Analistas avaliam os custos de uma crise financeira para os EUA e o mundo

Chris Giles

O caos tomou conta dos mercados financeiros. Pequenos bancos europeus e grandes bancos de investimentos dos Estados Unidos sucumbiram. O crédito está se evaporando e o dinheiro deixando de fluir. O pessimismo econômico anda em alta.

Mas com a exceção do número ainda relativamente pequeno de moradias norte-americanas que sofrem execução hipotecária, os efeitos sobre as companhias e moradias em todo o mundo foram até o momento limitados.

Após meio ano de arrocho do crédito, o desemprego nos 30 países ricos representados na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mantém-se em 5,5%, um valor que é 0,3 pontos percentuais inferior ao de um ano atrás. Até mesmo nos Estados Unidos, a proporção de pessoas sem trabalho aumentou apenas 0,3 pontos percentuais entre fevereiro do ano passado e fevereiro deste ano. O ano de 2007 foi simplesmente maravilhoso para o crescimento econômico, fechando o melhor período de quatro anos de crescimento global registrado durante mais de 30 anos. A última estimativa do Fundo Monetário Internacional (FMI) identifica uma expansão econômica mundial de 4,9%.

John Gress/Reuters - 28.jan.2008 
Casa fechada em Chicago: preços dos imóveis estão despencando nos EUA, escreve o FT

Em suma, a economia global está no meio de uma guerra de mentira. O futuro parece negro, mas o presente ainda dá a impressão de ser relativamente róseo.

Não havia como negar as preocupações das instituições financeiras internacionais na segunda-feira. Dominique Strauss-Kahn, o diretor-gerente do FMI, disse em uma conferência em Paris: "É evidente que nos deparamos com uma situação em que os riscos para o crescimento econômico são nitidamente cada vez mais graves". Angel Gurría, o secretário-geral da OCDE, disse que na sexta-feira (21/03) a sua organização reduzirá as expectativas em relação às economias européia e norte-americana.

Mas caso se concretize um quadro semelhante às últimas previsões - crescimento econômico mundial de 4,1% em 2008, segundo as projeções atualizadas de janeiro do FMI - a crise de crédito não se revelará aquele evento cataclísmico temido por Wall Street. Para que tais temores se concretizem a economia global precisa cair em dois círculos viciosos interligados.

O primeiro tem um nome feio: "círculo de retroalimentação negativa" entre os mercados financeiros e a economia concreta. Paul Tucker, o diretor de mercados do Banco da Inglaterra, advertiu em dezembro: "Temos que tentar evitar um círculo vicioso no qual fatores como condições de liquidez mais rígidas, menor valor dos ativos, recursos de capital deficitários e demanda agregada mais lenta retroalimentam um ao outro". O medo é de que os bancos transmitam o seu sofrimento para os clientes que tomaram dinheiro emprestado, cobrando juros mais altos, o que, por sua vez, aumentaria o índice de insolvência e dificultaria ainda mais a situação dos bancos.

A segunda espiral de dívida-deflação é bem conhecida no Japão, onde a economia ainda luta para emergir da crise dos anos noventa, caracterizada pelo aumento das poupanças que levou à queda dos preços, o que fez com que aumentasse o peso das dívidas e induziu os mutuários a pouparem ainda mais.

Até o momento há poucas evidências concretas de que quaisquer dessas condições terríveis estejam tomando conta do cenário. Todas as pesquisas sobre a situação do crédito na zona do euro, nos Estados Unidos e no Reino Unido revelam que os bancos estão reduzindo o crédito para aquisição de imóveis e que pretendem endurecer as exigências ainda mais, mas o empréstimo bancário ainda precisa cair significativamente. Os custos de empréstimos das companhias com capacidade creditícia não aumentaram muito, e tampouco o custo das hipotecas.

Conforme observa Erik Nielsen, o principal economista europeu do Goldman Sachs, "é difícil identificar se já está ocorrendo um círculo vicioso", já que parte dos atuais empréstimos bancários representa o bailing-out (venda rápida de papéis ou mercadorias, independentemente do preço que o vendedor possa obter) forçado de veículos de off-balance sheets (bens, dívidas ou atividades financeiras que não fazem parte do balanço patrimonial de uma empresa).

Mas não há dúvida que o temor e o risco estão presentes. Kenneth Rogoff, professor da Universidade Harvard e ex-economista do FMI, afirma: "A crise de crédito está transformando-se rapidamente em um colapso de crédito. Os mesmos fatores que expandiram a bolha imobiliária dos Estados Unidos estão agora funcionando em sentido contrário, e ninguém ainda enxergou o fundo do poço no que se refere a este problema".

Michael Hume, principal economista europeu do Lehman Brothers, diz que embora as evidências concretas de adoção de normas mais rígidas para os padrões de crédito na economia real ainda sejam frágeis, "os bancos parecem estar restringindo o crédito para outros bancos e para instituições financeiras não bancárias, o que está levando a um enfraquecimento das operações dentro do sistema financeiro". Ele acrescenta que isso está atingindo o balanço geral das instituições bancárias e ameaçando dar início a uma espiral descendente "que pode ser difícil de se interromper".

Sir Howard Davies, diretor da Escola de Economia de Londres e diretor não executivo do Morgan Stanley, acha que mesmo depois que o pior momento da crise acabar, "os bancos sobreviventes terão passado por um choque corretivo e continuarão a priorizar a restauração dos seus mecanismo de proteção de capital, de forma que o crédito ficará restrito por algum tempo, com sérias conseqüências, especialmente para a economia dos Estados Unidos".

Espalham-se também os temores de que os bancos europeus e asiáticos possam não ser imunes, especialmente caso as recentes quedas do valor de mercado das dívidas hipotecárias norte-americanas de primeira linha continuem ocorrendo. Eles compraram uma quantidade muito maior dessas dívidas do que das subprimes.

No momento o pavor de uma espiral dívida-deflação similar à do Japão na década de 1990 está conduzindo a política monetária dos Estados Unidos. O Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) não acredita que a tendência de crescimento tanto da economia quanto da inflação esteja fadada a ser negativa, mas a sua ação agressiva para reduzir as taxas de juros representa a sua percepção de deve-se fazer tudo o que for possível para evitar tal cenário.

Com os preços dos imóveis já despencando nos Estados Unidos, e desacelerando-se ou estagnados em outras grandes economias, as propriedades comerciais parecendo frágeis em ambos os lados do Atlântico e as rápidas quedas do dólar reduzindo o valor dos ativos baseados na moeda norte-americana, crescem as chances de que haja uma queda da riqueza global que exacerbe qualquer desaceleração devido à redução de gastos e investimentos dos consumidores.

Uma terceira força depressora das economias avançadas é o aumento da inflação, pressionada para cima pela alta do petróleo, dos alimentos e das commodities. As pressões inflacionárias - que segundo as manchetes são de 4% nos Estados Unidos, 3,3% na zona do euro e 2,5% no Reino Unido - limitam a capacidade dos bancos centrais de injetar dinheiro no desaquecimento econômico global por medo de reacender o problema da inflação que se acreditava ter sido derrotada em meados da década de 1980.

O Fed, por outro lado - encontrando-se no centro da crise de crédito - tem se preocupado mais com o risco de uma catástrofe financeira do que com o aumento da inflação. O professor Rogoff acredita que o fato de os Estados Unidos focarem-se apenas na redução das taxas de juros é um erro e alerta: "Ao final desse processo o país enfrentará anos de elevada inflação, com ou sem uma recessão épica".

Outros bancos centrais têm contado com maior margem de manobra para reclamarem dos rápidos aumentos dos preços, sendo que dados obtidos a partir de pesquisas demonstram que os consumidores estão começando a achar normal a inflação mais alta.

Mervyn King, diretor do Bank of England, foi curto e grosso ao dizer aos consumidores britânicos no mês passado: "Os preços mais elevados da energia e dos alimentos representam uma redução genuína no nosso padrão de vida. A população precisa aceitar o fato de que isso não é algo que podemos compensar simplesmente exigindo salários maiores, porque tal exigência apenas levaria a um outro ciclo de aumento de preços".

Com todas essas advertências de autoridades governamentais e economistas nos Estados Unidos e na Europa, qualquer um seria perdoado caso achasse que a economia está prestes a cair em um dos dois círculos viciosos, com o risco adicional de uma dose desagradável de inflação. No entanto, neste momento isso seria um exagero.

Julian Jessop, da consultoria Capital Economics, observa: "A crise financeira ainda está em grande parte confinada aos Estados Unidos e a algumas partes da Europa Ocidental, tendo pouco ou nenhum impacto mais ao leste".

Gerard Lyons, principal economista do Standard Chartered, afirma: "São os Estados Unidos, e não o mundo, que estão enfrentando esse círculo vicioso. Antes que alguém fique excessivamente pessimista, é preciso notar que o boom experimentado pela economia global nos últimos cinco anos não foi provocado apenas por uma farra de crédito nos Estados Unidos, mas que ele foi o reflexo de uma alteração fundamental motivada por uma mudança de longo prazo. Após um problema cíclico, que atingirá as economias menos protegidas, a mudança estrutural presenciada em todo o mundo deverá continuar".

Julian Callow, do Barclay Capital, diz que, como a maior probabilidade é de que os problemas atinjam países com grandes dívidas, aqueles que atualmente dispõem de superávits financeiros, sistemas bancários bem capitalizados e são exportadores de mercadorias deverão sair-se bem. Ele aponta a América Latina, com a exceção do México, como um foco inesperado de estabilidade, precisamente devido à história de crises da região. "A experiência histórica dos países latino-americanos com as crises significa que eles geraram vários dispositivos emergenciais de proteção, incluindo setores bancários bem capitalizados".

Fred Bergsten, diretor do Instituto Petersen de Economia Internacional, vê o ímpeto ininterrupto nas economias asiáticas emergentes, e especialmente na China, como uma fonte de otimismo para os Estados Unidos em tempos difíceis. "Até o momento não existem sinais de uma transmissão significativa dos problemas dos Estados Unidos para a China, a Índia ou a maioria desses países", argumenta ele, acrescentando: "O vigor contínuo dessas nações gerará um grau significativo de "acoplamento reverso", limitando a um nível importante o grau de desaquecimento econômico dos Estados Unidos".

O crescimento vigoroso, mesmo que seja mais lento, nas economias emergentes, não será algo que socorrerá os Estados Unidos, tendo em vista os problemas domésticos deste país. Martin Feldstein, professor da Universidade Harvard e presidente do Departamento Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos, acredita que a economia já está em recessão e que ela pode enfrentar um período com o potencial para ser o mais devastador desde a Segunda Guerra Mundial. Mas ele acha que a economia norte-americana pode limitar os riscos de um impacto negativo e de uma contaminação de economia do resto do mundo.

Embora a visão do Goldman Sachs de que, segundo os índices de mercados de câmbio, o fato da zona do euro ser atualmente a maior economia do mundo é puramente simbólico, ele serve para ressaltar a falácia de se acreditar que o mundo é incapaz de sobreviver sem uma economia norte-americana forte. Mas o cenário é terrivelmente incerto e, por ora, as previsões feitas em determinada semana podem ser descartadas na semana seguinte.

No momento pouca gente ousa prever o quanto cairão os preços dos imóveis nos Estados Unidos; se as inadimplências em pagamentos de propriedades comerciais, dívidas de cartões de crédito e financiamentos de automóveis crescerão, aprofundando os problemas dos bancos; o quanto os bancos restringirão o crédito para clientes de baixo risco a fim de
proteger os seus balanços patrimoniais; se o dólar em queda disseminará medo pelos mercados financeiros globais; ou se os preços dos imóveis em outras economias cairão tão rapidamente quanto nos Estados Unidos.

Com incertezas tão fundamentais, é quase impossível adivinhar qual será o cenário básico da economia global. As perspectivas deterioram-se. A economia mundial sofrerá uma desaceleração no ano que vem e os países avançados estarão no limite de risco.

Para os Estados Unidos, a questão é determinar qual será o impacto desta dura aterrissagem. Para a Europa e o Japão trata-se de saber se a aterrissagem será tranqüila ou complicada. E, para várias economias emergentes, pode ser que não haja aterrissagem nenhuma. UOL

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