A demanda eleva o preço, mas não a oferta

Steve Johnson

As commodities agrícolas, durante décadas um setor apático no firmamento de investimentos, raramente estiveram fora das manchetes nos últimos seis meses.

Revoltas por causa do preço de alimentos causaram danos no mundo em desenvolvimento, de Camarões ao Haiti e Bangladesh e Costa do Marfim, assim que o preço de matérias-primas para alimentos, tais como trigo, arroz e soja registrou forte alta.

Era de se esperar que a oferta fosse elevada drasticamente para aproveitar os preços mais elevados. Mas não há qualquer sinal de aumento na produção.

A Argentina, terceiro maior produtor mundial de soja e sexto maior exportador de trigo, é um extremo, mas significativo caso em questão. Seu governo foi um dos que primeiro impôs tarifas às exportações para proteger o mercado doméstico dos preços globais.

Isso funcionou tão bem que os preços domésticos do trigo caíram para a metade daquele dos mercados internacionais. O resultado? Em meio ao horror da fome global, os produtores agrícolas da Argentina prevêem o plantio de 15% a menos de trigo este ano que no anterior.

E países como Ucrânia, Cazaquistão, Índia e Vietnã também impuseram restrições às exportações, reduzindo os incentivos para seus produtores para elevar a produção. E embora a multiplicação por três no preço real do trigo desde janeiro de 2006, aliada a um salto de 140% nos preços futuros de milho e soja, possa parecer insustentável, os preços dificilmente cairão de forma acentuada sem um aumento na oferta.

A demanda em alta pelos alimentos está sendo abastecida por três fatores. Primeiro a população global está aumentando em 220.000 pessoas por dia e se prevê que saltará de 4 bilhões em 1975 para 8 bilhões até 2028.

Segundo, grandes porções dessa população, especialmente na China e na Índia, estão melhorando de vida e acrescentando mais carne e laticínios à sua dieta. Isso aumenta exponencialmente a demanda por grãos.

"Estamos vendo uma população global em crescimento e uma mudança para melhor na escala econômica de grande parte dessa população," diz Daniel Raab, diretor-gerente da AIG Financial Products, que possui seu próprio índice de commodities.

"Isso está causando um efeito multiplicador. Para cada US$ 1 extra que é ganho, 30 a 40 centavos são gastos em alimentos no mundo em desenvolvimento, contra 10 centavos nos países desenvolvidos. São necessárias 700 calorias de ração animal para produzir 100 calorias de carne bovina."

Salvo ocorra uma recessão econômica catastrófica, a crescente demanda por produtos de origem animal da parte das classes médias dos emergentes do mundo em desenvolvimento chegou para ficar.

Em terceiro lugar, a demanda por safras tais como a de milho está sendo conduzida pela demanda por biocombustivel. Qualquer recuo aqui poderá forçar os governos ocidentais a levar em consideração medidas econômicas mais desagradáveis para atender às metas de reduzir as emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa.

Quanto ao lado da oferta, parece haver pouca terra arável à espera de entrar em produção. Os rendimentos cada vez maiores e a dificuldade de se manter as terras aráveis existentes estão na ordem do dia.

"Não existe uma grande expansão de oferta. Os produtores estão fazendo rotação dos plantios, é uma guerra pela "acreagem". Vai demorar um bom tempo até que os novos projetos sejam implantados e afetem a oferta," disse Stephan Wrobel, principal executivo da Diapason Commodities Management.

"A Austrália pode ter condições de aumentar a produção se não houver seca, e os EUA poderão elevar a produção, mas no conjunto, estamos em um equilíbrio apertado."

Os esforços para elevar o rendimento estão sendo barrados pelos crescentes preços do petróleo. Wrobel calcula que de 25 a 30% dos custos dos insumos são impulsionados pelos preços do petróleo.

Da parte do investimento, a questão é saber se os preços podem aumentar ainda mais, ou se a corrida altista está em estado de suspensão.

Albert Edwards, analista no Société Générale, argumenta que as soft commodities (cacau, açúcar e café, podendo incluir também algodão, suco de laranja e grãos) foram levadas a altas insustentáveis por investidores que fugiram dos ativos de risco "esmagados pela implosão do crédito." "Pode ser que haja mais um elemento de especulação nas recentes movimentações de preços do que muitos imaginam," ele afirma. Outros, porém, discordam. Raab acredita que fatores fundamentais foram bem mais importantes para os preços de commodities em geral.

"Os especuladores que ganham grandes somas de dinheiro em curtos períodos de tempo obviamente terão um efeito de curto prazo nos mercados, mas a ponto de ter condições de manter, por exemplo, o petróleo acima dos US$ 100, não acredito que essa seja uma explicação realista da ação dos preços," ele diz.

"Os consumidores estão pagando tais preços. No final, os preços não ficarão nos níveis atuais a menos que os consumidores estejam dispostos a comprar a tais preços."

Wrobel também avalia que os fundamentos dão apoio aos níveis de preço. "Os especuladores são geralmente os bodes expiatórios, o problema é a oferta," ele diz.

Ele prevê mais ganhos à frente para grãos tais como milho e trigo.

E no entanto ele acredita que o foco das atenções possa começar a mudar para commodities relativamente pouco observadas que estão sendo negociadas "bem próximo de seu custo de produção", tais como carne bovina, açúcar, algodão e madeira para construção.

Raab seleciona o algodão como potencial vencedor, ante o custo das fibras produzidas artificialmente saltando junto dos preços do petróleo.

No geral ele está otimista em relação às soft commodities, e pessimista quanto às dificuldades dos pobres de regiões urbanas. "A população global continua a crescer estruturalmente e nossa capacidade de produzir uma oferta mais elevada está aparentemente atingindo seu ponto limite. A economia global precisa ajustar-se a um piso mais elevado de preços," ele conclui.

No entanto, Wrobel confia que serão encontradas soluções para a crise alimentar se os incentivos certos forem mobilizados.

"Será necessário um esforço criativo e um grande envolvimento, mas a natureza humana é muito engenhosa e encontra a solução para um problema quando é compensada por isso. A pior coisa a se fazer é tentar e impedir que os preços subam e impor tarifas sobre exportações." Preços sobem e revoltas causam danos no mundo em desenvolvimento, mas mesmo assim não há qualquer sinal de aumento na produção agrícola Claudia Dall'Antonia

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