Renascimento das cidades empurra americanos pobres para a periferia

Daniel Pimlott

Quarenta anos atrás, Washington presenciava tumultos que cavaram um caminho de destruição pela cidade, em certo momento chegando a poucos quarteirões da Casa Branca. A violência foi a resposta furiosa ao assassinato de Martin Luther King, o líder dos direitos civis, em 4 de abril de 1968. Quando a rebelião terminou, quatro dias depois, 12 pessoas haviam morrido, mais de mil estavam feridas e centenas de prédios tinham sido queimados até o chão.

O reverendo Walter Fauntroy, na época um intermediário entre King e o então presidente Lyndon Johnson, assim como um membro do governo local de Washington DC, lembra aquela semana como "a mais traumática da minha vida".

"Eu vi uma onda maciça de fogo e vi a fumaça subindo", ele diz sobre a cena na U Street na manhã de 5 de abril. "As coisas estavam em chamas, os bombeiros estavam lá, as pessoas invadiam os lugares e pegavam comida, produtos e móveis".

"O que as empurrou além do limite foi a raiva", diz o reverendo Fauntroy. "Martin Luther King Jr. vinha dizendo às pessoas havia uma década: não odeiem os brancos, não os matem, não recorram à violência. Ele não queria prejudicar ninguém. E eles o mataram."

Nos dias seguintes, a violência civil envolveu mais de cem cidades em todos os EUA. Os danos a residências e empresas foram imensos. Mas possivelmente foram os efeitos psicológicos que se mostraram mais duradouros, acelerando o processo da "fuga branca" para os subúrbios que havia começado depois da Segunda Guerra Mundial.

A partida das classes médias deixou uma série de problemas sociais em seu rastro. Em 1993 muitas cidades americanas, especialmente no nordeste e no centro-oeste, haviam decaído a tal ponto que David Rusk, um ex-prefeito de Albuquerque e consultor urbano, citou 24 delas "além de uma possível recuperação".

Mas caminhando pelo corredor da U Street em Washington hoje, passando pelos novos condomínios, restaurantes e cafés, é difícil imaginar a cena 40 anos atrás. A virada em áreas antes deprimidas não se limita ao Distrito de Colúmbia. Desde meados dos anos 1990, jovens instruídos e filhos da geração "baby boom" têm retornado às cidades em busca de facilidades e de estímulo cultural. A pobreza urbana séria, conseqüentemente, declinou mais de 40% em todos os EUA, segundo uma pesquisa do Instituto Brookings, um grupo de pensadores.

Mas o rejuvenescimento dos centros urbanos é obscurecido por outra mudança drástica na localização da pobreza na América. Pois enquanto os centros urbanos se enchem de brancos ricos os subúrbios estão recebendo um número crescente de moradores de baixa renda e imigrantes pobres.

Desde 1990 a pobreza nos subúrbios internos -geralmente residências construídas nas redondezas das cidades pouco depois da Segunda Guerra Mundial- aumentou 14%, em comparação com uma queda de 1% nos centros das cidades e 5% nos subúrbios externos, segundo um estudo da Brookings.

"Antigamente os pobres viviam nas cidades e os ricos nos subúrbios. Agora é o contrário", diz Carol Coletta, que dirige a rede de líderes cívicos CEOs for Cities. "Eles estão seguindo o sonho americano, mas estão chegando muito tarde."

De fato, a pobreza nos subúrbios hoje supera a das cidades, segundo Alan Berube, autor de um relatório do Brookings sobre os pobres suburbanos. Entre os beneficiários de devolução de imposto de renda nas cem maiores áreas metropolitanas, 59% -ou 8 milhões de pessoas- vivem nos subúrbios internos, em comparação com 41% nos centros.

Algumas áreas mais afetadas estão no nordeste e no centro-oeste, como o condado de Oakland, perto de Detroit, ou os subúrbios ao sul de Chicago. As cidades que são portais de entrada para imigrantes no sul e no oeste estão vendo problemas semelhantes. No condado de Miami Dade, na Flórida, e em certa medida em Long Island, Nova York, os imigrantes latinos também estão alterando o equilíbrio da vida suburbana, diz Berube.

Um dos motivos é que as moradias suburbanas estão envelhecendo e perdendo seu atrativo, e portanto são mais acessíveis. "As casas não são construídas para durar 60 anos", disse Myron Orfield, um ex-senador estadual de Minnesota. "Elas não envelhecem bem e não se transformam em belas residências antigas."

A tendência é perturbadora, segundo especialistas, porque os subúrbios muitas vezes não têm base fiscal suficiente para combater a pobreza. Algumas áreas suburbanas internas estão lutando para enfrentar o aumento da criminalidade, o sistema educacional destroçado e a crescente demanda por serviços sociais. "Diversas comunidades suburbanas começam a parecer uma caricatura dos centros urbanos", diz Bruce Katz, fundador do Programa de Política Metropolitana no Brookings.

O problema tem sido especialmente visível ao redor de Chicago, onde a demolição de grandes projetos habitacionais públicos a partir do fim dos anos 1990 levou um número crescente de moradores pobres a mudar-se para mais longe.

David Digsby, um pastor nos subúrbios ao sul de Chicago e um organizador do Gamaliel, um grupo comunitário religioso para o qual Barack Obama trabalhou na década de 1980, diz que a mudança foi drástica. "Existem drogas, gangues e outras situações realmente hostis como tiroteios e assassinatos", ele disse. "O ataque é grande demais para que os serviços sociais tradicionais o resolvam."

Perto de Riverdale também houve uma mudança drástica na população, segundo Alexander von Hoffman, um pesquisador urbano de Harvard. O antigo subúrbio industrial era 59% branco em 1990, habitado por proprietários mais velhos. Mas em apenas dez anos a população tornou-se 86% afro-americana, incluindo muitas famílias locatárias, jovens ou uniparentais.

Chris Dodd, um afro-americano de 34 anos que vive em Lynwood, na periferia sul de Chicago, diz que os recém-chegados nos últimos dois anos o obrigaram a tirar sua filha da escola pública local e educá-la em casa. "Fica evidente nas escolas. Elas estão mais lotadas, as notas estão diminuindo e há mais violência", ele diz.

Voltando a Washington DC, o subúrbio do condado Prince George em Maryland enfrentou constantemente altas taxas de criminalidade mesmo enquanto os níveis nacionais caíam -em parte como efeito da chegada de pessoas da cidade, segundo pesquisadores.

No centro dos problemas dos subúrbios internos está o fato de que eles são "muitas vezes órfãos da política pública", segundo Rusk. Os centros urbanos há muito tempo exigiram a atenção dos criadores de políticas porque ficam sob o guarda-chuva dos governos das grandes cidades e são mais visíveis.

"Eles não tendem a ter o mesmo impacto na política nacional ou estadual que o aumento do crime nas cidades teve na década de 90", disse Katz. "Não tendem a ter o mesmo impacto visual que um conjunto habitacional."

O reverendo Fauntroy diz que o fracasso em enfrentar a pobreza nas cidades hoje significa apenas que ela está cada vez mais oculta. Os enclaves de privação ainda existem, desta vez com uma cerca de madeira branca. "Não há nada de novo sob o sol", ele diz. "Agora é uma rebelião silenciosa." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos