Empresas e consumidores sentem o choque dos preços recordes do petróleo

Chris Giles e John Willman*

Preços do petróleo em altas recordes; alta das commodities pressionando os custos para os consumidores; uma desaceleração econômica provocada pela turbulência nos mercados financeiros. Nos anos 70, o resultado foi estagflação: uma inflação elevada que levou anos para ser reduzida e provocou desemprego em massa. Hoje, políticos e presidentes de bancos centrais estão lutando para encontrar a mistura política certa para evitar uma repetição das crises do petróleo dos anos 70 -à medida que a elevação dos preços dos combustíveis reduz o poder aquisitivo dos lares e os lucros das empresas.

O aumento desta semana, que chegou a US$ 135 o barril, significa que o preço do petróleo cru mais que dobrou em um ano e permanece cerca de 15% acima de seu pico de 1979, mesmo após a correção pela inflação. O aumento persistente está colocando setores inteiros, como a aviação comercial e o automotivo, sob severa pressão, enquanto economistas e presidentes de bancos centrais acreditam que simultaneamente reduzirá a expansão econômica e aumentará a inflação.

O aumento das despesas com combustível colocou as companhias aéreas americanas de novo à beira da falência, um local de onde achavam ter saído após uma modesta recuperação nesta década devido aos efeitos dos ataques terroristas e da recessão. A American Airlines implantou medidas drásticas nesta semana para lidar com o fardo, como o cancelamento de mais de um entre cada 10 vôos americanos, a demissão de milhares de funcionários e a cobrança de uma taxa de US$ 15 para a maioria dos passageiros para despacho de um item de bagagem.

Na Europa, a Air France-KLM disse que seu lucro operacional poderá cair em um terço por causa dos preços do combustível -e que as tarifas terão que aumentar. Companhias aéreas mais fracas estão sob pressão, com empresas especializadas em vôos de classe executiva deixando de operar, enquanto Willie Walsh, o presidente-executivo da British Airways, alertou aos investidores que sua empresa poderá manter algumas aeronaves no solo após o verão para reduzir a capacidade -e até mesmo cortar rotas não lucrativas. Seus lucros operacionais poderão ser eliminados caso o preço do petróleo permaneça acima de US$ 120: "Com o barril de petróleo a US$ 125, nós estamos em território desconhecido".

Transportadoras rodoviárias também estão sentindo o aperto, particularmente em países como o Reino Unido, onde os impostos sobre os combustíveis são altos e geralmente aumentam a cada ano. A Associação de Transportadoras Rodoviárias do Reino Unido diz que o custo para abastecer um caminhão articulado comum aumentou de 35 mil libras (US$ 69.400) ao ano para mais de 50 mil libras em apenas 12 meses. Juntamente com a Federação das Pequenas Empresas do Reino Unido, ela está fazendo campanha para que o aumento de 2 pences por litro planejado para outubro seja descartado, apontando que a arrecadação do governo já está maior do que a prevista devido ao aumento nos preços do petróleo. "O setor de transporte não tem como absorver o impacto do aumento dos preços do petróleo", disse Roger King, presidente da associação das transportadoras.

O aumento do preço dos combustíveis também atingiu os fabricantes de carros que consomem muita gasolina, com as vendas dos utilitários esportivos de luxo caindo quase pela metade neste ano na França e na Espanha. No Reino Unido, foram as vendas de grandes carros para família como os Ford Mondeos e Vauxall Vectras que caíram. A demanda por carros com motores a diesel no Reino Unido está em um nível recorde, porque custam menos para rodar, apesar dos aumentos nos preços do diesel estarem minando a vantagem.

Para a já em dificuldades Detroit, os analistas estão prevendo que 2008 será o pior ano do mercado automotivo americano desde 1991. Na quinta-feira, a Ford adiou sua antiga meta de devolver suas operações norte-americanas à lucratividade em 2009, culpando os custos mais altos das matérias-primas.

Muitos setores que não são consumidores significativos de petróleo também estão sofrendo, por causa do impacto dos preços do petróleo nos custos de energia. O preço do gás, usado para gerar eletricidade, freqüentemente está vinculado implícita ou explicitamente ao preço do petróleo, enquanto os preços recordes do carvão e os gargalos na capacidade portuária e de transporte indicam que há limites para substituição de combustível. As empresas de utilidade pública atingidas pelos custos de energia estão ao mesmo tempo sob pressão política em muitos países para conter os aumentos nos preços.

Apesar de todo o setor manufatureiro ser afetado pelo aumento global nos preços, alguns fabricantes são atingidos mais duramente, por causa das variações locais de impostos e regulação. Os preços da gasolina no mercado britânico liberalizado, por exemplo, são ligeiramente mais altos do que no restante da Europa, e os preços da eletricidade no atacado estão 30% mais altos nos contratos futuros.

Os mais atingidos são os usuários intensivos de energia como as siderúrgicas, onde a energia representa cerca de um quarto dos custos, e produtores de alumínio, onde ela representa 40%. A indústria química é atingida não apenas como usuária intensiva de energia, mas porque também usa hidrocarbonetos como base de seus produtos. Assim como a construção, por causa de sua dependência de aço e cimento, o que pressiona projetos de infra-estrutura como ligações de transporte, estações de força e -no Reino Unido- as instalações para os Jogos Olímpicos de 2012.

O impacto sobre os fabricantes também depende de sua capacidade de repassar os custos mais altos para seus clientes. A Michelin emitiu um alerta de lucro no mês passado, após dizer que os altos preços do petróleo e da borracha lhe custariam 200 milhões de euros (US$ 315 milhões) neste ano. "Um número significativamente maior de empresas está aumentando seus preços no momento", disse Steve Radley, economista-chefe da EEF, que representa empresas do setor manufatureiro no Reino Unido. "Mas não podem repassar o valor total, de forma que as margens estão sendo reduzidas."

Nas crises anteriores do petróleo, o Reino Unido foi quem pior se saiu entre as principais economias, com uma desaceleração acentuada no crescimento e inflação subindo acima de 20%. Segundo Danny Gabay, da Fathom Consulting, isso ocorreu porque a "abordagem adotada pelas autoridades monetárias foi menos acertada do que a adotada por seus pares nos Estados Unidos e Alemanha". Com a visão do mercado de títulos de que as credenciais de combate à inflação do Banco da Inglaterra se encontram em seu ponto mais baixo desde que lhe foi concedida a independência em 1997, e que o governo produziu reduções de impostos infundadas por motivos políticos, as atenções estão voltadas ao Reino Unido para ver se seu desempenho será melhor desta vez.

Ray Barrell, do Instituto Nacional de Pesquisa Econômica e Social, disse que o impacto no Reino Unido deverá ser menos sério do que nos anos 70, porque a importância do petróleo na economia caiu drasticamente -menor do que o restante da Europa e do que nos Estados Unidos. Ele estima que cada aumento de US$ 10 nos preços do petróleo devem elevar a inflação em 0,2 ponto percentual no Reino Unido, 0,25 ponto na zona do euro e 0,4 ponto nos Estados Unidos. Portanto, os recentes aumentos do petróleo adicionaram cerca de 1 ponto percentual na inflação britânica -apesar de Barell dizer que estas fórmulas de cálculos devem ser tratadas com cautela.

De qualquer forma, um petróleo mais caro atinge as economias consumidoras de petróleo de duas formas. Uma conseqüência é reduzir a quantidade que uma economia pode produzir por um custo total determinado. A Alemanha deve exportar mais BMWs após um aumento dos preços do petróleo se quiser importar a mesma quantidade de petróleo. Este "choque de termos de comércio negativos" significa que os próprios alemães devem comprar menos BMWs: para que isso aconteça, as taxas de juros precisam aumentar.

A segunda conseqüência dos preços mais altos do petróleo e piora associada dos termos de comércio é uma redução do poder aquisitivo dos consumidores. Segundo Ben Broadbent, da Goldman Sachs, como não há espaço para redução da poupança e pouca perspectiva de reduzir a compra de combustível, a redução terá "um impacto muito maior do que a habitação ou as taxas de juros sobre a demanda na economia".

Isto cria uma preocupação para os autores de políticas. Se os consumidores aceitarem uma redução de seu padrão de vida, as taxas de juros precisarão subir apenas o suficiente para lidar com o choque dos termos de comércio. Mas se gastarem como se nada estivesse acontecendo, uma inflação mais alta se torna impregnada e produz demandas por aumentos salariais. O resultado -como nos anos 70- seria a estagflação. Então os bancos centrais estão adotando um tom duro. Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu, disse que não repetirá os erros de política dos anos 70 que "mantiveram a inflação elevada por um longo período" e levaram a um desemprego em massa.

Apesar dos mercados de títulos no Reino Unido terem perdido a fé na capacidade do Banco da Inglaterra de conter a inflação, sua posição permanece muito mais alta do que nos anos 80. Agora, os mercados de títulos parecem ter começado a valorizar aumentos nas taxas de juros do que cortes tanto no Reino Unido quanto na zona do euro.

Mas as taxas de juros ainda não subiram, porque o Reino Unido está em meio a outro choque: a crise do crédito. Isto está fazendo grande parte do trabalho que taxas de juros mais altas fariam na contenção da demanda. Isto significa que a economia britânica está caminhando para sua desaceleração mais prolongada desde o início dos anos 90 e o Banco insiste que isto deve acontecer para conter a inflação.

Em um momento em que está politicamente fraco, isto não traz conforto para o governo. A população ainda não exibiu resistência em massa ao futuro declínio no padrão de vida -mas exibiu uma irritação em massa contra o Partido Trabalhista, como o partido no poder. Com a sorte de seu partido em xeque antes mesmo da desaceleração econômica realmente se fazer sentir ou a inflação ter chegado ao seu pico, o cenário econômico para o próximo ano certamente piorará para o primeiro-ministro Gordon Brown.

*Reportagem adicional de Francesco Guerrera, Justin Baer e Richard Milne George El Khouri Andolfato

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