Martin Wolf: como preservar uma economia aberta em um momento de tensão

Martin Wolf
Colunista do Financial Times

A disseminação da prosperidade é do interesse dos cidadãos dos atuais países ricos? A globalização de suas economias é do interesse deles?

Estas perguntas distintas vêm à minha mente por causa de duas importantes colunas de Lawrence Summers ("Os EUA precisam de um novo argumento para o comércio", em 27 de abril, e "Uma estratégia para promover uma globalização saudável", em 4 de maio). Nelas, Summers argumenta que a política econômica internacional dos Estados Unidos precisa ser ajustada mais estreitamente com os interesses de seus trabalhadores. Muitos europeus concordarão.

Isto não significa argumentar que os interesses dos cidadãos dos países ricos sejam mais importantes que os dos outros. Pelo contrário, a idéia de que o aumento da renda dos pobres compensa a perda equivalente dos ricos é moralmente atraente. Mas a política é nacional. A menos ou até que desponte uma comunidade política global, a política só responderá às percepções de interesse nacional.

Logo, o aumento da prosperidade da China, Índia e outras economias emergentes é de interesse dos atuais países ricos? A resposta correta é esta: não necessariamente. Seria absurdo fingir o contrário.

As grandes vantagens da disseminação da prosperidade incluem uma maior distribuição de inovação e maiores oportunidades de intercâmbio lucrativo. A ascensão dos Estados Unidos concedeu esses benefícios para o Reino Unido. Também importante (apesar de não garantido) é a maior estabilidade política nos países antes empobrecidos.

A grande desvantagem é a maior concorrência por recursos escassos. Poder é um recurso escasso: se o país A tem mais, o país B tem menos. Os recursos também são limitados. Se o preço das commodities sobe, os termos de comércio (os preços relativos de exportações e importações) dos países importadores líquidos deteriorarão: os países precisam exportar mais para conseguir um certo volume de importações.

Desde o final de 2001, os termos de comércio americanos se deterioraram em um oitavo, à medida que os preços das commodities aumentaram e a moeda desvalorizou. Isto transformou um aumento real de 18% no produto interno bruto entre o último trimestre de 2001 e o quarto trimestre de 2008 em um aumento de 16,4% na renda nacional real. A diferença não é grande. Mas vale cerca de US$ 220 bilhões em valores atuais. Logo, os países podem de fato ser prejudicados pela prosperidade dos outros.

A resposta para isto é: e daí? Como apontou Willem Buiter ("Economic Internationalism 101", Maverecon, 5 de maio), nada pode ser feito para deter a difusão de "conhecimento, perícia, tecnologia e sistemas de gestão" e assim por diante.*

Ou pelo menos nada racional ou decente pode ser feito. É claro, os Estados Unidos poderiam lançar um bloqueio sem terem sido provocados ou até mesmo uma guerra contra a China e a Índia. O simples mencionar destas idéias seria revelar sua falência estratégica e moral.

Os Estados Unidos poderiam, é verdade, tentar suspender o fluxo de idéias. O Reino Unido tentou suspender o fluxo de tecnologia para os Estados Unidos no início do século 19: ele fracassou. O império chinês já tornou crime capital exportar o bicho-da-seda: isto também fracassou. De forma semelhante, o protecionismo contra os países emergentes poderia desacelerar seu crescimento, mas não o deteria. E garantiria uma ruptura nas relações internacionais que ameaçaria as esperanças de um futuro pacífico.

Repetindo, nada pode ser feito a respeito da ascensão dos países emergentes, à medida que seguem o exemplo do Ocidente. O que não pode ser evitado deve ser aceito. Isto nos leva à minha segunda pergunta.

Dada a ascensão do mundo emergente, os países desenvolvidos deveriam limitar a globalização de suas próprias economias? É claro, enquanto os países ricos dependerem da importação de commodities, o comércio será essencial. Auto-suficiência é uma miragem. É portanto uma questão de quanta abertura para o comércio e movimento de capital e mão-de-obra deve existir.

Uma questão são os imensos déficits em conta corrente dos Estados Unidos. Mas eles estão diminuindo à medida que cresce a exportação.

Quanto a uma redução do comércio, o ponto básico é bem conhecido: o livre comércio é do interesse do país que adota a política, a menos que tenha o poder de monopólio. Mas -e um "mas" importante- os benefícios e custos provavelmente serão distribuídos de forma desigual. O segundo é particularmente provável no comércio entre países ricos e pobres. O movimento livre de capital ou mão-de-obra também pode prejudicar grupos de interesse importantes dentro de um país apesar do aumento da renda agregada. Quanto mais livre se torna o movimento, mais difícil se torna impor taxas e regulação àqueles capazes de se mover.

Como argumenta Summers, é difícil para uma democracia adotar políticas que a maior parte das minorias acredita contrariar seus interesses. Se a intenção então é não ser protecionista, que não é nada mais do que um programa ineficiente de taxas e subsídios, opções mais criativas precisam ser escolhidas. A mais óbvia, pelo menos para os Estados Unidos, é a necessidade de transferir o fornecimento de segurança dos empregadores para o Estado. Estados de bem-estar corporativo são insustentáveis em uma economia dinâmica e aberta.

Mas se os Estados Unidos tiverem que ser um Estado de bem-estar social mais generoso, incluindo atendimento de saúde universal, como nos demais países ricos, impostos terão que ser aumentados. Na verdade, eles terão que ser aumentados para atender os compromissos já existentes. Summers defende, em resposta, uma ação internacional contra concorrência tributária danosa. Ele também defende um maior acordo internacional para regulação. Em algumas áreas, notadamente a financeira, isso faz sentido.

Mas a idéia de que os Estados Unidos devem obter esses acordos para aumentar um dos níveis mais baixos de tributação e reforçar uma das regulações mais fracas no mundo desenvolvido não é persuasiva. Se os impostos da Suécia podem ser de 56% do PIB, não é a concorrência tributária que mantém os Estados Unidos com apenas 34%. A mobilidade de capital e de pessoas é uma desculpa, não uma justificativa, para os níveis mais baixos de impostos nos Estados Unidos.

O que é desesperadamente necessário é um debate honesto sobre estas questões. Tal debate iria, eu acredito, chegar a quatro conclusões fundamentais. Primeiro, independente dos cidadãos americanos (ou de outros países ricos) aceitá-la ou não, a disseminação global de desenvolvimento econômico é inevitável. Segundo, o protecionismo contra os importados é uma forma cara e ineficiente de lidar com as conseqüências. Terceiro, os partidos de centro-esquerda devem defender a redistribuição dos espólios da globalização, não sacrificá-los. Finalmente, uma condição necessária é uma maior tributação sobre os vencedores. Mas o principal obstáculo para isto é uma falta de vontade política doméstica. A globalização não é um motivo para impostos baixos, mas sim uma desculpa. Isto deve ser descartado.

Todos devem lembrar, acima de tudo, que a abertura da economia mundial é o maior feito de política econômica do Ocidente. Seria uma tragédia se ele voltasse suas costas ao mundo quando o restante da humanidade está finalmente se voltando para ele.

*http://blogs.ft.com/maverecon George El Khouri Andolfato

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