móvel, a conferência anual do setor, que começa nesta terça-feira em Barcelona.

Arun Sarin, o presidente-executivo da Vodafone, a maior operadora de telefonia móvel em receita, acentuou como os vencedores e perdedores o setor estão sendo determinados pela luta para atender os mercados emergentes. "Francamente, nós todos teremos que ficar alertas", disse Sarin em uma entrevista para o "Financial Times". "Se continuarmos nos lembrando de que 75% de todos os clientes, receitas e lucros incrementais vêm dos mercados emergentes -todos correrão nesta direção."

Duas das principais empresas de telecomunicações por capitalização de mercado agora possuem sedes em mercados emergentes. A China Mobile, a principal operadora da China, comanda a lista. A America Movil, o grupo latino-americano de telefonia móvel comandado da Cidade do México por Carlos Dlim, o terceiro homem mais rico do mundo, é a décima maior.

Mais importante, fora das 10 mais estão várias das empresas que estão crescendo mais rapidamente, com sedes na África, Ásia e Rússia e que estão ameaçando se tornarem maiores do que antigas gigantes do setor, como BT, France Telecom e Deutsche Telekom. Sarin prevê que, em uma década, as 10 maiores operadoras por capitalização de mercado provavelmente virão da África, China, Índia, Europa e Américas.

A chave para o sucesso nesta nova safra de operadoras do mercado emergente é estarem fornecendo celulares baratos -os preços caíram para US$ 25 por aparelho no ano passado- para uma grande quantidade de pessoas. Estas operadoras, juntamente com duas empresas européias que tiveram a visão de investir pesadamente nos mercados emergentes, parecem posicionadas para dominar o setor.

A única exceção nesta regra é a AT&T dos Estados Unidos, cujo status como segunda maior empresa de telecomunicações do mundo vem do atendimento ao maior mercado ocidental. Randall Stephenson, o presidente-executivo da AT&T, disse ao "FT" em junho passado que levava a sério as novas operadoras de telefonia móvel dos mercados emergentes. "É preciso prestar atenção. Há alguns resultados impressionantes sendo obtidos."

De fato: a MTN, a maior operadora de celulares da África, informou um crescimento orgânico de receita de 35% nos primeiros seis meses de 2007. Em comparação, a France Telecom apresentou um crescimento de 3% em 2007.

As duas empresas de telecomunicações européias que estão colhendo os benefícios do investimento nos mercados emergentes são a Vodafone do Reino Unido e a Telefónica da Espanha. A Telefónica investiu pesadamente na América Latina, com a região contribuindo com cerca de um terço da receita do grupo espanhol e grande parte de seu crescimento.

Enquanto isso, a Vodafone está enfrentando o crescimento negativo ou em desaceleração nos principais mercados europeus com a compra de empresas de telefonia móvel em países em desenvolvimento. Esta estratégia atingiu seu zênite no ano passado. Sarin, nascido na Índia, concluiu a compra de US$ 10,9 bilhões pela Vodafone de uma participação controladora na Hutchison Essar, a quarta maior operadora de telefonia móvel da Índia. O acordo é a transação mais significativa já realizada por uma operadora ocidental em mercados emergentes.

A Índia é o mercado de telefonia móvel que mais cresce no mundo. Apenas 21% da população possui um aparelho, mas o número de novos clientes está aumentando a uma taxa de 8 milhões ao mês. A Índia ajudou a Vodafone a atingir, em dezembro, o marco de ter mais clientes nos países em desenvolvimento do que em seus mercados europeus. O total atingiu 221 milhões.

A Índia até mesmo chamou a atenção da AT&T, que sob a fachada de sua empresa predecessora, a SBC, por anos se manteve quase que exclusivamente voltada para o predomínio no mercado doméstico com a compra de concorrentes americanas menores. A AT&T espera lançar serviços de telefonia móvel para os consumidores na Índia após requisitar no ano passado uma licença para operar no país.

Se a Índia foi o local mais quente para as telecoms em 2007, o evento mais aguardado do setor neste ano poderá acontecer na China, o maior mercado de telefonia móvel do mundo. Pequim está considerando uma ampla reestruturação das empresas de telecomunicações estatais da China. Um cenário envolve a divisão da China Unicom, a segunda maior operadora de telefonia móvel da China.

As duas redes de telefonia móvel da China Unicom poderiam ser divididas entre a China Telecom e a China Netcom, as duas principais empresas de linhas fixas do país, que atualmente não possuem licença para telefonia móvel.

A reestruturação poderia ser parcialmente motivada pelas preocupações com o predomínio da China Mobile, que com 369 milhões de clientes conta com uma participação de mercado de 70%. Se a China Telecom e China Netcom obtiverem acesso às operações de telefonia móvel, isto aumentaria a concorrência no setor, que está longe do amadurecimento. Apenas 40% da população possui atualmente um celular.

Não há perspectiva imediata das empresas ocidentais terem chance de se estabelecerem na China ou controlarem as empresas existentes. Mas a reestruturação pode fornecer oportunidades para a Vodafone e a Telefónica aumentarem sua exposição na China. A Vodafone tem uma participação de 3,3% da China Mobile e Sarin está interessado em ter uma participação maior ou investir em outra operadora móvel chinesa.

A Telefónica é dona de 7,2% da China Netcom e deverá aumentar esta participação para 10%, segundo os planos existentes. Ela tem interesse em aumentar ainda mais sua exposição.

Tanto a Vodafone quanto a Telefónica sabem que não obterão participações controladoras nas empresas de telecomunicações chinesas. O benefício para ambas as empresas européias é puramente econômico: a Vodafone, por exemplo, viu o valor de sua participação na China Mobile mais que quadruplicar em valor.

Mas a Vodafone e a Telefónica estão interessadas em exercer influência sobre as empresas chinesas e o governo de Pequim, notadamente na escolha da tecnologia de telefonia móvel de terceira geração para apoiar os serviços de dados como a navegação na Internet por celulares. A Vodafone tem uma cadeira no conselho diretor da China Mobile, enquanto a Telefónica tem duas na China Netcom.

Estas operadoras européias também querem entender as implicações da política de "expansão global" do governo de Pequim, que encoraja as empresas chinesas a investirem no exterior. Assim como as operadoras européias estão investindo nos mercados emergentes, as telecoms chinesas estão buscando fazer o mesmo fora de seu território doméstico.

A China Mobile já agiu de acordo com a política do governo de Pequim, comprando a Paktel, uma operadora de telefonia móvel paquistanesa, no ano passado. Wang Jianzhou, presidente da China Mobile, disse ao "FT" em setembro passado que a empresa estava interessada em mais aquisições na Ásia. Wang destacou que o principal foco da empresa era o crescimento na China, porque muitas pessoas nas áreas rurais ainda não tinham celulares, mas acrescentou: "Nós (...) estamos interessados em outros mercados emergentes, especialmente os países vizinhos".

O mercado de telefonia móvel menos desenvolvido do mundo, mas com potencial imenso, é a África. Isto é confirmado pela MTN, a maior operadora do continente, que está ganhando atenção por causa de seu crescimento espetacular. A MTN tem 54 milhões de clientes em 17 países africanos, mais o Afeganistão, Irã, Síria e Chipre. É uma empresa listada no mercado de ações mas que tem laços estreitos com o governo de Pretória. Cyril Ramaphosa, o presidente da MTN, é um ex-secretário-geral do partido Congresso Nacional Africano de governo da África do Sul.

Enquanto isso, na América Latina, a America Movil de Slim está colhendo a riqueza crescente da região. Ela conta com 153 milhões de clientes. Slim, que a revista "Forbes" disse no ano passado ter uma fortuna pessoal de US$ 49 bilhões, criou a America Movil a partir da Telmex, o ex-monopólio de telefonia fixa do México que um consórcio liderado por ele comprou na privatização em 1990. Ele conta com alguns amigos poderosos, incluindo a AT&T, que possui uma participação de 8% na America Movil.

Slim é, portanto, um exemplo notável de um indivíduo que domina uma operadora móvel em mercados emergentes, mas outros estão começando a copiar suas ambições e status. Sunil Bharti Mittal, o quinto homem mais rico da Índia, parece ser capaz de criar um império semelhante ao de Slim, por exemplo. A Bharti Airtel é a maior operadora de telefonia móvel da Índia, com 57 milhões de clientes.

Em sua primeira expansão internacional no ano passado, a Bharti obteve licença para iniciar operações de telefonia móvel no Sri Lanka. Ela planeja estabelecer operações de telefonia móvel em outros países do sul da Ásia.

A segunda maior operadora de telefonia móvel da Índia é a Reliance Communications, liderada por Anil Ambani, um dos grupos mais influentes da Índia. A Reliance está interessada em se expandir na Ásia, mas também está de olho no Oriente Médio e na África.

Na Rússia, o oligarca Vladimir Yevtushenkov transformou seu conglomerado, Sistema, na maior operadora de telefonia móvel do país por meio de sua subsidiária, a MTS. No ano passado, a Sistema voltou sua atenção para a Índia, comprando uma participação controladora em uma pequena operadora de telefonia móvel.

"Nós queremos ser uma das cinco maiores empresas do mundo em número de assinantes de celulares", disse Alexander Goncharuk, presidente-executivo da Sistema. Ele acrescentou que a meta será atingida nos próximos dois a três anos ou não será, ressaltando quão saturados de celulares os mercados emergentes se tornarão até o final da década.

Apesar de ainda haver bilhões de pessoas para as quais vender celulares, a tomada de territórios pelas empresas de telecomunicações nos mercados emergentes está quase completa. Os ativos de telefonia móvel nos países em desenvolvimento agora são escassos, o que explica por que as valorizações foram às alturas nos últimos dois ou três anos.

O acordo da Vodafone envolvendo a Hutchison Essar teve um valor de US$ 18,8 bilhões, ou 17 vezes a previsão de lucros da operadora antes da dedução de juros, impostos, depreciação e amortização em 2008. Os ativos de telefonia móvel na Europa Ocidental, por exemplo, apresentam valores de cerca de 6 vezes antes das deduções.

As poucas oportunidades restantes nos mercados emergentes significam que operadoras européias como France Telecom e Deutsche Telekom quase certamente esperaram demais para obter uma presença significativa nos países em desenvolvimento.

Além disso, a posição em declínio destas empresas européias devido à falta de exposição significativa nos mercados emergentes poderia se somar à perspectiva de fusões entre operadoras de celulares com sedes em países em desenvolvimento.

Alguns analistas e banqueiros prevêem que algumas destas empresas, possivelmente lideradas pelas da Índia, se consolidarão, resultando em empresas com um tamanho próximo ao da Vodafone ou Telefónica.

Mas provavelmente haverá limites geográficos para a consolidação, em parte devido às sensibilidades políticas. A China Mobile aprendeu sobre as dificuldades para expansão no exterior quando abandonou a chance de comprar a Millicom, a operadora de telefonia móvel com sede em Luxemburgo e com negócios na África, Ásia e América Latina, em 2006.

Os executivos da China Mobile tiveram dificuldade para obtenção de vistos para inspecionarem alguns dos negócios da Millicom na América Latina, porque seus governos eram anti-China durante a Guerra Fria e mantêm laços com a rival Taiwan.

Fatores políticos também poderiam frear a consolidação entre operadoras de telefonia móvel baseadas em mercados ocidentais e aquelas em mercados emergentes. O governo chinês certamente não cederá o controle de suas operadoras domésticas e até mesmo alguns governos europeus poderiam se opor à uma consolidação internacional caso envolva suas principais empresas de telecomunicações.

A globalização do setor de telecomunicações também poderia ser atrapalhada pela dificuldade em atender os diversos gostos e hábitos dos clientes de países diferentes.

Sarin disse que o mundo dificilmente terá operadoras com clientes em todos os grandes mercados desenvolvidos e emergentes. Após supervisionar a saída da Vodafone do Japão em 2006, sete anos após ter investido no país, ele disse: "Trocar o Japão pela Índia provavelmente foi a melhor coisa que fizemos nos últimos 12 meses". George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos