Eleições no Irã devem manter fundamentalistas no controle do parlamento

Roula Khalaf e Najmeh Bozorgmehr
Em Teerã

Hamid Reza Jalaei-Pour, um professor de sociologia da Universidade de Teerã, recebeu uma carta do Ministério do Interior no mês passado informando-o que ele não conseguiu se qualificar para participar das eleições parlamentares de sexta-feira.

Ele lembra-se de que a carta o descreveu como um homem bom, mas mencionou várias razões para que a sua candidatura fosse rejeitada, incluindo disputas com o judiciário a respeito dos seus textos e um suposto descrédito entre os cidadãos comuns. "Eles alegaram que eu não tenho uma reputação boa o suficiente", diz Jalaei-Pour. "Mas eu lutei durante oito anos na Guerra Irã-Iraque e três dos meus irmãos são mártires. Há um hospital batizado com o nome da nossa família devido ao nosso martírio".

O poder de desqualificar candidatos reformistas em eleições é há muito tempo um instrumento útil para o Ministério do Interior do Irã e o seu Conselho Guardião, a instituição que dá a palavra final para determinar se os candidatos são suficientemente leais para a revolução e a constituição islâmicas. Mas políticos como Jalaei-Pour enxergam na medida deste ano uma mensagem mais ampla - uma tentativa sistemática de remover do cenário político os reformistas - que controlaram a presidência de 1997 a 2005, e o parlamento de 2000 a 2004.

Eles argumentam que as desqualificações têm como objetivo criar uma onda de desespero entre os que os apóiam. Essas medidas tiveram como alvos figuras antigas, incluindo quatro ministros e dezenas de vice-ministros que serviram no governo de Mohammad Khatami, o ex-presidente moderado, bem como dezenas de ex-parlamentares. Há também indicações de que os reformistas possam ter ensaiado um retorno político, tendo saído-se surpreendentemente bem nas eleições do ano passado para os conselhos municipais. "Estamos nos deparando com uma eleição meticulosamente projetada", acusa Jalaei-Pour.

Morteza Nikoubazl/Reuters - 11.mar.2008 
Iranianas escrevem seus nomes para apoiar seu candidato favorito para as eleições do país

A desqualificação dos candidatos reformistas impediu os partidos deles de concorrer em cerca de 50% das regiões eleitorais. Isso praticamente garantiu a vitória na eleição iraniana aos seus rivais, os fundamentalistas, que acreditam ser os únicos sustentáculos dos ideais da revolução islâmica de 1979.

Embora os reformistas aleguem que a medida tirou toda a substância da eleição, existe, não obstante, uma disputa entre várias facções do campo fundamentalista. Os elementos de linha dura estão unidos no seu apoio ao aiatolá Khamenei, que detém as verdadeiras rédeas do poder na república islâmica. Eles não buscam reformas do sistema islâmico, e tampouco questionam a tentativa obstinada do Irã de criar um programa nuclear. Mas vários fundamentalistas vêem o estilo de governo de Mahmoud Ahmadinejad, o presidente que desafiou o Ocidente com o programa nuclear iraniano e indignou o mundo com a sua retórica, como desnecessariamente confrontador e consideram o seu gerenciamento da economia doméstica irracional.

Embora a crítica dos radicais seja mais polida do que a dos reformistas, o objetivo deles nesta eleição é ganhar votos suficientes e usar o próximo parlamento para enfraquecer o presidente, na esperança de minar as suas chances de reeleger-se no ano que vem.

O voto parlamentar é de fato visto no Irã como uma espécie de prévia da eleição presidencial. Em Teerã e em várias outras regiões eleitorais, figuras conservadoras importantes e possíveis candidatos à presidência - tais como Ali Larijani, que era a autoridade mais importante do país nos setores nuclear e de segurança, e que renunciou em outubro do ano passado após um desentendimento com o presidente, e Mohammad-Baquer Qalibaf, o ambicioso prefeito de Teerã - estão apoiando uma lista de candidatos que competem com uma coalizão que inclui pessoas próximas a Ahmadinejad.

Os analistas dizem que os resultados da eleição influenciarão a decisão do líder supremo no sentido de apoiar ou não Ahmadinejad para um segundo mandato presidencial. "O apoio do líder a Ahmadinejad depende das eleições para o majlis (parlamento). Se o presidente não mostrar um bom desempenho o líder poderá descartá-lo", diz uma pessoa que faz parte do regime.
ELEIÇÕES NO IRÃ
Atta Kenare /AFP - 13.mar.2008
Carro coberto com panfletos de candidato para o parlamento do Irã
NOVA GERAÇÃO DE POLÍTICOS


Apesar de criticar o desempenho econômico do governo, no mês passado Khamenei elogiou a "resistência" do presidente na disputa nuclear, insistindo que ela deu resultados. Ele recomendou aos eleitores que votem em candidatos que sejam "corajosos, religiosos e explícitos quando se trata de expressar os valores e princípios da revolução".

Foi também com um olho na eleição presidencial que os reformistas decidiram não boicotar as eleições parlamentares. Com a campanha eleitoral restrita a uma única semana, grande parte da mídia nas mãos dos fundamentalistas e várias das suas figuras desqualificadas, os reformistas esperam na melhor das hipóteses fortalecer a sua atual minoria parlamentar. Mas um boicote daria ao regime uma desculpa para impedi-los de participar da eleição presidencial no ano que vem, que seria muito mais difícil de controlar, especialmente se políticos proeminentes como Khatami dela participassem - algo que acredita-se que ele esteja cogitando.

"O objetivo da facção governista é nos impedir de participar, e caso não tenhamos cadeiras no parlamento, eles poderiam dizer: 'Vocês são contrários ao sistema e, portanto, não podem participar da eleição presidencial'", afirma Mohammad-Ali Abtahi, um ex-vice-presidente reformista.

Porém, os fundamentalistas desprezam os protestos dos rivais, afirmando que as reclamações dos reformistas mascaram a sua fraqueza eleitoral. "As desqualificações não são uma questão relevante. Esta será uma das eleições mais competitivas, e as nossas pesquisas de opinião demonstram que o povo apóia os fundamentalistas", insiste Ali-Reza Zarei, um representante da principal coalizão fundamentalista.
Para os eleitores iranianos, que pouco sabem a respeito das manobras políticas em Teerã, a eleição parlamentar diz respeito a uma única questão - a economia, e mais precisamente a inflação crescente. Nas ruas da capital, as preocupações com o Ocidente, o enriquecimento de urânio e a imposição de sanções econômicas raramente são mencionadas. Em vez disso os iranianos reclamam da disparada dos preços dos alimentos e da moradia, no momento em que a taxa oficial de inflação sobe para um patamar superior a 20%. Muitos moradores de Teerã dizem que não se darão ao trabalho de votar, alegando que nenhum político fez nada para melhorar a situação deles ou para distribuir o dinheiro obtido pelo Irã com a disparada do preço do petróleo.

"Esse parlamento nada fez por nós. Eles encheram os bolsos de dinheiro enquanto os preços altos sufocavam o povo", reclama Mahmoud, um lojista de um bairro de classe média. "Atualmente os jovens não podem sequer se casar porque não têm como alugar um apartamento".

A classe política captou a mensagem de forma clara, e todo grupo que disputa a eleição colocou a economia no topo da sua plataforma politica. Até mesmo os reformistas relegaram a segundo plano a sua promessa de promover direitos democráticos, citando explicitamente a luta contra a inflação como a sua prioridade nos panfletos de rua que apresentam os candidatos.

Mas não se sabe quantos eleitores responsabilizarão Ahmadinejad diretamente pelos problemas econômicos. Na sua tentativa de distribuir a riqueza oriunda do petróleo, ele não poupou gastos e obrigou os bancos a reduzir os juros e a conceder mais empréstimos aos pobres. Tudo isso alçou as taxas de liquidez a níveis sem precedentes e pressionou os preços para cima, prejudicando sobremaneira os segmentos mais pobres da população.

Mas muitos dos que apóiam o presidente ainda vêem nele um líder bem intencionado, que tentou mas não conseguiu melhorar a situação econômica do povo, e alguns parecem inclinados a responsabilizar as pessoas à volta de Ahmadinejad pelos problemas. "Ele fez muitas coisas boas. Por que deveríamos culpá-lo pelos preços altos? Quantas pessoas ele é capaz de controlar?", argumenta Shirine, dono de um pequeno mercado que vende peixes vermelhos comprados pela população para o ano novo iraniano, que será no mês que vem.

Para proteger-se de um voto de protesto, Ahmadinejad não está participando da eleição com uma lista própria, mas incluiu pessoas próximas a ele em uma coalizão mais ampla que inclui dois outros partidos. Esta é uma mudança de tática em relação à eleição municipal do ano passado, quando o presidente endossou uma lista - a "Fragrância Agradável do Serviço" - que foi amplamente rejeitada pelos eleitores.

Enquanto isso, a coalizão que inclui os próprios candidatos de Ahmadinejad - a Frente Fundamentalista Unida - diz que também critica a política econômica do governo. "Apoiamos o governo em macro-questões e em assuntos relacionados aos interesses nacionais, mas também criticamos certas políticas governamentais", afirma Shahabeddin Sadr, diretor-executivo da coalizão, citando as frustrações provocadas pela inflação. "Precisamos de um parlamento com conhecimento e força para lidar com as questões econômicas", acrescenta ele, prevendo que a coalizão vencerá confortavelmente e obterá a maioria das cadeiras no parlamento.

Sadr também minimiza as diferenças em relação à outra principal chapa fundamentalista - conhecida como Coalizão Fundamentalista Inclusiva, um nome similar que poderá confundir os eleitores -, insistindo que existe cooperação entre as duas coalizões e que alguns candidatos disputam em ambas.

Embora o mundo exterior possa apreciar qualquer sinal de que a popularidade de Ahmadinejad esteja em queda, a mensagem básica dessa eleição não é nada confortadora, independentemente dos resultados. A determinação de manter todas as instituições nas mãos dos fundamentalistas sugere que o regime está, acima de tudo, disposto e determinado a não permitir qualquer dissenso, sobremaneira com relação à estratégia nuclear.

É verdade que a pressão sobre a economia intensificou-se devido às sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) e dos Estados Unidos, que foram elaboradas para convencer Teerã a interromper o enriquecimento de urânio. As sanções elevaram o custo do comércio e atrapalharam as atividades dos bancos iranianos. Mas com o preço do petróleo em níveis recordes, as autoridades iranianas têm se mostrado dispostas a arcar com o ônus por desafiar a ONU. Atrasos em investimentos de longo prazo bastante necessários, especialmente no setor de petróleo e gás, também são considerados pelo regime um preço que vale a pena ser pago.

Nesse ínterim Ahmadinejad tem usado a pressão internacional sobre o programa nuclear do Irã para obter apoio na eleição, apresentando a disputa e as sanções como uma tentativa de negar ao Irã um direito básico ao desenvolvimento científico. Nessa atmosfera até mesmo os reformistas - alguns dos quais dizem reservadamente que o Irã deveria cogitar suspender as atividades nucleares e dar uma chance às negociações com as potências ocidentais - não fazem nenhuma declaração pública contra o programa atômico, e o apóiam em seus discursos.

Embora uma terceira rodada de sanções limitadas da ONU na semana passada possa ter sido montada em parte para frisar aos iranianos o risco de buscar a tecnologia nuclear, essa mensagem pode ter se perdido na barragem da propaganda estatal, que declara periodicamente que o Irã obteve mais uma vitória contra o Ocidente.

Pessoas próximas ao regime dizem que a alta liderança iraniana está de olho em uma outra eleição - a eleição presidencial nos Estados Unidos - para apresentar os progressos na frente nuclear. Segundo uma dessas pessoas, mesmo se os republicanos vencerem novamente, as eleições norte-americanas causarão "uma mudança nas relações", sendo que o Irã espera que o próximo ocupante da Casa Branca ofereça uma grande barganha na qual "tudo seja colocado sobre a mesa".

Enquanto isso, o regime sem dúvida comemorará as eleições parlamentares, qualquer que seja o resultado, como mais uma vitória - um voto de confiança no regime islâmico, bem como na batalha deste contra o Ocidente. UOL

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