Kuwait descobre que não está livre do sectarismo

Andrew England
No Kuwait

Quando um comandante sênior do grupo militante libanês Hizbollah foi assassinado na Síria no mês passado, poucos cidadãos do Kuwait esperavam que houvesse alguma repercussão em seu tranqüilo território no Golfo.

Mesmo assim o drama que emergiu com a explosão do carro-bomba em Damasco despertou a preocupação entre os kuwaitianos, mostrando que o país não está imune às tensões sectárias que teimam em persistir no Oriente Médio desde a invasão norte-americana ao Iraque.

Para os kuwaitianos, a saga começou depois que vieram à tona notícias de que um grupo da expressiva minoria shia - incluindo dois membros do Parlamento e vários ex-parlamentares - reuniu-se para velar e homenagear Imad Moughniyah, o comandante assassinado do Hizbollah.

Alguns kuwaitianos viam Moughniyah como um terrorista, um extremista supostamente envolvido no seqüestro de um avião da Kuwait Airways em 1988 e na morte de dois passageiros kuwaitianos. Quando os compatriotas da minoria shia foram vistos rendendo homenagens ao militante, as fagulhas começaram a voar pelos ares.

Alguns sunitas, que pediram para que os parlamentares - que estão sendo acusados de fazer parte de um "Hizbollah" kuwaitiano - fossem julgados, acabaram sendo expulsos de suas bancadas. Também houve pedidos para que a imunidade parlamentar fosse retirada e eles pudessem ser processados.

Outros três ou quatro membros da comunidade shia foram detidos e surgiram rumores de que o governo teria expulsado, ou planejava expulsar, os estrangeiros que haviam comparecido à cerimônia em uma Husseiniya (prédio comunitário shia).

"Isso dividiu o país e deixou muitos kuwaitianos nervosos - tanto sunitas quanto, principalmente, os shia", diz Abdullah Alshayji, professor de política da Universidade do Kuwait. "O fato deu aos sunitas linha-dura uma boa desculpa para aproveitarem a onda e falarem sobre a afiliação e a lealdade dos shia. A atmosfera ficou polarizada."

Estima-se que, no Kuwait, os shia - que têm suas raízes no Irã - representem entre 25 a 30% da população indígena. Essas comunidades têm vivido em relativa harmonia desde que a revolução iraniana espalhou tensão por toda região nos anos 80.

Muitos culpam o governo por ter reagido tardiamente. Ele apenas se pronunciou sobre o assunto alguns dias depois.

Em uma das reportagens mais sensacionalistas, um jornal citou "fontes" que diziam existir no país células terroristas adormecidas tentando minar a segurança nacional.

Ainda assim, os kuwaitianos dizem que o país não tem os mesmos problemas que têm os outros países do Golfo com uma maior população shia, como o Bahrein e a Arábia Saudita.

No Kuwait, dois ministros de gabinete são shia, assim como quatro dos 50 parlamentares eleitos. Também há proeminentes famílias shia entre a rica classe mercantil.

Enquanto poucos procuram minimizar o impacto do incidente, os kuwaitianos também dizem que os dois parlamentares que homenagearam Moughniyah representam apenas uma pequena fração da ampla comunidade shia. Eles apontam para o fato de que a invasão do Kuwait por Saddam Hussein em 1990 ajudou a criar um vínculo entre as duas comunidades e forjar um senso de unidade nacional.

"Eles são parte do sistema e estão aqui há séculos e mostraram sua lealdade ao país durante a ocupação iraquiana", diz Alshayji.

Mas o incidente Moughniyah indica que alguns sunitas não precisam de muito para levantar o fantasma de uma "quinta coluna" shia, disse um diplomata.

Masoumah al-Mubarak, uma cientista política shia da Universidade do Kuwait que também foi a primeira ministra mulher do país, disse que alguns indivíduos tanto na comunidade sunita quanto na shia quiseram explorar o incidente.

"É como queijo suíço, todo mundo quer colocar o dedo no buraco, e é claro que isso não favorece a estabilidade do Kuwait", disse. Eloise De Vylder

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