Verdades incômodas para um novo mundo dividido em "eles e nós"

Por Philip Stephens

O mundo está de ponta-cabeça. Os consumidores dos países mais ricos lutam com as conseqüências da crise de crédito e com o crescente custo da energia e dos alimentos. Na China, as vendas no varejo crescem 15% ao ano. Não posso pensar em uma melhor descrição da ordem global emergente.

O problema é que a política da globalização fica cada vez mais para trás da economia. Apesar de todo o reconhecimento tácito de que o poder está migrando para o Oriente, o Ocidente ainda quer imaginar as coisas como costumavam ser. Neste mundo de eles e nós, "eles" são acusados pelos candidatos democratas na disputa presidencial nos EUA de roubar "nossos" empregos. Agora você ouve europeus dizerem que "eles" estão provocando o aumento dos preços internacionais das matérias-primas ao queimar "nosso" combustível e comer "nossa" comida.

Outro dia escutei um importante banqueiro central dar uma explicação lúcida do colapso de confiança que paralisou os mercados de crédito internacionais no último verão. Eu digo lúcida porque foi simples, evitando as coisas indecifráveis sobre algoritmos, pacotes de securities e regras de contabilidade "mark-to-market".

A crise, disse o banqueiro em uma conferência promovida pelo Instituto Weidenfeld para o Diálogo Estratégico, decorreu da coincidência de um excesso de poupança global com a explosão de inovação financeira possibilitada pela tecnologia da informação cada vez mais sofisticada. Isto havia provocado entre os banqueiros e corretores de investimentos altamente remunerados uma indiferença despreocupada ao risco. Tinha que terminar em lágrimas.

As poupanças vinham principalmente das economias asiáticas em rápido crescimento e das rendas florescentes dos produtores de petróleo e gás, mas uma parte poderia ser atribuída a uma redução dos investimentos nos países desenvolvidos depois da explosão da bolha das pontocom. Como os prêmios de risco haviam caído e as margens diminuído, os banqueiros centrais e reguladores advertiram sobre os perigos. O que eles não previram foi que a explosão dos empréstimos hipotecários de segunda classe nos EUA seriam os catalisadores de uma explosão tão repentina.

Nada do que foi dito até agora, suponho, é uma grande revelação para os que estão no setor bancário hoje, contando os bônus perdidos para a exuberância irracional. O que me marcou, porém, foi como essa crise (ninguém tem certeza de que esteja acabada) oferece uma metáfora perfeita da nova paisagem geopolítica.

Lembre-se dos choques financeiros dos anos 1980 e 90. Para nós no Ocidente foram eventos infelizes em lugares distantes: a América Latina, a Rússia, a Ásia, a América Latina de novo. Havia um risco de contágio, mas na medida em que os países ricos pagaram um preço ele foi principalmente o custo de salvar seus próprios bancos irresponsáveis. O remédio realmente amargo, prescrito pelo Fundo Monetário Internacional, teve de ser engolido pelos mutuários muito menos afortunados.

Os parâmetros da globalização foram definidos pelo Ocidente. A liberalização do comércio e dos fluxos de capital foi um projeto principalmente dos EUA. Não foi exatamente um empreendimento imperialista, mas, embora todo mundo devesse ganhar com a integração econômica, a suposição implícita era que os maiores lucros iriam para os mais ricos. As regras foram definidas em algo chamado, logicamente, de Consenso de Washington.

Contra esse pano de fundo, o atual desconforto do Ocidente está cheio de ironias. Uma parte considerável das poupanças excedentes que inflaram a bolha de crédito foi produto do Consenso de Washington. Nunca mais, disseram a si mesmas as vítimas da crise no leste asiático de 1997 depois de serem obrigadas a ingerir o remédio do FMI. Essa seria a última vez em que eles seriam reféns do socorro ocidental. Em vez disso, acumularam enormes reservas cambiais.

Então agora a bota está no outro pé. O FMI prevê que as economias avançadas mal conseguirão manter suas cabeças fora d'água. Com sorte, o crescimento neste ano e no próximo ficará pouco acima de 1%. Se elas evitarem a recessão -e a maioria dos meus amigos americanos acha isso improvável no que diz respeito aos EUA-, terão de agradecer às robustas taxas de crescimento na Ásia e na América Latina. A previsão de crescimento na China é de cerca de 9% nos dois anos, na Índia de 8% e para as economias emergentes e em desenvolvimento em geral, pouco mais de 6%.

As antigas potências não compreenderam essa nova realidade. Existem sinais, é claro, que indicam a necessidade de reestruturar as instituições internacionais. Os países em ascensão devem ter mais voz, dizem alguns políticos ocidentais. Talvez mais assentos no Banco Mundial, na ONU e, sim, no conselho do FMI. Mas a suposição é que as potências ascendentes simplesmente se acomodarão ao sistema existente -um pequeno ajuste aqui, uma mexida ali e tudo ficará bem de novo. Falta disposição para ver que este é um momento de transformação que exige olharmos o mundo de uma maneira totalmente diferente.

Um dos motivos para essa relutância foi a emergência de outro "eles e nós" -desta vez no interior das sociedades ocidentais. O "nós" nesse caso são os bem educados e situados que conseguiram obter benefícios consideráveis do processo de integração econômica global. O "eles" são os subeducados e menos afortunados que perderam o emprego ou viram sua renda encolher com as grandes mudanças na vantagem comparativa decorrentes da inovação tecnológica e da abertura econômica.

A resposta dos governos até agora ficou em algum lugar entre o desespero e a negação: não há nada a fazer diante das forças do mercado global; ou, com o tempo os benefícios da globalização serão distribuídos. As políticas ativas de educação e assistência social necessárias para facilitar o ajuste foram conspícuas por sua ausência. Como você diz aos eleitores que todas as velhas premissas sobre o capitalismo assistencialista devem ser repensadas?

É difícil. Mas esses dois conjuntos de pressões -entre os países e dentro deles- não podem ser ignorados indefinidamente. Nesse caminho está um deslize inexorável para o protecionismo que faria a recente tempestade financeira parecer um aguaceiro de verão. De qualquer modo que seja conduzido, o processo de ajuste para a nova ordem mundial será dilacerante. Afinal, os EUA e a Europa desfrutaram a melhor parte de dois séculos de hegemonia política e econômica sem esforço.

Não há motivos para que não continuem a prosperar em um mundo onde o poder seja distribuído com maior igualdade. A globalização não precisa ser um jogo de soma zero. Mas se o Ocidente quiser se adaptar deve reconhecer que não pode mais ditar as regras. A globalização pertencia a nós; as crises financeiras aconteciam para eles Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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