Fracasso na aquisição da Xstrata pela Vale frustra os dois lados

Rebecca Bream
Em Londres

O fracasso da companhia mineradora brasileira Vale em sua tentativa de adquirir a Xstrata, listada em Londres, deixou os dois lados se sentindo melancólicos ontem. Uma pessoa próxima à Xstrata comparou a oportunidade a quando a BHP da Austrália se fundiu com a Billiton da África do Sul para formar a maior mineradora do mundo, e disse que uma combinação Vale-Xstrata poderia ser uma plataforma semelhante para um futuro crescimento.

Embora as duas companhias sentissem que uma grande oportunidade tinha passado, em parte por causa das condições hostis do mercado, a Vale e a Xstrata se esforçaram para projetar a mensagem de que a vida continua e que nenhum dos lados precisava fazer esse negócio.

As ações da Vale subiram quase 5% depois da notícia e as da Xstrata fecharam em queda de 5,2%, enquanto o mercado eliminava a maior parte do prêmio de aquisição da ação.

EMPRESAS MINERADORAS
Michael Buholzer/Reuters
 
UM NEGÓCIO ABORTADO
Um analista de mineração baseado em Londres disse que a Xstrata rapidamente procuraria outros negócios. O grupo anglo-suíço cresceu rapidamente através de aquisições nos últimos cinco anos, e todos os olhares estarão na Xstrata depois do fim das negociações com a Vale.

Banqueiros disseram que Mick Davis, executivo-chefe da Xstrata, continua interessado em "acordos transformacionais". Mas eles minimizaram as expectativas de que a Xstrata revele em breve um novo negócio depois da ruptura com a Vale. É provável que as coisas fiquem calmas durante algum tempo enquanto a Xstrata examina oportunidades.

Davis disse no passado que estava decidido a entrar em platina e minério de ferro para diversificar o portfólio de seu grupo, de cobre, carvão, níquel, zinco e ferrocromo.

Analistas especularam ontem que a Xstrata poderia estudar a compra da Impala ou da Lonmin, respectivamente a segunda e a terceira maiores produtoras de platina do mundo. Mas está entendido que enquanto a Xstrata gosta especialmente dos negócios da Impala, acha que as companhias de platina são caras demais.

Quanto ao minério de ferro, há muito poucas companhias à venda e em qualquer proposta a Xstrata enfrentaria forte concorrência das companhias estatais chinesas, que estão comprando agressivamente ativos de minério de ferro para reduzir sua dependência da Rio Tinto e da BHP Billiton.

A grande pergunta é se a Xstrata poderia interessar à Anglo American, listada em Londres, em um negócio. Considera-se que uma combinação com a Anglo seria o maior desejo de Davis, pois isso traria exposição para platina e minério de ferro e poderia haver algumas sinergias na África do Sul e na América do Sul.

O aumento do preço das ações da Xstrata nos últimos meses significa que mesmo depois da queda de ontem ela não está muito abaixo da Anglo, tornando uma fusão menos impossível do que um ano atrás. Mas até agora a Anglo não se dispunha a conversar com a Xstrata, e pessoas ligadas à situação disseram que isso não mudou.

Se a Xstrata não encontrar outro grande negócio para fazer é provável que recomece seu programa de recompra de ações. O grupo disse ontem que agora novas recompras "certamente são uma opção".

Davis provavelmente está agora avaliando seus futuros planos à luz do fracasso da oferta da Vale. Ele tem grande parte de sua fortuna pessoal ligada a opções de ações da Xstrata, e enquanto estas começarão a dar dividendos em maio seu pacote de incentivos é feito para mantê-lo na Xstrata.

Uma mudança de controle teria provocado um desembolso em todas as opções, porém, e provavelmente ele teria saído se a Vale houvesse assumido.

Da parte da Vale, a companhia salientou ontem que sua prioridade é o crescimento orgânico e que tem grandes planos para construir novas minas de minério de ferro no Brasil.

Quanto a aquisições, o grupo provavelmente vai esperar que o atual turbilhão passe. Mas continua interessado em se diversificar do minério de ferro, e analistas disseram ontem que poderá examinar a produtora de cobre americana Freeport-McMoRan e também a produtora de alumínio norueguesa Hydro. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos