Preços altos começam a afetar o apetite mundial por petróleo

Carola Hoyos

Enquanto caminhoneiros protestam contra os elevados preços dos combustíveis, os políticos buscam bodes expiatórios entre os especuladores e governos asiáticos abandonam os caros subsídios aos combustíveis, acumulam-se os indícios de que está em andamento uma mudança dramática da demanda por petróleo.

Os Estados Unidos, por exemplo, dão sinais de que finalmente começam a abordar o problema representado pelo vício em petróleo. Nesta semana, a General Motors, a maior fabricante de automóveis dos Estados Unidos, anunciou que cogita livrar-se da divisão que fabrica os seus veículos Hummer. O fato de o Hummer, o mais avantajado dos veículos fora de estrada, estar perdendo o charme - no ano em que o Smart, o minúsculo carro suíço para duas pessoas, aparece nas exposições de automóveis norte-americanas, após ter rodado durante anos pelas estreitas ruas das capitais européias - foi observado com atenção por economistas que acompanham a demanda por petróleo na Agência Internacional de Energia
(AIE) em Paris.

Eduardo Lopez, analista desta instituição intergovernamental do setor energético formada por países desenvolvidos, enxerga indícios de uma mudança estrutural que melhora vagarosamente a eficiência da frota norte-americana de automóveis. "As pessoas podem ignorar os preços mais altos enquanto estiverem ficando mais ricas, mas de repente a maré mudou. O norte-americano médio tem que enfrentar os altos preços do petróleo e os problemas de renda [um em cada dez mutuários luta desesperadamente para pagar as hipotecas, segundo a agência do setor, Mortgage Banker's Association], e em muitos casos ele vê-se em uma arapuca, dirigindo uma monstruosidade sobre rodas que devora a metade do seu salário mensal apenas para transportá-lo até um pouco além da esquina", diz Lopez.

A AIE e outras instituições que também fazem previsões para o setor vêm coletando indícios de uma queda da demanda, bem como números anômalos referentes ao crescimento econômico, à inflação e à quilometragem percorrida pelos motoristas (que, no último mês de março, nos Estados Unidos, caiu pela primeira vez desde 1979).

Agora essas tendências refletem-se nas previsões sobre a demanda. No mês passado, o Departamento de Energia dos Estados Unidos reduziu a magnitude das previsões sobre a demanda norte-americana, anunciando que esta cairia mais do que o dobro do que anteriormente se previa. Levando em conta a projetada adoção do etanol no país, acredita-se que a demanda por petróleo nos Estados Unidos neste ano diminua em 330 mil barris diários. Em 2007, os norte-americanos utilizaram 20,7 milhões de barris diários, o que correspondeu a um quarto da demanda mundial.

Outros argumentam que está em jogo um significante elemento especulativo. George Soros, o investidor bilionário, disse nesta semana a um comitê do Congresso dos Estados Unidos que os investimentos em mercados futuros estão exagerando a alta dos preços e criando uma bolha de mercado para o petróleo e outras commodities.

Resta agora saber se o preço do petróleo acabará caindo do patamar de US$ 135 o barril, à medida que o maior consumidor do mundo optar por menos viagens, carros menores e o etanol, ou se as preocupações quanto ao fornecimento continuarão predominando enquanto a China e o Oriente Médio compensam o declínio da demanda nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos.

Recentemente o mercado começou a girar exatamente em torno dessa questão. Nos últimos 12 meses a crença dominante foi de que a oferta lutava para acompanhar a demanda. Poucos negociantes focalizavam-se no risco de que a erosão da demanda estivesse finalmente pronta a surgir no cenário, após uma década durante a qual os preços subiram mais de 100%.

Mas, nesta semana, a preocupação quanto à demanda gerou alterações momentâneas no mercado do petróleo, à medida que a tendência presenciada nos Estados Unidos conjugava-se a notícias de que a demanda em alguns países asiáticos em desenvolvimento poderia cair devido à redução governamental aos vultuosos subsídios.

Acredita-se que crescimento da demanda mundial por petróleo neste ano, que deverá ser de aproximadamente um milhão de barris diários, ocorra em países que utilizaram os subsídios para proteger os seus cidadãos dos recentes aumentos desta commodity. Metade da população mundial beneficia-se dos combustíveis subsidiados, embora esta distorção torne-se menos dramática caso se leve em conta o fato de que os combustíveis que estas pessoas compram por um preço reduzido representam apenas um quarto do consumo mundial.

Nas diversas regiões do mundo, os motoristas pagam valores bastante diferentes pelo petróleo e outros combustíveis. Os postos dos Estados Unidos - freqüentemente usados como padrão porque neles os preços não são fortemente taxados nem subsidiados - cobram US$ 1 pelo litro da gasolina. Na China este valor é de 64 centavos de dólar, na Arábia Saudita 12 centavos e na Venezuela cinco centavos.

Mas, para certos governos, o fardo econômico representado pela contenção dos custos dos combustíveis, e, portanto, também da inflação, está tornando-se demasiadamente pesado. Deparando-se com déficits orçamentários cada vez maiores e com refinarias estatais deficientes, a Índia, a Malásia e Taiwan começaram nas últimas semanas a reduzir os seus subsídios, apesar das ameaças de um prejuízo político e, em alguns casos, de violentos protestos de rua. A decisão desses países funciona, em tese, como um freio aplicado sobre a demanda, já que os consumidores recuam ante os novos preços mais elevados nas bombas de gasolina.

Isto é importante tanto no curto quanto no longo prazo, especialmente em economias emergentes que atualmente estão decidindo se construirão estradas, ferrovias e serviços eficientes de ônibus públicos, em um período no qual os seus cidadãos migram do campo para os centros urbanos.

"Se você examinar as cidades norte-americanas, perceberá que elas foram projetadas para os automóveis particulares das décadas de quarenta, cinqüenta e sessenta. É muito importante enviar um sinal às economias emergentes de que a energia é um recurso escasso, acabando com os subsídios ou taxando os combustíveis", afirma Armin Wagner, funcionário da GTZ, a agência governamental alemã de desenvolvimento, e um dos autores de um estudo anual sobre os preços internacionais dos combustíveis em mais de 170 países.

Mas mesmo que alguns países asiáticos estejam cortando subsídios, a demanda norte-americana esteja em queda, a demanda européia permaneça estabilizada e os países mais pobres do mundo esforcem-se para pagar a dívida da importação de combustíveis, a desaceleração do crescimento da demanda mundial pode ser anulado pelo boom econômico na China e no Oriente Médio. De fato, o preço do petróleo disparou novamente na sexta-feira (06/06), enquanto os temores quanto à oferta do produto e um dólar mais fraco afastavam as preocupações relativas à demanda e provocavam um frenesi de compra.

A China - cuja demanda por petróleo deve crescer de 5% a 10%, alimentada em parte pelos preparativos para as Olimpíadas - impõe um teto para o preço dos combustíveis. Faz mais de um ano que o governo chinês recusa-se a elevar este teto, provocando, desta forma, grandes prejuízos para as refinarias estatais e fazendo com que as refinarias menores desapareçam, à medida que os preços sobem. Isso causou uma escassez de combustíveis. Porém, poucos analistas esperam que Pequim corte os subsídios antes que seja capaz de controlar a inflação. E mesmo se a China tomar medidas para reduzir o desperdício e a escassez provocados pelos preços artificialmente baixos, a demanda por petróleo no curto prazo crescerá - o que seria exatamente o oposto do esperado.

"A demanda reprimida na China é significativa. O que se vê lá não é uma classe média que ficaria destituída caso os preços dos combustíveis subissem", diz Lopez. "Na verdade, a elevação dos preços na China poderia gerar um aumento das importações de petróleo, à medida que as grandes refinarias intensificassem as suas operações de processamento e as pequenas voltassem a funcionar para abastecer as regiões rurais de óleo combustível".

Mas a China não é o único país que resiste aos apelos do Fundo Monetário Internacional, do Banco de Desenvolvimento Asiático e da AIE para cortar subsídios. Os maiores culpados pelo desperdício de petróleo são os países exportadores. A entrada volumosa de petrodólares no Oriente Médio fez com que fossem adquiridas quantidades cada vez maiores de carros de luxo e aparelhos de ar condicionado pelos países da região, fazendo com que neles o consumo de petróleo per capita aumentasse até se igualar ao dos Estados Unidos. No entanto, em termos de produto interno bruto, a região produz apenas um sexto da quantidade norte-americana por barril de petróleo, o que evidencia a magnitude do desperdício.

Com planos ambiciosos para a construção de unidades petroquímicas e refinarias, apesar da carência de gás natural necessário para alimentar estes projetos, a demanda por derivados de petróleo na região deverá crescer.

Mesmo que as projeções relativas à demanda no Oriente Médio revelarem-se incorretas, ou se a demanda chinesa cair - algo que, segundo certos analistas, acontecerá depois que o país deixar de estocar combustível em preparação para as Olimpíadas - , será preciso sempre levar em consideração o lado da oferta. A AIE já advertiu que provavelmente reduzirá os números da sua previsão de crescimento da demanda fora do cartel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
Antigos campos de petróleo, como o de Cantarell, no México, estão secando mais rapidamente do que se pensava, e a Rússia, o segundo maior produtor de petróleo do mundo, procura investimentos, e a sua produção encontra-se estagnada enquanto o Kremlin consolida o seu poder sobre a indústria de energia. Enquanto isso, a Arábia Saudita demonstra a sua disposição implacável de segurar os seus barris de petróleo quando a oferta mundial diminui, independentemente do preço do produto.

Até mesmo George Soros observou no seu depoimento na semana passada: "Na verdade, um colapso no mercado petrolífero não é iminente. O perigo atual vem de outra direção. O aumento dos preços do petróleo agrava a perspectiva de uma recessão. Somente quando uma recessão estiver bem consolidada será provável que um declínio do consumo no mundo desenvolvido anule outros fatores". UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos