Esperanças de grau de investimento do Brasil atingem o obstáculo da dívida

Stacy-Marie Ishmael, em Nova York, e
Jonathan Wheatley, em São Paulo

O Brasil é a maior economia da América Latina e a melhora de seus indicadores macroeconômicos ao longo da última década levaram muitos a presumirem que um grau de investimento seria apenas uma questão de tempo.

A inflação tem caído constantemente e o governo tem obtido consistentemente superávits orçamentários primários -antes dos pagamentos da dívida- grandes o suficiente para manter a razão entre dívida e produto interno bruto em constante declínio.

Além disso, as reservas de moeda estrangeira estão em cerca de US$ 200 bilhões, dando ao Brasil uma sólida proteção contra a volatilidade do mercado financeiro global e neste ano o país se tornou um credor líquido internacional pela primeira vez em sua história.

O principal índice de ações do país, o Bovespa, superou em desempenho o S&P 500 em cerca de 800% em termos de dólares nos últimos cinco anos. Mas parte do brilho do desempenho econômico foi perdido recentemente e os analistas não estão mais confiantes de que o país obterá o há muito ansiado grau de investimento em 2008.

Em particular, as agências de rating estão preocupadas com o fato do Brasil ainda apresentar um nível muito alto de dívida pública e o país possui limitações em sua capacidade de manter as recentes taxas de crescimento, segundo José Carlos de Faria, economista-chefe do Deutsche Bank para o Brasil. A dívida pública líquida do Brasil é de mais de 40% do seu PIB em comparação a uma média de menos de 20% para os países com grau de investimento, mostram dados do Deutsche Bank.

"A questão fiscal é o principal obstáculo para a obtenção do grau de investimento", disse Carlos de Faria. "A dívida pública ainda é relativamente grande."

Os gastos públicos permaneceram em cerca de 20% do PIB por vários anos, enquanto a média do México, Argentina, Chile e Colômbia é de menos de 14%.

Mas em vez de reduzir os atuais gastos, o governo adotou várias medidas no último ano para aumentar os gastos na folha de pagamento e no deficitário sistema previdenciário.

Neste mês, o Senado brasileiro aprovou duas medidas controversas que, se aprovadas pela Câmara, aumentarão dramaticamente os gastos da previdência -desfazendo as reformas anteriores e violando diretamente a importante lei de responsabilidade fiscal que escorou a estabilidade macroeconômica desde que foi introduzida em 2000.

Além disso, apesar do crescimento econômico do Brasil ter aumentado nos últimos anos, os analistas e as agências de rating estão preocupadas com a possibilidade de que o país não conseguirá sustentar o ritmo atual. A economia de US$ 1,3 trilhão cresceu 6,2% no último trimestre de 2007, mais que o dobro da taxa da última década.

O país se expandiu a uma média de 3,8% de 2003 a 2007, em comparação a 8,8% na Argentina e 6,9% no Uruguai, segundo dados do Fundo Monetário Internacional.

"O país ainda apresenta um retrospecto relativamente modesto de crescimento", disse Shelly Shetty, principal analista para o Brasil da Fitch Ratings. "Nós estamos confiantes de que a volatilidade no crescimento do Brasil foi reduzida? É o que estamos avaliando."

O Brasil pode estar entrando em um período de alta das taxas de juros -que tendem a minar o crescimento- à medida que crescem as pressões inflacionárias na economia.

A demanda doméstica aumentou fortemente nos últimos dois anos, alimentada pela redução do desemprego, salários mais altos e crédito mais barato.

O fracasso em enfrentar os altos gastos do governo significa que o investimento fracassou em acompanhar a demanda, levando a pressões inflacionárias.

O Brasil também não foi ajudado pela turbulência nos mercados globais, segundo Geoffrey Dennis, estrategista de equity latino-americano do Citigroup, em Nova York.

"É mais difícil receber um upgrade neste ambiente mais difícil", ele disse. "(As agências de rating) serão muito cautelosas em fazer um julgamento sobre o Brasil -ou qualquer crédito." George El Khouri Andolfato

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