Nuvens que pairavam sobre saída de ministra devem se dissipar

Jonathan Wheatley
Em São Paulo

O Brasil terá um novo ministro do Meio Ambiente esta semana em meio a uma tempestade causada pela saída de sua predecessora.

Marina Silva, que ficou no cargo durante cinco anos, saiu na semana passada depois de ficar cada vez mais isolada dentro do governo. Sua renúncia trouxe desânimo entre ativistas do meio ambiente em todo o mundo.

É fácil de ver por quê. Marina Silva tem uma personalidade forte e uma franca determinação que a ajudaram a superar a pobreza, doença e analfabetismo em sua infância e adolescência no Estado amazônico do Acre. Ao ascender ao ministério e, efetivamente, tornar-se a guardiã de mais de metade da floresta tropical sobrevivente no mundo, ela mostrou desembaraço ao lidar com os madeireiros e fazendeiros que devastaram um milhão de quilômetros quadrados de terra na Amazônia nas últimas décadas.

Sua renúncia foi vista como a liberação do caminho para que essa destruição continuasse, desenfreada. Mas a saída de Marina pode não resultar no desastre que se previra. Ela foi notavelmente mal-sucedida em seu trabalho, perdendo uma batalha depois da outra para os "desenvolvimentistas" do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e, mais recentemente, antagonizando produtores agrícolas e fazendeiros, muitos dos quais haviam começado a adotar práticas mais responsáveis.

"Para o movimento ambientalista, ela foi a melhor ministra que já tivemos, não há a menor dúvida quanto a isso," diz Paulo Moutinho, diretor do IPAM, um instituto de pesquisas sobre a Amazônia, em Brasília. Ele inclui entre as grandes conquistas da ex-ministra a formulação de um programa de manejo florestal e o fato de 11 diferentes ministérios agora partilharem a responsabilidade pelo meio ambiente.

"Ela mudou a forma de pensar do governo," diz. "Há cinco anos, detestava-se até mesmo falar sobre devastação das florestas". Agora, o Brasil lidera em medidas para conseguir financiamento internacional para pagar por serviços ambientais fornecidos pela preservação de florestas.

Mas em termos de batalhas lutadas e perdidas - sobre safras alteradas geneticamente, o terceiro reator nuclear do Brasil e muitas outras - Marina foi um fracasso. O mais danoso talvez venha a ser o antagonismo que ela disseminou sobre o que parece ser um agravamento no ritmo de devastação na faixa sul do Amazonas, depois de três anos de melhora substancial.

As medidas punitivas de Marina Silva irritaram especialmente Blairo Maggi, governador do Estado de Mato Grosso, onde está localizada a maior parte das áreas mais afetadas. Maggi é um dos maiores produtores de soja do mundo e nos últimos anos passou de vilão para quase herói do movimento ambientalista pela sua liderança em uma moratória para a soja segundo a qual os traders pararam de comprar safras de terras devastadas recentemente.

Marina se opôs a medidas que ajudariam produtores rurais e fazendeiros a adequarem-se à lei, insistindo que eles deveriam ser punidos. Muitos produtores alegam que foram forçados à situação de criminosos por contradições legais e que sua linha dura vai prejudicar iniciativas que os incentivariam a replantar áreas consideradas sensíveis.

O sucessor da ministra demissionária é Carlos Minc, ex-secretário do Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro, onde ele ganhou reputação por reduzir a burocracia que emperrava as licenças ambientais para projetos de infra-estrutura.

Ele prometeu menos burocracia, mas maior rigor no processo de licenciamento, e também se comprometeu a continuar a política de Marina Silva sem alterações. Seu maior desafio será apresentar resultados com o mesmo sucesso que Marina teve ao elevar a conscientização para as questões ambientais. Claudia Dall'Antonia

UOL Cursos Online

Todos os cursos