Martin Wolf: o mercado estabelece preços altos do petróleo para nos dizer o que fazer

Martin Wolf

Petróleo a US$ 200 o barril: este foi o alerta da Goldman Sachs, publicado na semana passada. O preço real já se encontra em uma alta recorde. Barril a US$ 200 representaria o dobro de qualquer alta anterior. Mesmo assim, seria um erro nos concentrar em choque apenas no salto a curto prazo nos preços. As questões maiores são de longo prazo.

Aqui estão três fatos sobre o petróleo: é um recurso finito; ele move o sistema de transporte global; e se as economias emergentes consumirem petróleo tanto quanto as européias, o consumo mundial saltaria em 150%. O que está acontecendo hoje é um sinal prévio desta realidade simples. É tentador culpar os especuladores e as companhias de petróleo malvadas pelos preços. A realidade é diferente.

A demanda por petróleo cresce de forma constante, à medida que crescem as frotas de veículos do mundo. Atualmente, os Estados Unidos possuem 250 milhões de veículos e a China apenas 37 milhões. Não é preciso ter imaginação para ver para onde caminha a frota chinesa. Outros países emergentes seguirão o exemplo da China.

Enquanto isso, a capacidade ociosa dos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) está atualmente em um nível excepcionalmente baixo, enquanto a produção dos países que não fazem parte da Opep tem igualmente decepcionado consistentemente as expectativas.

Parece cada vez mais difícil expandir a oferta na quantidade anual de cerca de 1,4 milhão de barris por dia necessária para atender a demanda. Isto representa uma Arábia Saudita adicional a cada sete anos. Segundo a Agência Internacional de Energia, é necessário quase dois terços de capacidade adicional ao longo dos próximos oito anos para compensar a queda na produção dos campos existentes. Isto torna a tarefa ainda mais difícil do que parece. Como acrescentou o mais recente Panorama Econômico Mundial (PEM) do Fundo Monetário Internacional, o fato do pico da produção ter sido atingido mais cedo, devido às tecnologias mais eficientes de hoje, também significa que declínios subseqüentes serão mais acentuados.

Isto não quer dizer que a especulação não teve nenhum papel nos recentes aumentos dos preços. Mas é difícil acreditar que tenha sido realmente grande. É verdade, o preço em dólar aumentou acentuadamente, mas isto se deve em parte à desvalorização relativa do dólar. Como argumentei antes, se a especulação estivesse elevando os preços acima do nível justificado, seria de se esperar um rápido aumento dos estoques, com a oferta excedendo a taxa de consumo de petróleo. Mas não há evidência de um aumento nos estoques, como apontam a Goldman Sachs e o FMI.

De forma semelhante, não é nem mesmo verdadeiro que o investimento necessário para aumentar a capacidade de produção deixa a desejar. O PEM mostra que o investimento nominal das companhias nacionais e internacionais de petróleo mais que dobrou entre 2000 e 2006. Mas o investimento real mal cresceu, por causa da escassez global de equipamento e pessoal qualificado. Diante deste cenário, parece mais provável que a especulação atual é estabilizadora, e não desestabilizadora: em outras palavras, ela está movendo os preços na direção certa, visando reduzir a demanda.

A alta dos preços dos anos 70 foram seguidas por grandes quedas absolutas na demanda e produção. Isto ocorreu em parte por causa das recessões e em parte por causa da crescente eficiência. Ambas as forças deverão entrar em ação novamente desta vez, mas em grau menor. A desaceleração da economia americana provavelmente será significativa. Desacelerações também ocorrerão na Europa Ocidental, no Japão e até mesmo no mundo emergente. Mas este último ainda continuará crescendo rapidamente. De forma geral, a economia mundial -e a demanda mundial por petróleo- provavelmente continuará crescendo significativamente. De forma semelhante, um melhor uso do petróleo, à medida que as pessoas adotarem veículos mais eficientes, principalmente na América do Norte (onde há muita margem para fazê-lo), compensará o aumento da demanda por transporte motorizado nos países emergentes que crescem mais rapidamente.

No balanço, é bastante improvável que a demanda agregada por petróleo sofrerá um colapso, como ocorreu após as duas altas de preços anteriores, assim como é improvável que uma grande nova oferta líquida de petróleo surgirá no futuro próximo. Isto não significa que os preços permanecerão tão altos quanto hoje por um futuro indefinido: tamanha estabilidade é improvável. Mas significa que devemos esperar um período sustentado de preços relativamente altos mesmo se os teóricos do "pico do petróleo" estiverem errados. Se estiverem certos, isso sem dúvida será verdadeiro.

Então, qual deveria ser a resposta para estas realidades simples? Aqui estão algumas coisas que devemos e não devemos.

Primeiro, não culpar conspirações de especuladores, companhias de petróleo ou mesmo da Opep. Estes são os mensageiros. A mensagem é de mudanças fundamentais na oferta e na demanda. Se os especuladores elevarem os preços em resposta, eles estão ajudando o ajuste. Mesmo se a Opep reduzir a produção, ela está preservando um recurso valioso para o futuro.

Segundo, não culpar os países emergentes pelo aumento da demanda. Os cidadãos dos países ricos devem se adequar aos preços mais altos dos recursos provocados pela ascensão dos países emergentes. A única alternativa seria tentar destruir essas esperanças. Isto seria um erro e um crime.

Terceiro, entender que os preços nestes patamares agora exercem um grande papel macroeconômico. A US$ 100 o barril, o valor anual da produção mundial de petróleo estaria próximo de US$ 3 trilhões. Isto representa 5% do produto mundial bruto. Os únicos anos anteriores em que foi maior que isso foram de 1979 a 1982.

Quarto, se adaptar aos preços altos, que terão um grande papel no encorajamento do uso mais eficiente deste recurso finito, assim como contribuirá para melhorar a mudança climática. O atual choque oferece uma oportunidade de ouro para estabelecer um piso aos preços, com a imposição de taxas às emissões de combustíveis fósseis, petróleo ou carbono.

Quinto, tentar chegar a um pacto global de comércio de petróleo com base no princípio fundamental de que os produtores serão autorizados a vender seu petróleo a quem pagar mais. Em outras palavras, o mercado global de petróleo precisa permanecer integrado. Ninguém deve fazer uso de força militar para garantir uma posição privilegiada dentro dele.

Finalmente, ser sério sobre investir em pesquisa básica de tecnologias alternativas. Auto-suficiência em energia é uma meta implausível. Investir em um futuro pós-petróleo não é.

Nós não mais vivemos em uma era de recursos abundantes. É possível que grandes mudanças na oferta e demanda revertam esta situação, como aconteceu nos anos 80 e 90. Nós certamente podemos esperar por este resultado feliz. Mas esperança não é uma política.

O grande evento de nossa era é a disseminação da industrialização para bilhões de pessoas. Os altos preços dos recursos são a resposta do mercado a este evento transformador. O mercado está dizendo que devemos usar mais sabiamente os recursos que agora se tornaram mais valiosos. O mercado está certo. George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos