Restrições às exportações agrícolas agravam crise global dos alimentos

Jude Webber, em Buenos Aires, e
Javier Blas, em Londres

A disparada dos preços dos produtos agrícolas - e o medo dos governos de que tais produtos escasseiem em seus territórios - levou vários países a impor restrições às exportações.

Mas essas medidas ameaçam prolongar a atual crise global de alimentos - ou até mesmo exacerbá-la.

Países como Argentina, Cazaquistão, Índia e Vietnã impediram os seus fazendeiros de vender as safras para o exterior, ou taxaram pesadamente as exportações na tentativa de manter os mercados locais bem abastecidos e os preços internos destes produtos em patamares baixos.

Isso significa que os produtores desses países não estão se beneficiando dos preços internacionais recordes. Ao mesmo tempo, os produtores arcam com maiores custos de produção na forma de preços mais elevados do óleo diesel, das sementes e dos fertilizantes. O resultado disso? Alguns fazendeiros estão reduzindo a área plantada.

Isto já está fazendo com que soem os sinais de alarme nos países desenvolvidos. Peter Mandelson, o comissário de comércio da União Européia, advertiu na quinta-feira (17/04) que "impostos sobre as exportações, cotas ou proibições" poderiam "estrangular a produção doméstica".

Ruifang Zhang, um analista de agropecuária do Goldman Sachs, em Londres, afirma: "As proibições de exportações e aumentos de impostos sobre os produtos exportados têm o potencial para prejudicar os investimentos e o crescimento da oferta, fatores bastante necessários na conjuntura atual para resolver o desequilíbrio estrutural na agricultura global provocado pelo intenso crescimento da demanda nos últimos anos".

Na Argentina, o terceiro maior exportador de soja do mundo, e o sexto maior exportador de trigo, o valor deste produto no mercado interno é de cerca da metade do preço praticado no mercado internacional. Segundo banqueiros e produtores rurais, o resultado é que os fazendeiros argentinos poderão reduzir a quantidade de trigo plantada neste ano em até 15%, devido ao impacto das tarifas de exportação e a incerteza constante a respeito de quando o governo permitirá as exportações.

"É uma infelicidade o fato de, no exato momento em que o preço do trigo está subindo nos mercados internacionais, nós não podermos tirar vantagem disso", reclama Alicia Urricariet, do instituto de pesquisa econômica da Sociedad Rural, uma das maiores associações de produtores da Argentina.

"A temporada de plantio de trigo na Argentina terá início dentro de três semanas, e estimamos que poderá haver uma redução de até 15% da área plantada", diz Urricariet. "Isso faria com que a área total cultivada fosse de 4,6 milhões de hectares, comparada a uma área de 5,5 milhões em 2007-2008".

Esta redução da área plantada contrasta com o aumento drástico das lavouras presenciado nos países da União Européia e nos Estados Unidos, onde os preços locais refletem a evolução do mercado internacional.

Os preços do trigo em Chicago, a referência global para o comércio do produto, aumentaram 92% nos últimos 12 meses.

A Argentina produziu 15,8 milhões de toneladas de trigo na safra de 2007-2008, e uma queda de 15% na área plantada poderia reduzir a produção para 13,4 toneladas, segundo a avaliação de Urricariet. O governo argentino afirma que as suas estatísticas referentes ao plantio deste ano serão publicadas em maio.

O governo argentino foi um dos primeiros principais produtores de commodities a lançar mão das tarifas sobre as exportações para tentar proteger o mercado doméstico do impacto da elevação dos preços em todo o mundo.

Mas, para a fúria dos produtores, no mês passado o governo criou um novo regime tarifário com base em uma tabela variável, o que essencialmente tornou fixos os preços máximos. Os produtores responderam com uma devastadora greve de 21 dias que provocou uma carência significativa de alimentos, e fez com que os preços destes subissem consideravelmente.

E para piorar o problema para os fazendeiros dos países que adotaram as restrições das exportações ou os controles de preços, houve um aumento drástico do óleo diesel, dos fertilizantes e das sementes. Surpreendentemente, os preços desses insumos não estão sendo controlados da mesma forma que as exportações.

Na Argentina, o preço da semente de trigo disparou 95% em relação à temporada passada, de acordo com a Bolsa de Comércio de Buenos Aires. As altas dos preços das sementes foram de 46% para o milho, 51% para a soja e 56% para o girassol.

A elevação do preço do petróleo, que na quinta-feira atingiu um recorde inédito de US$ 115,54 o barril, está provocando a disparada dos valores do óleo diesel, da energia e dos fertilizantes.

O preço de uma tonelada de adubo nitrogenado, um fertilizante crucial para culturas como a do milho, aumentou de US$ 300 a tonelada no ano passado para cerca de US$ 410 a tonelada neste ano. De acordo com os comerciantes do produto, os preços dos fertilizantes subiram pelo menos 200% nos últimos cinco anos.

Em alguns países - especialmente naqueles que adotam controles dos preços internos - os fazendeiros estão simplesmente usando menos fertilizante.

Nesta temporada os produtores paquistaneses usaram cerca de 600 mil toneladas de fertilizantes, o que representa menos da metade do volume utilizado um ano atrás. Como resultado, o governo paquistanês está prevendo uma safra de trigo de aproximadamente 22 milhões de toneladas, uma quantidade inferior às 24 milhões de toneladas que eram esperadas quando os produtores deram início ao plantio em setembro do ano passado.

Ajith Nivard Cabraal, o diretor do banco central de Sri Lanka, disse ao "Financial Times", em uma entrevista, que os governos asiáticos estão equivocados ao tentarem reduzir os preços locais, já que esta política impedirá os produtores de obter uma renda decente, e os desestimulará a aumentar a área cultivada.

"Os fazendeiros devem tornar-se mais fortes, já que este é o melhor incentivo para lidarmos com o problema que estamos enfrentando", afirmou Cabraal. No entanto, ele reconhece que os governos estão privilegiando menos os impactos de longo prazo devido às considerações de curto prazo.

"A tendência é que, assim que haja uma elevação de preço, os governos entrem em pânico", concluiu Cabraal. UOL

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