Vale sinaliza ascensão das "multilatinas"

Richard Lapper e Jonathan Wheatley

Há não muito tempo, a idéia de que empresas latino-americanas -tradicionalmente interesses de propriedade familiar, indulgentes, ou gigantes vagarosas do setor público- começariam a dominar setores globais soaria fantasiosa ao extremo. Mas é o que começou a acontecer nos últimos três anos, em setores como cimento, mineração e telecomunicações. A oferta neste ano de US$ 85 bilhões feita pela Vale, o grupo de mineração com sede no Rio de Janeiro, para aquisição de sua rival anglo-suíça, Xstrata, elevou a tendência a um novo patamar.

A Vale já é a maior produtora mundial de minério de ferro e tem se diversificado constantemente nos últimos anos. Se ela comprar a Xstrata -o que não é garantido já que os dois lados estão nas últimas semanas em um impasse em torno de direitos de mercado- esta estratégia tornaria a Vale o maior conglomerado de mineração do mundo.
Sergio Moraes/Reuters -12.fev.2008
Prédio da Vale no Rio de Janeiro


Não é apenas o tamanho da transação que representa um marco. Mesmo com os mercados financeiros e de crédito em um estado de turbulência em conseqüência da crise dos títulos hipotecários subprime, a Vale conseguiu levantar um empréstimo de não menos que US$ 50 bilhões para financiar o acordo com relativa facilidade. Mesmo se o negócio com Xstrata fracassar, a Vale continuará crescendo. Ela planeja investir US$ 59 bilhões ao longo dos próximos cinco anos no Brasil e no exterior. "Nenhuma outra mineradora no mundo possui o fluxo de projetos que a Vale tem", disse Roger Agnelli, o presidente-executivo.

Até o momento, a maioria das multinacionais latino-americanas -ou "multilatinas"- opera em materiais brutos, um setor notoriamente suscetível a altos e baixos cíclicos. Também é um setor que conta com poucas marcas conhecidas. Apesar da Ambev do Brasil e da Femsa do México, duas produtoras de cervejas e refrigerantes, terem se expandido para o exterior por meio de fusões e aquisições, ainda há poucos sinais de marcas latinas conquistando os mercados globais.

Mas muitos observadores argumentam que os novos pesos pesados latino-americanos vieram para ficar, mais um resultado da ascensão da China e da Índia e do conseqüente realinhamento da economia global. Como Javier Santiso, o chefe do centro de desenvolvimento da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (Oced), em Paris, colocou: "Isto é emblemático de uma mudança estrutural muito maior que tem implicações profundas. O centro está muito menos central do que antes e a periferia está menos periférica".

A ascensão da América Latina faz parte de uma mudança maior no poder corporativo global. Ao longo das duas últimas décadas, empresas de várias economias emergentes começaram a investir em peso fora de seus países de origem. Empresas de eletrônicos e fabricantes de chips da Coréia do Sul e Taiwan abriram o caminho nos anos 80. A tendência ganhou novo ímpeto nos anos 90, com a quantidade de investimento direto de países emergentes saltando de apenas cerca de US$ 5 bilhões por ano, nos anos 80, para mais de US$ 60 bilhões anuais em 2005.

As empresas asiáticas têm sido particularmente proeminentes. A Tata, o conglomerado industrial e de serviços indiano, comprou a Corus, o grupo siderúrgico anglo-holandês, por 6,7 bilhões de libras no ano passado. A Mittal, uma produtora de aço, fez aquisições da China até a América Latina e em 2006 se fundiu com a Arcelor, uma rival européia, para se tornar a Arcelor Mittal. A Lenovo da China, a quarta maior fabricante de computadores pessoais do mundo, comprou a divisão de fabricação de PCs da IBM em 2004.

Nos últimos quatro a cinco anos, gigantes latino-americanas também começaram a comprar empresas no exterior. A própria Vale pagou US$ 18 bilhões para adquirir a Inco, uma mineradora de níquel canadense, em 2006. A Cemex, a empresa mexicana de cimento, esteve envolvida em uma série de acordos de tamanho considerável, comprando a britânica RMC em 2005 e a australiana Rinker em 2006. No mesmo ano, nove empresas do México e do Brasil figuravam na lista das 500 maiores empresas globais, publicada anualmente pela revista "Fortune". Em comparação, 12 empresas da Coréia do Sul, seis da Índia e cinco da Rússia figuravam na mesma lista. Mais de 40 empresas do México, Brasil e Chile -em comparação a 30 da Índia- estão na lista mais ampla publicada pela "Forbes", que mede as 2 mil maiores empresas.

A ascensão da Vale tem sido particularmente notável. Segundo o Boston Consulting Group, ela atualmente produz o maior retorno para os acionistas entre qualquer empresa do mundo, em média 64,3% por ano entre 2002 e 2007. Em comparação, o retorno médio da Apple no mesmo período foi de 62%, o da BHP Billiton foi de 31,2%, e o da Toyota foi de 12,8%.

Especialistas atribuem este sucesso à melhora das perspectivas econômicas da América Latina, o que facilitou para empresas levantarem capital de forma mais barata. Desde o calote da dívida do México e desvalorização de sua moeda no final de 1994, governos sucessivos mantiveram políticas fiscais e monetárias cautelosas. Isto derrubou a inflação ao nível mais baixo desde os anos 60 e a uma queda constante das taxas de juros domésticas. A estabilidade financeira permitiu ao governo tomar empréstimos por períodos mais longos. O grau de investimento do México -concedido pelas agências de rating de crédito mundiais- permite que grandes fundos de pensão europeus e americanos comprem títulos do governo, reduzindo ainda mais o custo da tomada de empréstimos.

O Brasil, que já esteve à beira do calote da dívida entre 1999 e 2002, está seguindo o mesmo caminho, estabilizando suas finanças e promovendo a redução da inflação. Desde janeiro, o país se tornou credor internacional, com seus US$ 190 bilhões em reservas estrangeiras -estimuladas pelos níveis elevados de investimento e fortes preços dos commodities de exportação- mais que compensando a dívida pública externa e interna.

Tudo isto reduziu o risco de investir na dívida do mercado emergente, com o ágio cobrado pelos investidores caindo para uma média de apenas cerca de 2 pontos percentuais acima do valor cobrado para emprestar ao Tesouro dos Estados Unidos, um investimento considerado livre de risco.

Durante os anos 80 e 90, a maioria das empresas internacionais da América Latina pagavam mais do que suas concorrentes estrangeiras para financiar uma expansão no exterior. Mas os custos agora caíram. Hector Medina, diretor financeiro da Cemex, a multilatina mexicana pioneira, disse que sua empresa pagava na região 12% por títulos emitidos para financiar sua primeira onda de expansão no exterior no final dos anos 80. Em comparação, agora ela consegue financiar planos a apenas cerca de 4%, uma taxa tão boa ou melhor do que a disponível para concorrentes de países desenvolvidos. "Nós estamos no nível de nossos concorrentes americanos e europeus", ele disse.

Empresas do México e do Brasil também contam com mais opções de financiamento do que no passado. A alta dos preços das ações levou um crescente número de empresas a listarem suas ações nos mercados locais. "O que mudou é o custo do capital", disse Santiso, da Oced. "É um fator decisivo. Apesar da liquidez mais difícil atualmente para muitos grupos, o custo do capital agora é igual aos de seus principais concorrentes."

Com o campo de jogo nivelado nesta área crítica, as empresas latino-americanas podem tirar proveito do fato de suas margens de operação costumarem ser mais atraentes do que as desfrutadas na Europa ou nos Estados Unidos.

Cristiano Souza, do Dynamo, um fundo hedge do Rio de Janeiro, disse que as empresas de papel e celulose brasileiras, por exemplo, normalmente operam com margens Lajida -lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, o que é uma medida padrão de lucratividade- de 40% em comparação a não mais que 15% das concorrentes escandinavas. "As empresas brasileiras têm melhores fluxos de caixa do que grande parte da concorrência. Repentinamente os obstáculos delas diminuíram e elas são capazes de prosperar", ele disse.

Em parte, isto reflete os custos relativamente baixos do trabalho e fortes posições no mercado doméstico, freqüentemente baseados em monopólios, práticas restritivas ou regimes tarifários protecionistas.

As duas maiores multilatinas do Brasil -Vale e Petrobras- possuem ambas fortes vínculos com o governo. A Vale foi privatizada no final dos anos 90, apesar do governo manter o poder de veto (por meio de "golden shares", ações preferenciais de classe especial) sobre certas decisões estratégicas como a localização da sede da empresa, enquanto a Petrobras ainda está sob controle do governo. A Cemex ainda atua de forma dominante no mercado de cimento mexicano, enquanto a Telmex manteve um monopólio virtual sobre o mercado de telefonia fixa desde sua privatização no início dos anos 90.

Ao mesmo tempo, os administradores latino-americanos aperfeiçoaram seu talento em ambientes de negócios difíceis. Como Souza colocou: "O Brasil é um mercado difícil no qual se sair bem. Quando você conta com uma equipe administrativa capaz de ter sucesso ali, você acha que pode se sair bem em qualquer lugar".

Além de se beneficiar com os fortes laços com o governo, algumas multilatinas provaram ser boas inovadoras. A América Móvil, a divisão de telefonia móvel da Telmex de Carlos Slim, expandiu o uso de celulares entre os mexicanos de baixa renda ao ser pioneira no uso de cartões pré-pagos.

À medida que nos últimos anos cresceu o poder aquisitivo dos grupos de baixa renda na América Latina, a Móvil conseguiu desenvolver este mesmo modelo de negócios em outros mercados latino-americanos. Sua subsidiária brasileira, a Claro, por exemplo, controla cerca de 25% de seu mercado. Outras empresas que expandiram no exterior relativamente cedo, buscando diversificar da dependência nos mercados domésticos, foram forçadas a se tornarem mais ágeis para competir. "Nós precisávamos ser custo-eficazes e obter maior sinergia", disse Medina, da Cemex.

A questão agora é se o crescimento destas empresas gigantes pode influenciar de forma mais ampla o formato do capitalismo latino-americano. Um problema é que grande parte de sua ascensão recente reflete o boom dos commodities e matérias-primas. Caso o crescimento chinês desacelere acentuadamente por algum motivo, o quadro poderia mudar rapidamente, com implicações potencialmente desastrosas.

Ricardo Ernst, da Universidade de Georgetown, em Washington, disse que grande parte do recente crescimento se deve ao crescimento exponencial das receitas dos commodities e "condições financeiras" favoráveis. As empresas precisam consolidar o progresso estabelecendo negócios a longo prazo sustentáveis, ele disse, o que envolverá em parte a codificação do que, em muitos casos no presente, são relacionamentos informais tácitos com investidores, fornecedores e clientes: "A menos que consigam condições operacionais certas elas poderão bater contra uma parede".

Outro problema é que o crescente aumento dos preços dos commodities tem contribuído em parte para um boom de exportação que provocou uma forte valorização da moeda do Brasil frente ao dólar, por exemplo, prejudicando a competitividade de exportação de muitos fabricantes. Muitas empresas agora estão se voltando ao mercado doméstico, onde o aumento do emprego e dos salários tem ampliado a demanda.

Mas muitas empresas menores não têm acesso ao financiamento estrangeiro barato desfrutado por gigantes como a Vale. Setores que passam por boom como a construção, especificamente, dependem do acesso ao crédito e ao financiamento do mercado financeiro que, sob as atuais condições globais, está longe de ser garantido. George El Khouri Andolfato

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