Martin Wolf: segunda década do euro poderá ser mais dura que a primeira

Martin Wolf
Colunista do Financial Times

"Uma década inteira após os líderes da Europa terem tomado a decisão de lançar o euro, nós temos bons motivos para estarmos orgulhosos de nossa moeda única. A União Econômica e Monetária (UEM) e o euro são um grande sucesso". Autocongratulação é adequada em festas de aniversário. Logo, ninguém deve ficar surpreso com os comentários efusivos de Joaquín Almunia, comissário de assuntos econômicos e monetários, no prefácio do excelente estudo "Emu@10" (sic).*

Como alguém ousaria questionar os feitos da moeda única? Ela é considerada uma rival crível ao dólar americano. Jeffrey Frankel, de Harvard, até mesmo previu em março que "o euro poderia substituir o dólar em 10 anos".** Isso difere muito do ceticismo, particularmente nos círculos de língua inglesa, com que foi recebido tanto seu lançamento quanto o período subseqüente de desvalorização frente o dólar americano. Esta é uma moeda crível.

Os sucessos são de fato óbvios: o Banco Central Europeu (BCE) se estabeleceu como um banco central crível e um rival plausível ao Federal Reserve, o banco central americano; a inflação anual nos países membros da zona do euro foi em média de 2,2% ao ano entre 1999 e o início de 2008, em comparação a 3,3% entre 1989 e 1998; o déficit fiscal caiu para 0,6% do produto interno bruto no ano passado, em comparação com uma média de 4% nos anos 80 e 90; taxas de juros nominais e reais estão ambas mais baixas do que por várias décadas; os fluxos de comércio intra-área agora representam um terço do PIB da zona do euro, em comparação a um quarto há 10 anos; e a integração financeira prosseguiu rapidamente, com os 16 maiores grupos bancários detendo mais de 25% de seus ativos fora de seus países de origem.

Não é de se estranhar, portanto, que o euro tenha se recuperado tão fortemente frente ao dólar e que, em termos reais, um euro (artificial) esteja em seu ponto mais alto desde 1970, segundo o JPMorgan. Não é de se estranhar que a participação do euro nas reservas de moeda estrangeira tenha subido de 18% em 1999 para mais de 25% em 2007. Também não é de se estranhar que o ingresso de países na zona do euro tenha subido dos 11 iniciais para 15, com mais a caminho.

Mas nem tudo é cor-de-rosa. Segundo a Comissão o PIB real per capita cresceu a apenas 1,6% ao ano entre 1999 e 2008, uma queda em comparação a 1,9% entre 1989 e 1998, e bem abaixo dos 2,2% na Dinamarca, Suécia e Reino Unido, os três membros estabelecidos da União Européia que permanecem de fora. A produtividade do trabalho cresceu a apenas 0,8% por ano, uma queda em comparação a 1,6% entre 1989 e 1998, e bem abaixo dos 1,6% nos Estados Unidos entre 1999 e 2008. A taxa de desemprego caiu, mas ainda está bem acima dos níveis dos outros três países membros e dos Estados Unidos.

A conclusão, então, é que a zona do euro é um triunfo como união monetária. Mas é muito menor como uma união econômica. No mínimo, sua criação não causou a aceleração do dinamismo que seus defensores esperavam. Se algo aconteceu, é que as reformas estruturais desaceleraram.

Além disso, à medida que o euro se valoriza, as pressões para ajuste das divergências internas provavelmente crescerão a níveis enormes. O relatório é honesto em relação a estes desafios. Entre 1999 e 2007, surgiram divergências imensas na inflação, custos trabalhistas relativos e posições de conta corrente. Estas tendências foram exacerbadas pela divergência nas taxas de juros reais, com as taxas menores nos países com inflação mais alta e -de forma perversa mas inevitável- nas economias mais fortes.

Há duas histórias aqui: a divergência nos custos trabalhistas relativos entre a Alemanha, de um lado, e Irlanda, Portugal, Grécia, Espanha e Itália do outro; e a escala de booms imobiliários alimentados pelo crédito na Espanha e Irlanda. A Espanha é o exemplo mais importante: ela teve um enorme boom imobiliário, com o investimento residencial atingindo 13% do PIB, e imensos déficits de conta corrente, cujo pico foi de 10% do PIB. Mas na Itália, que sofre de um crescimento fraco crônico, também há problemas significativos de competitividade.

Como estes ajustes terminam? A resposta depende em parte do que acontece na zona do euro como um todo. As probabilidades são de que o crescimento desacelerará acentuadamente a curto prazo, sob as pressões de uma taxa de câmbio elevada, as transferências de renda para o exterior geradas pelos altos preços das commodities e os esforços do BCE para manter a inflação sob controle.

Enquanto isso, os países periféricos enfrentarão desafios cíclicos e estruturais estreitamente relacionados. O cíclico, particularmente relevante para a Espanha, é encontrar novas fontes de demanda, agora que o boom do crédito se esgotou; o estrutural é recuperar a competitividade perdida. Os dois objetivos tendem a se mesclar no caso dos membros de uma união de moeda, já que não têm uma política monetária própria e pouco espaço para manobra fiscal. Logo, uma recuperação durável também precisará de grandes melhorias na competitividade externa.

Em um momento em que o próprio euro está tão forte, isto será difícil de conseguir. Presuma, para fins de argumento, que a tendência de crescimento da produtividade na produção de bens comercializáveis e serviços seja a mesma na Espanha ou na Itália quanto na Alemanha. Então qualquer melhoria na competitividade exigirá menores aumentos salariais. Uma melhoria de 10% nos custos trabalhistas relativos exigiria um declínio de 10% nos salários relativos. Se isto vier a acontecer, digamos, ao longo de cinco anos, os aumentos salariais nominais provavelmente teriam que ser na faixa de 0 a 1%. Esse resultado seria gerado por algo próximo de uma recessão.

O otimista argumentaria que a periferia só precisa fazer o que a própria Alemanha fez nos primeiros anos da UEM. O pessimista notaria que o crescimento da Alemanha foi em média de apenas 0,6% entre 2001 e 2005 (incluso). O pessimista poderia adicionar que a autodisciplina alemã é lendária e que a força de seu setor manufatureiro é sem igual. O pessimista poderia concluir notando o comportamento dos políticos nacionais europeus. Muitos pareciam acreditar, ou ao menos esperar, que o ingresso na UEM era o fim de um processo árduo, em vez do início de um. Isto não significa que um ajuste à frente seja impossível, mas sim acentuar a escala do desafio.

A UEM conseguiu ser tão bem-sucedida quanto uma união dessas pode ser. Por isso, os envolvidos merecem aplausos. Se este sucesso continuar nas próximas décadas, o euro certamente se tornaria uma moeda global ainda mais importante. Mas o sucesso da zona do euro não é uma questão técnica. Ele exigirá escolhas muito difíceis. Ele só será assegurado se o desempenho geral melhorar e o ajuste interno funcionar facilmente. Então podemos concluir que a EMU é um triunfo? Ainda é muito cedo para dizer.

*http://ec.europa.eu/economy_finance
**www.voxeu.org
George El Khouri Andolfato

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