Dólar em queda é dor de cabeça para países que adotam câmbio fixo

Joanna Chung e Peter Garnham

O colapso do dólar americano, que sofreu mais uma queda drástica na quinta-feira (13/03), está causando dificuldades cada vez maiores para as economias quem têm as suas moedas atreladas à dos Estados Unidos em um sistema de câmbio fixo.

Um dólar em queda, cujo declínio vem se acelerando devido a uma série de reduções das taxas de juros nos Estados Unidos, está alimentando crescentes pressões inflacionárias em países como a China, a Arábia Saudita e a Rússia.

Essas pressões, capazes de gerar problemas econômicos e sociais significativos, podem piorar se, conforme se espera, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), reduza a sua principal taxa de juro em 75 pontos-base de 3% na semana que vem.

De fato, alguns analistas acreditam que o agressiva política adotada pelo Fed para estabilizar a economia norte-americana pode acabar desestabilizando aquelas economias de mercados emergentes que adotam câmbios fixos ou quase fixos na paridade com o dólar.
DESVALORIZAÇÃO DO DÓLAR
Alex Grimm/Reuters
Operador da bolsa de Frankfurt observa valor do câmbio do euro frente ao dólar nesta quinta (13/3)
MOEDA TEM BAIXA RECORDE
KRUGMAN: IMPOTÊNCIA DO FED


As economias que atrelam ou vinculam fortemente as suas moedas ao dólar americano estão na verdade presas à taxa de juro mais baixa preconizada pela política monetária do Fed.

"Nem a Arábia Saudita nem Hong Kong precisam de taxas de curto prazo inferiores a 3%", afirma David Bowers, diretor-gerente de estratégia global da Absolute Strategy Research.

"A última coisa da qual essas economias necessitam é uma redução agressiva das taxas de juros pelo Fed em um momento no qual os preços das mercadorias vão às alturas, estimulados pela queda do dólar" acrescenta Bowers.

Assim, aumenta a possibilidade de que a disparada dos preços, especialmente os dos alimentos, gere distúrbios sociais e instabilidade política. "Ao deixar de reconhecer a dimensão externa da crise de crédito, o Fed poderá introduzir uma nova fonte de instabilidade", adverte o diretor-gerente.

Ed Yardeni, presidente da Yardeni Research, acrescenta: "Nas economias emergentes, o núcleo da inflação para a maioria das pessoas é determinado principalmente pelos preços dos alimentos e da energia. Nesses países, os presidentes dos bancos centrais (que não são tão politicamente independentes quanto os seus congêneres das economias avançadas) relutam em endurecer de forma mais agressiva a política monetária para combater a inflação porque isto poderia desencadear uma recessão, algo que seria politicamente desestabilizante. Assim, cada vez mais eles deixam que as suas moedas se valorizem, como principal política antiinflacionária. Isso significa que eles estão cada vez menos dispostos a sustentar o dólar, que pressiona os preços das mercadorias, causando o problema inflacionário".

A China já reagiu a uma disparada da inflação doméstica acelerando o ritmo da valorização do renminbi, uma moeda que os chineses administram cuidadosamente na sua paridade com o dólar. Até outubro do ano passado permitia-se que o renminbi se valorizasse a uma taxa anual fixa de 5% ao ano em relação ao dólar.

Desde então, a moeda chinesa aumentou 10,5% em relação ao dólar, sendo que na quinta-feira ela atingiu o recorde de Rmb 7,0900, em meio a boatos de que o país estaria planejando uma grande revalorização do renminbi.

As tensões cambiais também se intensificam na região do Golfo Pérsico. Julian Jessop, do Capital Economics, diz que as dúvidas em vários países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, na sigla em inglês) quanto à vantagem de manter-se um câmbio fixo em relação a um dólar em queda só poderão aumentar caso as taxas de juros nos Estados Unidos continuem a ser reduzidas agressivamente.

Mas eles contam com poucas opções em termo de política cambiais. "Não há a política monetária ou a taxa de câmbio necessárias para combater a inflação. Portanto, só resta a política fiscal, que neste momento está em uma fase expansiva. Isto é um dilema", afirma Mohsin Khan, diretor do Departamento do Oriente Médio e da Ásia Central do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Na semana passada, os mercados cambiais mais uma vez lançaram um ataque contra o sistema de câmbio fixo do GCC em meio a rumores de que revalorizações seriam iminentes, empurrando o rial de Qatar, o dirham dos Emirados Árabes Unidos e o rial saudita para os patamares mais elevados desde dezembro passado.

Os investidores duvidam que os sistemas de câmbios fixos continuarão em vigor.

Nos mercados de câmbios, os investidores vendem apostando em um aumento de 4,7% do rial de Qatar, de 3,2% do dirham dos Emirados Árabes Unidos e de 2,1% do rial saudita nos próximos 12 meses.

Simon Derrick, do Bank of New York Mellon, diz que os boatos de que os gerentes de fundos de investimentos do Oriente Médio venderam agressivamente dólares nesta semana só fizeram aumentar a especulação sobre reajustes cambiais.

Uma opção poderia ser seguir o exemplo do Kuait, que no ano passado abandonou a paridade fixa com o dólar e adotou uma "cesta de moedas" - embora os analistas digam que a medida não ajudou o país a reduzir a sua inflação.

"O principal argumento para que se abandone o câmbio fixo é que isso poderia aliviar o problema da inflação", afirma Khan. "Pode ajudar, mas só até um certo ponto".

Além do mais, a maior parte dos ativos externos mantidos pelas economias emergentes é avaliada em dólares.

Uma revalorização significaria uma perda do valor desses ativos. "Esses países são grandes reservas de dólares. Eles não querem dar um tiro no pé", diz Arnab Das, diretor de pesquisas sobre mercados emergentes globais do Dresdner Kleinwort.

Os países do Golfo Pérsico - e outros mercados emergentes que enfrentam a inflação - poderiam tentar outras estratégias, incluindo maiores subsídios, aumento dos salários do setor público e controles administrativos sobre preços e aluguéis.

Mas Bowers afirma: "Pode haver um limite para até que ponto esses preços possam ser contidos por meio de subsídios e controles de preços... O que nos preocupa é que, ao se depararem com o aumento da inflação doméstica, os mercados emergentes podem abandonar os seus sistemas de câmbio fixo e permitir que as suas moedas valorizem-se em relação ao dólar, em alguns casos em até 20% ou 30%". UOL

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