Cristina Kirchner ataca a imprensa argentina à medida que cai sua popularidade

Jude Webber

Seja qual for a crise mais recente -o conflito dos agricultores argentinos ou as disputas em torno das estatísticas de inflação ou pobreza- a presidente Cristina Kirchner sabe de quem é a culpa: da imprensa.

Em seus discursos recentes, ela a tem atacado sistematicamente por "manipular informação para preocupar as pessoas", "apresentar a questão da inflação de forma incorreta ou falsa", enviar "mensagens negativas, onde tudo parece ruim" e ignorar "todas as coisas positivas que o governo faz".

Um relacionamento irritadiço com a imprensa está longe de ser incomum quando a imagem pública do presidente está sofrendo. Com menos de seis meses de mandato, e com os agricultores realizando sua terceira paralisação nacional em um conflito amargo de 11 semanas com o governo em torno de tarifas de exportação, a popularidade de Cristina está em queda livre, segundo a mais recente pesquisa da consultoria Poliarquía.

AFP - 25.mai.2008 
Cristina Kirchner participa das comemorações da independência da Argentina

Ela aponta seu índice de popularidade em 26%, em comparação a 56% em janeiro, apesar do governo ter rapidamente publicado outras pesquisas lhe dando apoio de 46% a 60%.

O que é incomum é a ferocidade que o governo tem exibido, principalmente em relação ao jornal mais vendido da Argentina, o Clarín, e sua empresa de televisão a cabo, a Todo Noticias.

Nas últimas semanas, cartazes dizendo "Clarín mente" e "Todo Negativo" foram espalhados pelos muros de Buenos Aires e estiveram presentes em comícios do governo, muitos deles organizados pelos grupos jovens do partido peronista.

Néstor Kirchner, o marido de Cristina e seu antecessor, até mesmo exibiu recentemente um cartaz dizendo "Clarín, o maior produtor de soja da Argentina" em um comício no mês passado, ressaltando a posição do governo de que a imprensa está do lado dos agricultores na disputa em torno das tarifas de exportação.

A Argentina conta com grupos de mídia poderosos que possuem seus próprios interesses econômicos, e a imprensa nem sempre é rigorosa ou imparcial. Eles freqüentemente são cortejados pelos governos argentinos: durante seu mandato de 2003 a 2007, Kirchner prorrogou as licenças de rádio e televisão por 10 anos, uma medida vista como visando ajudar o grupo Clarín a aumentar sua influência.

Mas dado o crescimento econômico da Argentina, superávits comerciais e fiscais, reservas sólidas do banco central, aumento da receita tributária e alto preço das commodities, as dificuldades políticas de Cristina parecem cada vez mais auto-infligidas.

Ela fracassou em cumprir sua promessa na noite da eleição de conciliação e mudança e "está totalmente à sombra" de Kirchner, que é o poder por trás do trono, segundo Carlos Germano, um analista.

Assim como seus ministros e modelo econômico -que vários economistas acreditam estar levando a Argentina para uma estagflação- Cristina compartilha a fé do marido de que a abordagem heterodoxa do governo é imbatível, precisamente por ter desafiado os profetas do apocalipse e ter funcionado até o momento.

"Eles não entendem o papel da imprensa", disse o vice-editor do Clarín, Ricardo Roa. "Eles acham que ou você está ao lado deles ou conspirando contra eles. A culpa é sempre do mensageiro."

Um dos maiores problemas é os dados da inflação, que se acredita amplamente que o governo esteja manipulando desde o início de 2007 para esconder os crescentes aumentos de preços. O governo prometeu publicar um novo índice no mês que vem, mas apesar dos vazamentos para a imprensa, ele ainda não deu qualquer detalhe oficial sobre a metodologia do levantamento.

Isto é típico da forma como o governo aborda a informação, um governo que nunca realizou uma reunião ministerial, não realiza coletivas de imprensa, rejeita dar entrevistas e cujo porta-voz nunca fala publicamente. Ninguém estava disponível para comentar este artigo.

De fato, Cristina perguntou aos repórteres que a acompanharam a um encontro de cúpula em Lima, neste mês: "Vocês vão se comportar?", e então se afastou.

Jake Dizard, da Freedom House, uma organização americana de direitos humanos que monitora a liberdade de imprensa, disse que a Argentina está "regredindo".

Na condição de senadora antes de se tornar presidente, Cristina liderou tentativas de enfraquecer um projeto de lei de liberdade de informação que, no final, acabou sendo engavetado, lembrou Roberto Saba, chefe da Associação pelos Direitos Civis da Argentina.

Ele disse que o governo usa seu orçamento de propaganda -que aumentou 55%, para US$ 103 milhões em 2007- como uma "cenoura e porrete", ameaçando retirar propagandas oficiais lucrativas de veículos críticos em uma forma de "censura sutil".

Todavia, a imprensa tem noticiado escândalos desconfortáveis, incluindo as alegações de propina associadas a uma ampliação de um grande gasoduto; a descoberta de pelo menos US$ 64 mil no toalete do gabinete de uma ex-ministra da economia; e US$ 800 mil em dinheiro não declarado que foi apreendido após ter entrado na Argentina em um vôo oficial da Venezuela, em agosto passado. Várias autoridades, incluindo a ex-ministra da economia, perderam seus cargos.

A disputa entre o governo e o Clarín diminuiu um pouco recentemente, desde um encontro entre o chefe de gabinete e um representante do grupo de mídia, e Roa disse: "Nós não estamos interessados em ser um jornal de oposição". Mas ele acrescentou: "O governo precisa entender que ele não pode escrever as manchetes do Clarín". George El Khouri Andolfato

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