Candidatas a primeira-dama dos EUA são cada vez mais alvos de sondagem

Edward Luce e Andrew Ward
Do Financial Times

Cindy McCain, 53, raramente desvia-se do seu script de campanha, e quase nunca diz algo que tenha conotação política. Assim, quando a mulher do candidato presidencial republicano declarou em fevereiro: "Não sei quanto a você... mas eu tenho muito orgulho do meu país", a frase não passou despercebida.

Embora ela não tivesse mencionado o nome de Michelle Obama, 44, o comentário de Cindy McCain foi dirigido à mulher do candidato a candidato democrata. Michelle havia provocado uma tempestade no início daquela semana ao afirmar: "Pela primeira vez na minha vida adulta eu estou realmente orgulhosa do meu país, não porque Barack está se saindo bem, mas porque acho que o povo está com fome de mudanças".

Muita gente diz que uma disputa entre John McCain e Barack Obama faria com que os Estados Unidos se deparassem com uma das escolhas mais contrastantes da sua história - entre velho e novo, branco e negro, conservador e liberal, e entre alguém que nasceu no universo das classes privilegiada e um indivíduo que foi criado por uma mãe solteira que recorreu a vales-alimentação. Um contraste igualmente drástico pode ser observado entre as mulheres dos dois candidatos.

David R. Lutman/Reuters - 16.mai.2008 
John e Cindy Mccain acenam durante convenção da Associação Nacional do Rifle, nos EUA

Ainda existe uma chance de que Hillary Clinton seja capaz de tirar a candidatura democrata de Obama. E, em tal caso, Washington voltaria a praticar o jogo de palavras do ano passado, no sentido de determinar se Bill Clinton seria o "primeiro-cavalheiro", o "primeiro-marido" ou mesmo um "first-laddie" (algo como "primeiro-moço", em uma alusão ao termo "first-lady", ou "primeira-dama"), conforme sugeriu um amigo escocês do ex-presidente.

Mas o Partido Republicano já está tratando Obama como o candidato adversário, conforme fica evidente até mesmo pela tendência crescente a atacar a mulher do democrata. O ataque mais recente ocorreu em uma propaganda que foi ao ar na última quinta-feira no Tennessee. A propaganda exibiu diversas pessoas que explicavam porque têm orgulho dos Estados Unidos.

"Não gosto nada disso, mas creio que aquilo que foi percebido como falta de patriotismo de Michelle Obama será transformado em um tópico na eleição geral", diz Franz Luntz, um especialista republicano em
pesquisas de opinião. "É muito mais difícil imaginar uma maneira de os democratas transformarem Cindy McCain em um tópico de campanha".

As histórias das duas aspirantes a primeira-dama são ainda mais contrastantes do que as dos seus maridos. Cindy nasceu em berço de ouro, como filha de Jim Hensley, um magnata da cerveja do Arizona, cuja companhia, a Hensley & Co, tornou-se uma das maiores distribuidoras da Budweiser do país. Quando ele morreu, em 2000, Cindy McCain herdou o controle dos negócios.

Embora deixe a administração diária da sua empresa a cargo de outros, Cindy desempenha um papel ativo no planejamento estratégico. Não se sabe o tamanho da parcela acionária que ela detém, mas os analistas acreditam que a mulher do candidato republicano seja dona de ações com um valor total de pelo menos US$ 100 milhões. Apesar disto, Cindy McCain comporta-se como uma tradicional mulher de político.

Nos eventos da campanha, ela apresenta o marido com um relato extremamente positivo sobre as qualidades dele como pai, antes de sentar-se ao seu lado com uma expressão de quem cumpre um dever, enquanto McCain discursa. Usando invariavelmente um caro terno feminino, e sem apresentar uma mecha sequer dos seus cabelos louros fora do lugar, ela faz sinais de aprovação com a cabeça e ri a cada piada de McCain.

Os amigos dizem que Cindy McCain não gostou da idéia de o marido disputar novamente a presidência após a derrota amarga para Bush em 2000, quando os oponentes usaram truques sujos de campanha durante a campanha da Carolina do Sul.

Foi distribuído um panfleto mostrando McCain com um bebê de pele escura, que, segundo o texto, seria o filho ilegítimo do candidato. De fato, a criança, chamada Bridget, era filha dos McCain, já que eles a adotaram em um orfanato de Bangladesh. "Quando a idéia de concorrer novamente surgiu, ela relutou bastante, e ficou preocupada por causa de Bridget", afirma Sharon Harper, uma amiga próxima de Cindy.

Assim como Laura Bush, Cindy McCain não demonstra a ambição de desempenhar um papel de elaboradora de políticas. "Acredito que o povo norte-americano ainda deseja de fato uma família tradicional na Casa Branca", afirmou ela no ano passado. Isso poderia desqualificar Michelle Obama. Michelle, que é negra, tem dois filhos e trabalha, é, sob muitos aspectos, uma pessoa que, da mesma forma que o marido, deve as suas conquistas ao esforço próprio.

Tendo se formado em sociologia na Universidade Princeton para, a seguir, assim como o marido, estudar direito na Universidade Harvard, Michelle Obama discursa com uma segurança que conquistou muitos eleitores. Em Iowa, que foi o palco da primeira disputa no calendário eleitoral na qual Obama saiu vitorioso, o comitê de campanha do candidato apelidou Michelle de "definidora de resultados".

Ao contrário de Cindy McCain, que prefere não aparecer sob a luz dos refletores, Michelle Obama tem uma agenda de campanha separada que varia de dois a quatro dias por semana, o que depende de as filhas do casal estarem ou não de férias. Ela também manteve o emprego de US$ 320 mil por ano como agente de relações públicas e comunitárias do Hospital da Universidade de Chicago.

Neste fim de semana, a família Obama fará campanha no Oregon, Estado no qual ocorrerá uma das últimas prévias, na próxima terça-feira. "Michelle gosta de interagir com pequenos grupos de eleitores e troca opiniões livremente com eles - isso foi algo muito efetivo em Iowa", afirma um porta-voz da campanha.

Mas foi exatamente a fluência de Michelle que a colocou em apuros. Os conservadores focaram-se na observação feita por ela de que os Estados Unidos tornaram-se "um país malevolente", no qual a maioria das pessoas luta para sobreviver, e passaram a apresentar a declaração de Michelle como sendo parte de uma tendência maior de denegrir o país. Outros têm procurado vincular as opiniões muitas vezes negativas sobre os Estados Unidos a Jeremiah Wright, o ex-pastor de Obama, que conduziu a cerimônia de casamento do candidato, batizou as suas filhas e foi pegou em um vídeo famoso gritando do seu púlpito: "Deus amaldiçoe a América!".

Alguns temem que a eleição possa descambar para uma batalha de insinuações de cunho racial, de forma semelhante a quando Michael Dukakis, o candidato democrata em 1988, e que à época era governador de Massachusetts, foi alvo da infame propaganda de ataque "Willie Horton", que girou em torno do episódio no qual um presidiário negro cometeu estupro e assassinato quando estava em liberdade condicional.

Em um comentário extremamente provocador, Bill O'Reilly, o âncora direitista da rede de televisão Fox New, respondeu às observações de Michelle sobre "orgulho" afirmando: "Não desejo enviar um bando de linchadores contra Michelle Obama, a menos que haja provas de que ela de fato sente o que disse".

A participação de Michelle Obama na campanha reflete a percepção de que ela se sai melhor junto a certas platéias, como aquelas formadas por eleitores negros, do que a outras, como as compostas por operários brancos. Ela participou de 18 comícios na curta prévia da Carolina do Sul, em janeiro, contra apenas dois na longa primária da Pensilvânia.

"Eu não aconselharia o comitê de campanha de McCain a atacar Michelle diretamente - deixaria isso a cargo de O'Reilly e outros", afirma Floyd Brown, o autor da propaganda de ataque Willie Horton em 1988. "Para os norte-americanos é difícil engolir o comentário de que esta é uma nação tão malevolente, feito por uma mulher que teve tantas oportunidades".

É difícil imaginar Cindy McCain gerando tanto vitupério - ou adulação - quanto Michelle Obama. Mas ela tem as suas vulnerabilidades. Alguns veículos de comunicação comentaram a batalha de Cindy contra o vício em medicamentos no início da década de 1990, um período que ela descreve como "o mais negro" da sua vida.

Cindy tornou-se viciada em analgésicos após uma cirurgia da coluna em 1989, e sustentou o vício roubando comprimidos de uma instituição médica de caridade que ela própria fundou. Cindy confessou essa história ao marido depois que a Drug Enforcement Administration (organização policial federal de combate às drogas) investigou a sua organização filantrópica, e depois disso passou a freqüentar a instituição Narcóticos Anônimos.

E o casamento de Cindy McCain também foi foco de escrutínio, depois que o "New York Times" publicou alegações de que havia um relacionamento íntimo entre o marido dela e uma lobista. No mesmo dia Cindy McCain apareceu ao lado do marido e afirmou em tom confiante que ele não fizera nada de errado.

Mas o alvo das atenções mais duradouro tem sido a recusa de Cindy McCain em divulgar as suas declarações de impostos de renda. "Essa é uma questão privada", disse Cindy recentemente, explicando porque ela e o marido mantêm as respectivas finanças separadas. "Não sou eu a candidata".

Muitos comparam a sua postura a de Teresa Heinz Kerry, a rica mulher do candidato democrata em 2004, John Kerry, que no fim das contas acabou revelando as suas declarações. Surgiram também questionamentos relativos ao fato de McCain usar o jato executivo da sua mulher - uma brecha que permite aos candidatos reembolsarem apenas o custo de uma passagem de primeira classe.

"McCain construiu uma reputação de transparência, de forma que o fato de a sua mulher recusar-se a apresentar as declarações de impostos é problemático", afirma Melanie Sloan, da organização Cidadãos pela Responsabilidade e a Ética, com sede em Washington.

Mesmo assim, Cindy McCain poderia colocar um fim nesta polêmica com um simples telefonema ao seu contador. O mesmo não se pode dizer sobre as alegações e insinuações que cada vez mais tem como alvo Michelle Obama. Mas, de forma semelhante a Hillary Clinton, que foi uma figura divisiva na campanha do seu marido em 1992, Michelle Obama parece retirar energia das adversidades.

Além do mais, Barack Obama está disputando uma campanha mais dura do que a maioria dos seus predecessores - e especialmente Dukakis. "Alguns republicanos podem tentar usar a questão racial como um trunfo, com Michelle no papel principal, embora eu acredite que isso poderia ser um tiro pela culatra", diz um consultor democrata. "Mas isso não impedirá
algumas pessoas de tentar essa tática". UOL

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