Martin Wolf: o momento decisivo na gestão da economia mundial

Martin Wolf
Colunista do Financial Times

Como comenta o mais recente Panorama Econômico Mundial (PEM) do Fundo Monetário Internacional (FMI), "a economia mundial entrou em um território novo e precário". O mais notável talvez sejam os contrastes entre o boom dos preços das commodities e os colapsos nos mercados de crédito e entre o crescimento animado das economias emergentes e a recessão incipiente nos Estados Unidos. Assim, onde estamos? Como chegamos aqui? E o que devemos fazer?

A resposta do PEM à primeira pergunta é que a economia americana poderá encolher em 0,7% entre o quarto trimestre do ano passado e o quarto trimestre de 2008. Isto representa uma grande mudança em relação ao aumento de 0,9% para o período previsto na atualização de janeiro do PEM. Além disso, a expectativa é de que o crescimento seja de apenas 1,6% ao longo dos próximos quatro trimestres. Enquanto isso, o crescimento na zona do euro deverá cair para apenas 0,9% entre o quarto trimestre de 2007 e o quarto trimestre de 2008.

Enquanto os países ricos mais importantes tropeçam, o quadro para as economias emergentes é de uma redução modesta do crescimento: 7,5% de crescimento na Ásia emergente neste ano, com 9,3% na China e 7,9% na Índia; 6,3% na África; e 4,4% no Hemisfério Ocidental.

Ao todo, é previsto que o crescimento da economia mundial deverá desacelerar consideravelmente, de 4,9% no ano passado para 3,7% em 2008 (medido pelo poder aquisitivo por paridade de taxas de câmbio). Em termos de crescimento nas taxas de câmbio de mercado, a desaceleração é mais significativa, com uma queda de 3,7% em 2007 para 2,6%. Mesmo assim, o crescimento global permanecerá bem acima dos níveis em 2001 e 2002.

Isto, então, seria um caso de "grandes terremotos; não muitos feridos". Mas estas previsões coincidem com dois grandes eventos: a crise financeira e o choque dos preços das commodities. A primeira é descrita pelo PEM como "o maior choque financeiro desde a Grande Depressão". O segundo é resultado de um acúmulo de tempestade inflacionária ou de se ter atingido os limites da taxa de crescimento (ou, de maneira mais plausível, ambos).

Sem causar surpresa, o PEM conclui que os riscos pendem para o lado negativo. Então muitos podem ser listados: piora das condições financeiras; riscos de inflação; maiores choques adversos no mercado de petróleo; maiores "desequilíbrios" de pagamentos globais, particularmente se os investidores decidirem que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) abandonou seu dever de preservar o poder de compra do dólar.

O que nos trouxe a este ponte tem pelo menos cinco componentes: o crescimento acelerado das economias emergentes, especialmente a China; o surgimento de imensos superávits de poupança em relação ao investimento em economias emergentes significativas, particularmente a China e os exportadores de petróleo; um longo período de baixa inflação e atividade econômica relativamente estável nos países ricos; liberalização e inovação financeira; e políticas monetárias acomodativas.

As economias emergentes foram os motores do crescimento nos últimos cinco anos: a China foi responsável por um quarto; Brasil, Índia e Rússia foram responsáveis por quase outro quarto; e todos os países emergentes e em desenvolvimento juntos por cerca de dois terços (medidas em taxas de câmbio com paridade de poder aquisitivo) do crescimento mundial. Além disso, nota o PEM, estas economias "representam mais de 90% do aumento do consumo de metais e produtos de petróleo e 80% do aumento do consumo de grãos desde 2002" (com programas de biocombustíveis escandalosamente desperdiçadores contribuindo para grande parte do restante).

As economias emergentes também foram enormes exportadoras de capital. O superávit em conta corrente da China foi de 11,1% do produto interno bruto no ano passado. Os preços mais altos do petróleo também transferiram renda para países com alta poupança. O FMI prevê que o superávit em conta corrente agregado dos países emergentes e em desenvolvimento seja de US$ 729 bilhões neste ano.

A poupança excessiva é em grande parte absorvida pelos países ricos com sistemas financeiros liberalizados, adeptos de canalizar crédito para pessoas interessadas em tomar empréstimo na escala necessária: os lares.

Os Estados Unidos foram de longe o mais importante destes países. O Fed, obrigado a manter a produção doméstica mais ou menos de acordo com o potencial, acomodou o afluxo de capital. Mas em um ambiente de liberalização e inovação financeira, os excessos resultantes produziram o desarranjo que vemos atualmente.

Então, o que devemos fazer? O PEM apóia o ativismo monetário do Fed e recomenda um relaxamento por parte do Banco Central Europeu; ele sugere um estímulo fiscal em alguns países. Ele também propõe uma maior valorização da moeda e taxas de juros mais altas em algumas economias emergentes, notadamente a China.

Mas o que se destaca para mim nesta análise são quatro questões de política de longo prazo.

A primeira é se o padrão global de pagamentos pode ou se ajustará suavemente, sem provocar outra rodada de crises financeiras, provavelmente em economias emergentes, daqui alguns anos. Estes últimos agora estão financeiramente robustos o bastante para incorrerem em déficits de conta corrente em segurança?

A segunda pergunta é como administrar a política monetária quando um grande choque no preço das commodities está em andamento. Os falcões da inflação argumentam que a taxa de aumento dos preços de tudo mais deve ser reduzida. O resultado seria um período sustentado de fraco crescimento. Ao mesmo tempo, quanto mais continuar o aumento nos preços das commodities, mais difícil se tornará resistir a estes argumentos.

O terceiro é o que fazer a respeito de um sistema financeiro que se comportou tão espetacularmente mal. Quão radicalmente a regulação deveria ser mudada? Existe algo que possa ser feito que possa torná-la menos propensa a crises, permanecendo ao mesmo tempo inovadora e flexível?

Finalmente, e mais importante, será possível manter um consenso político nos países ricos a favor de uma economia integrada globalmente e liberalizada? Como persuadir os cidadãos de que a ascensão dos países emergentes, a história mais brilhante de nossa era, deve ser bem-recebida, em vez de ressentida ou mesmo resistida, quando o que experimentam é desarranjo financeiro, desvalorização dos imóveis, recessão e aumento de preços de commodities essenciais?

Este ano é um momento decisivo. Cabe a nós fazer com que siga na direção certa. Não será fácil. George El Khouri Andolfato

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