Crise nos EUA traz emigrantes de Governador Valadares de volta ao Brasil

Richard Lapper

No final de 2004, Genini Danelli pagou US$ 10 mil para aquele que os moradores locais chamam de "cônsul" para levá-lo ao México e dali cruzar a fronteira para entrar nos Estados Unidos. O operário de construção de 44 anos, da cidade brasileira de Governador Valadares, teve um mau retorno para o seu investimento.

Trabalhando em construções em Boston, Nova Jersey e mais recentemente na Carolina do Norte, Danelli ganhava cerca de US$ 500 por semana quando os tempos eram razoavelmente bons. Mesmo assim, foram necessários um ano e meio para pagar a dívida, e por volta do ano passado a situação começou a piorar rapidamente.

O real brasileiro valorizou frente ao dólar americano, depreciando o valor em moeda local dos US$ 300 a US$ 400 por mês que Danelli enviava para casa para sua esposa e quatro filhos.

Ao longo do último ano, ficou mais difícil encontrar trabalho devido à crise no mercado imobiliário americano; em alguns meses ele até mesmo teve dificuldade para pagar os US$ 700 por mês de aluguel nos Estados Unidos. Pouco antes do Natal, ele voltou ao Brasil e agora está organizando trabalho de construção em sua casa e trabalhando como taxista para ganhar um dinheiro extra.

"Funcionou para algumas pessoas, mas para mim não. Eu não sei por que, mas no final não valia mais a pena". disse Danelli, cujo irmão mora nos Estados Unidos dirigindo uma bem-sucedida empresa de jardinagem.

Em Governador Valadares, emigrantes decepcionados que voltam como Danelli estão se tornando cada vez mais comuns. Desde a recessão brasileira no final dos anos 80, a cidade ganhou uma espécie de reputação de centro de emigração para os Estados Unidos. De fato, entre 30 mil e 40 mil pessoas de Governador Valadares -o equivalente a cerca de um em cada oito dos 250 mil habitantes da cidade- vivem e trabalham nos Estados Unidos, a maioria deles nos subúrbios de Boston, como Framingham.

Mas nos últimos dois meses centenas -talvez até cerca de 3 mil pessoas- voltaram para casa, disse José Bonifácio Mourão, o prefeito da cidade. A desvalorização do dólar, o aumento do custo de vida americano, o colapso de qualquer perspectiva de reforma da imigração e um policiamento cada vez mais feroz tornaram os Estados Unidos um local menos atrativo.

"Os emigrantes estão realmente desanimados. Eles sentem que não têm perspectivas", disse Raimundo Santana, um jornalista e assessor do prefeito que já passou vários anos na área de Boston.

Até mesmo emigrantes bem-sucedidos estão desencorajados pelo lento declínio de seu poder aquisitivo. Por seis anos, Edson Djalma Fernández, 53 anos, e sua mulher, Giany Aparecida, 37 anos, trabalharam jornadas duplas em lojas de Boston da Dunkin' Donuts e enviavam US$ 3 mil por mês para casa, o suficiente para construir uma boa casa nova em um bairro de classe média de sua cidade natal.

Mas eles dizem que as coisas começaram a ficar mais difíceis depois de 2005. "Nós começamos a notar que nossas gorjetas estavam ficando menores. As pessoas começaram a recolher seus trocados quando vinham para tomar café", disse Aparecida.

O preço da gasolina começou a subir e a força do real -ele mais que dobrou de valor desde 2002- fez com que Aparecida não conseguisse enviar o mesmo que antes para sua mãe e filhos. No final de 2006 ela voltou para casa, seguida um ano depois por seu marido. "Nós poderíamos ter ficado por mais dois anos, mas por causa do câmbio, realmente não valia mais a pena", ela disse.

A enxurrada de pessoas retornando a Governador Valadares está causando alguns estragos na economia da cidade. Sueli Siqueira, uma socióloga da Universidade Vale do Rio Doce, na cidade, entrevistou 200 pessoas que voltaram recentemente e descobriu que menos da metade delas acumulou algum capital em sua passagem pelos Estados Unidos.

Santana disse que os preços dos imóveis caíram e os corretores dizem que poucos emigrantes agora dispõem de dinheiro para pagar por terrenos. Mais de 20 agentes de viagem especializados no trajeto México-Estados Unidos fecharam suas portas nos últimos dois anos.

O declínio nas remessas -estimadas por Santana em cerca de R$ 120 milhões por ano- poderá causar problemas adicionais, atingindo o poder aquisitivo local de vários modos. Siqueira disse que muitos estudantes dependem do dinheiro enviado por parentes que vivem no exterior para pagar pelo seu estudo, mas que agora estão acumulando pagamentos atrasados, por exemplo.

Muitos dos emigrantes que voltaram recentemente já estão considerando emigrar de novo. Siqueira disse que 28% de seus entrevistados então pensado em emigrar para a Europa, em parte porque a moeda mais forte aumentará o valor do dinheiro que enviarem para casa.

Países como Portugal, Espanha e Itália são particularmente atrativos, porque os brasileiros não precisam de visto para entrar neles, ela disse.

Genilson Soares, 22 anos, que foi recentemente deportado dos Estados Unidos, onde trabalhava como operário de construção, é um deles e disse que adoraria ir para Portugal ou -melhor- estudar no Canadá. "Eu aprendi como a vida é vivida fora do Brasil e realmente quero tentar isso de novo", ele disse. "É possível ganhar US$ 100 por dia lá. Aqui necessito de duas semanas." George El Khouri Andolfato

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