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08/05/2008

Medicina olha de novo para suas raízes, cascas, fungos e folhas

Financial Times
Andrew Jack
Em um laboratório perto do trilho do trem de levitação magnética futurista de Xangai, dezenas de cientistas estão estudando como converter a medicina descrita em textos chineses escritos há 2 mil anos em tratamentos modernos ocidentais.

O Shanghai Institute of Materia Medica (Simm), fundado nos anos 30 e reforçado por meio da cooperação com laboratórios farmacêuticos internacionais ao longo da última década, é uma das muitas organizações que buscam novos avanços médicos inspirados na medicina antiga.

Alfred Hofmann, o químico suíço que primeiro isolou o LSD a partir de um fungo em 1938 e que morreu na semana passada, aos 102 anos, foi um pioneiro ocidental no campo. Ele viveu o suficiente para testemunhar um renascimento do interesse no assunto, após muitas empresas terem dado suas costas durante a última metade do século passado.

"Ele fazia parte da escola de ergot (fungos), que isolou e modificou compostos tóxicos para nos dar drogas muito importantes -para induzir as contrações do parto, deter o sangramento e tratar o mal de Parkinson", disse Paul Herrling, chefe de pesquisa corporativa da Novartis, o grupo farmacêutico que absorveu a Sandoz, a empregadora por longa data de Hofmann.

No papel, o apelo de estudar os compostos naturais usados pelos povos antigos para desenvolver medicamentos modernos é claro. O uso por eles de plantas e produtos locais ao longo de muitas gerações pode fornecer pistas valiosas e atalhos para desenvolvedores de drogas modernas de todo o mundo.

A abordagem levou ao surgimento de vários tratamentos significativos, do desenvolvimento histórico da aspirina, como um analgésico derivado da casca do salgueiro, ao recente lançamento fora da Ásia do artemether antimalária, identificado a partir de uma planta chinesa usada por séculos no tratamento de febres.

Mas na prática, a adaptação dessas substâncias em medicamentos ocidentais provou ser difícil. Uma questão é que grande parte do conhecimento medicinal foi e continua sendo perdido com a modernização, especialmente nas culturas tribais africanas e latino-americanas onde nada é escrito.

Mesmo onde há textos e prática contínua, notadamente na medicina tradicional chinesa e ayurvédica indiana, eles geralmente usam compostos de plantas que contêm uma mistura complexa de substâncias diferentes e freqüentemente instáveis, em concentrações variadas, que podem agir em diferentes "alvos" em uma pessoa.

"A medicina tradicional pode ser muito perigosa", disse Herrling. "Os praticantes não tinham conceito de estatística ou das conseqüências a longo prazo desses tratamentos, que podem causar câncer quando usados ao longo de muitos anos."

Em comparação, a indústria farmacêutica ocidental -reforçada por obrigações regulatórias- opera isolando, extraindo e purificando compostos que funcionam contra um único alvo, assegurando que possam ser consistentemente reproduzidos e escrupulosamente testados visando segurança e eficácia.

"Testar medicamentos tradicionais é como saltar na água sem saber exatamente para onde você vai", disse Yongning Chen, um professor do Simm. "O processo é tão complexo e toma tanto tempo, especialmente para empresas farmacêuticas com prazos curtos (para lançar as drogas no mercado)."

A Phytopharm do Reino Unido sofreu repetidos prejuízos e reestruturação financeira devido aos reveses causados por suas tentativas de comercializar produtos como o Hoodia, um extrato para perda de peso a partir de uma planta usada pelos bosquímanos san do deserto do Kalahari. "Os reguladores precisam ser convencidos", disse Daryl Rees, o presidente-executivo da Phytopharm. "Nós percebemos que não havia forma rápida de aprovar as coisas."

Mas se a tradução da medicina tradicional para as abordagens ocidentais tem provado ser difícil, uma abordagem mais promissora surgiu do novo interesse no desenvolvimento de novas drogas a partir de compostos naturais -diferente das muitas drogas manufaturadas a partir de compostos criados artificialmente.

Empresas como a Chi-Med, na China, e a Nicholas Piramal, na Índia, desenvolveram alguns de seus produtos mais promissores a partir de compostos sem vínculos com tratamentos históricos.

As estatinas, as drogas de sucesso para redução de colesterol, foram originalmente isoladas a partir de fungos. A ciclosporina, usada para prevenir a rejeição de órgãos transplantados, foi derivada de uma amostra de solo norueguesa. O Tamiflu, a droga antiviral de sucesso para gripe -anunciada como a primeira "designer drug" modificada especificamente para se adequar ao seu alvo- é sintetizada a partir de um material derivado da planta anis-estrela chinesa.

Um recente estudo publicado por David Newman, da divisão de produtos naturais do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, estimou que das 1.000 novas entidades químicas registradas durante o período de 1981 a 2006, mais de um quarto eram produtos naturais ou derivados. Para medicamentos para câncer, a proporção foi de quase metade.

Até recentemente, as empresas farmacêuticas tentavam uma abordagem diferente. "Há uma década, as grandes empresas farmacêuticas viam os compostos naturais como antiquados e desajeitados e os abandonaram", disse Tony Buss, presidente-executivo da MerLion, uma empresa com sede em Cingapura que conta com uma coleção de 500 mil compostos naturais. "Agora elas estão voltando a bater à nossa porta."

Apesar de algumas poucas empresas, incluindo a Novartis e a Merck, terem guardado suas coleções, a maioria das outras as venderam, incluindo a Glaxo¬SmithKline, que se desfez de parte dos ativos que foram incorporados na MerLion em 2002, mas que de lá para cá passou a ser cliente.

A diminuição do interesse nos compostos naturais ocorreu em um momento de aparentes avanços em técnicas alternativas, incluindo a química combinatorial, que criava compostos complexos, e triagem de alto desempenho (HTS, na sigla em inglês), que os testava rapidamente contra as doenças alvos.

O problema é que estas abordagens fracassaram em obter resultados significativos. O aumento tanto do número de compostos experimentais e gastos em pesquisa e desenvolvimento não resultou em um aumento do número de novos medicamentos desenvolvidos com sucesso. O interesse renovado nos compostos naturais reflete a compreensão de que eles também podem passar por uma triagem empregando técnicas mais novas e mais eficientes.

Elas são particularmente promissoras para antibióticos e antiinfectivos para o tratamento de doenças que foram abandonadas por muitas empresas farmacêuticas devido ao seu potencial comercial limitado. Agora, o aumento da resistência a medicamentos e o preocupação pública com o MRSA e outras infecções hospitalares provocou novo interesse e tornou o mercado mais atrativo.

Mas ainda há um longo caminho até ser plenamente desenvolvido. Jean-Pierre Garnier, chefe da GSK, duvida que haverá um grande retorno aos produtos naturais. "A indústria sempre os buscou ativamente, mas há muito pessimismo porque o retorno é modesto", ele disse. "Nós temos contratos, mas não posso dizer que voltaremos a isso em tempo integral."

Voltar para a natureza pode não oferecer resultado rápido, fácil ou universal. Mas Phil Dudfield, um executivo da BioFocus DPI, outra empresa no campo, argumenta que agora "poucos questionariam o grande benefício de ter produtos naturais como parte de um portfólio equilibrado de estratégias de pesquisa".

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