Fome de arroz confere poder aos vendedores

Javier Blas
Em Londres

Nos últimos 40 anos, os consumidores dominaram o mercado global de arroz, que testemunhou um declínio constante de preços, interrompido apenas pela breve alta de 1973-74, gerada pela primeira crise do petróleo.

O declínio estrutural dos preços resultou da Revolução Verde, o movimento agrícola que espalhou o uso da irrigação, de fertilizantes e de variedades de arroz mais produtivas na Ásia no final dos anos 60, o que gerou grandes colheitas.

A produção de arroz por hectare pulou nos países em desenvolvimento de 1,7 tonelada em 1961 para quatro toneladas em 2006. Este "mercado de compradores", entretanto, abruptamente tornou-se um "mercado de vendedores" neste ano, por causa de uma mudança fundamental no equilíbrio entre a oferta e a demanda. Provavelmente isso manterá os preços a médio prazo bem acima dos níveis históricos, dizem os analistas e negociantes.

O preço do arroz tailandês de qualidade mediana, que serve de base global, foi negociado ontem a uma alta recorde de US$ 854 (em torno de R$ 1.600) por tonelada, de acordo com a Associação de Exportadores de Arroz da Tailândia. Esse preço mais do que dobrou desde o final do ano passado. O Banco Mundial disse ontem que o preço médio do arroz aumentará ainda mais em 2009 e 2010, mas de forma menos íngreme que a atual.

Vichai Sriprasert, presidente da Riceland International, importante exportadora tailandesa em Bangcoc, diz que os vendedores agora determinam o mercado. "Está muito claro que os produtores, os moinhos e os negociantes agora estão com o poder", disse Sriprasert.

Uma combinação de fatores levou ao aumento dos preços. O consumo na Ásia, Oriente Médio e África Ocidental está crescendo graças ao aumento da renda per capita (que permite que mais pessoas comam três refeições por dia, em vez de apenas uma ou duas); uma queda na oferta devido à redução na área plantada com arroz; custos crescentes de combustíveis e fertilizantes; e a exaustão dos avanços tecnológicos que contribuíram para o aumento na produção de arroz no passado.

A falta de água no Sudeste Asiático, na América Central e na África Ocidental também contribuiu para uma queda na expansão da produção, enquanto que o aumento nos custos trabalhistas em países como Vietnã -na medida em que mais pessoas se mudam para a cidade- fez aumentar significativamente o custo de produção, dizem os especialistas. A demanda superou a produção em seis dos últimos oito anos, e os estoques de arroz globais caíram para seu mais baixo nível desde 1976.

Concepción Calpe, especialista de arroz da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em Roma, diz que um importante fator por trás da queda nos estoques foi a estagnação do aumento de produtividade nos últimos poucos anos. "Precisamos de uma segunda Revolução Verde", disse ele.

"Algumas pequenas mudanças, como um ajuste do momento do plantio, podem gerar maior produção."

O recente salto nos preços de arroz não apenas assinalou uma virada na tendência de queda de preço dos últimos 40 anos, mas também pode ter um impacto mais profundo no desenvolvimento do mercado internacional de arroz. O mercado de arroz é opaco e não tem uma bolsa de futuros como a de trigo e milho em Chicago. Isso significa que o forte aumento nos preços foi uma surpresa para os governos.

O arroz é negociado no balcão, em contratos bilaterais, por um número relativamente pequeno de exportadores, corretores e importadores. O mercado também se divide em mais de 50 variedades diferentes, o que torna mais difícil acompanhar os preços.

O arroz é um alimento básico para mais da metade da população mundial. Os governos estão alarmados com o forte aumento de preço e fizeram mais intervenções, alimentando ainda mais a alta de preços.

Recentemente, os principais exportadores como Vietnã, Índia, Egito e Camboja implementaram proibições de exportação, enquanto importadores como a Tailândia procuraram acordos de fornecimento de governo a governo, para proteger a população local.

Isso marca uma dramática mudança de política. Desde meados dos anos 90, agências internacionais como Banco Mundial e o FMI advertiram aos países que dependem fortemente do arroz que seria mais saudável ter um mercado altamente líquido e global do alimento. Esses países ficaram convencidos de que seria seguro cobrir qualquer falta na produção interna com compras no mercado internacional. Isso levou a uma proteção menor ao setor -incluindo a retirada das proibições de exportação e uma redução de tarifas.

A quantidade de arroz negociada no mercado internacional pulou de cerca de 10 milhões de toneladas em 1990 para quase 30 milhões de toneladas no ano passado. A África e o Oriente Médio foram os que mais contribuíram para esse crescimento já que suas importações de arroz hoje satisfazem cerca de 40% da demanda interna.

Abah Ofon, analista da Standard Chartered, diz que a tendência para a dependência do mercado internacional pode acalmar agora, por causa da sensibilidade dos preços e segurança da oferta.

"O arroz é a commodity mais sensível politicamente", diz ele.

Do aromático ao longo
O arroz não é uma commodity homogênea, diferentemente do milho, do trigo e da soja.

Há mais de 50 preços internacionais diferentes para o arroz atualmente, com preços variando de mais de US$ 1.500 (em torno de R$ 3.000) por tonelada de arroz basmati até menos de US$ 600 (aproximadamente R$ 1.200) por tonelada de variedades de menor qualidade.

O mercado de arroz internacional pode ser dividido em vários submercados, dependendo da variedade, da qualidade e do grau de processamento. Falando genericamente, a variedade indiana é caracterizada pelo grão longo e é a mais abundante, ocupando cerca de 75% do mercado. Ela é seguida pelo grão médio japonês, com 12% do mercado. O arroz aromático, como o premiado jasmine tailandês e o indiano basmati perfazem o resto do mercado.

A natureza fragmentada do mercado dificultou o estabelecimento de graus reconhecidos internacionalmente e atrasou o estabelecimento de mercados futuros, segundo a FAO. O único mercado de futuros significativo, localizado em Chicago, fornece referência de preços para uma fração do arroz produzido nos EUA e não tem relevância para os preços da Ásia, dizem os comerciantes. Deborah Weinberg

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