Cristina Kirchner completa cem dias acidentados de governo

Jude Webber
Em Buenos Aires

A vida não tem sido um mar de rosas para a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, em seus primeiros cem dias no cargo. Ela completou esse marco esta semana, entre protestos de agricultores contra o aumento de impostos sobre as lucrativas exportações de cereais que alimentam o boom econômico da Argentina e uma polêmica crescente sobre a suposta interferência do governo nos dados oficiais de inflação, o que tira a credibilidade do órgão nacional de estatísticas, Indec.

Suas promessas de uma política externa com um novo estilo e um pacto social para acalmar as reivindicações salariais e aumentar a produtividade não se materializaram. Ela enfrentou escassez de energia e de combustível e foi esnobada na semana passada quando a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, não incluiu a Argentina em sua turnê pela região. Além disso, os planos de renegociar a dívida de US$ 6,3 bilhões com o Clube de Paris de credores ocidentais -para melhorar a imagem do país e ajudar a liberar investimentos seis anos depois da maior moratória de dívida externa da história- hoje parecem inclinados a se arrastar.

Mas apesar de seus índices nas pesquisas terem caído ligeiramente em março a ex-senadora goza de alto apoio três meses depois de conquistar a presidência em uma avalanche eleitoral alimentada pela promessa de manter o forte crescimento produzido pelo governo anterior, de seu marido, Néstor Kirchner.

Reuters 16.mar.2008 
Tratores bloqueiam estrada durante protesto em Córdoba, Argentina

Três novas pesquisas de opinião situam seus índices de aprovação entre 47% e 65%, provando que apesar da alta inflação -estimada por economistas independentes em cerca de 20%, apesar do índice oficial divulgado de 8,5% em 2007- o boom econômico está dando à maioria das pessoas dinheiro, crédito e empregos suficientes para mantê-las felizes por enquanto. "As pessoas a vêem como uma continuação de Néstor Kirchner, e ele ainda é o político mais popular do país", disse o pesquisador Ricardo Rouvier, que realizou enquetes para o governo.

Uma pesquisa de mercado do Banco Central vê um crescimento de 7,3% em 2008, comparado com 8,7% em 2007, e Fernández diz que a economia expandiu 10,1% em janeiro, em relação a um ano antes. "A percepção é de que Kirchner está puxando muitos cordões", disse o economista Miguel Kiguel.

Mas o analista político Carlos Germano disse que o governo precisa acordar para o fato de que a Argentina hoje enfrenta novos desafios, e a receita pós-crise aplicada por Kirchner não vai funcionar para sempre. Apesar do crescimento benéfico, a confiança do consumidor caiu ao seu menor nível em cinco anos em março, segundo um estudo da Universidade Torcuato di Tella.
NO PAÍS VIZINHO
Crédito
A presidente Cristina Kirchner completou 100 dias no poder da Argentina
GAÚCHOS EM CÓLERA
DESABASTECIMENTO E PREÇOS ALTOS


Cristina Kirchner prometeu reformas institucionais mas depois cobrou novos impostos das mineradoras, que segundo os mineiros vão contra uma lei de estabilidade fiscal existente. Apesar de terem esperado que ela esfriasse as relações com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, a escassez de energia a obrigou a depender mais do país, que também é um grande comprador de títulos argentinos.

Enquanto isso, a Argentina continua isolada dos mercados de capitais internacionais pela ameaça de ação jurídica dos detentores de mais de US$ 20 bilhões em dívida argentina não paga.

Cristina reforçou a contabilidade fiscal do país e o Banco Central tem um recorde de US$ 50,4 bilhões em reservas, mas o ministro da Economia, Martín Lousteau, reconhece que a Argentina não é imune à fragilidade financeira global. E mesmo sem dúvidas sobre os dados de inflação e sem preocupações institucionais ela já enfrenta uma forte concorrência por investimento estrangeiro de seus pares regionais. "O Brasil recebe em um mês o que a Argentina recebe em um ano", disse Germano. "A presidente está seguindo um modelo econômico que ainda dá certo por enquanto, mas vai enfrentar problemas a menos que faça aperfeiçoamentos institucionais, como resolver o Clube de Paris, os 'holdouts' de títulos e o [instituto de estatísticas] Indec", ele acrescentou. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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