Disputa com agricultores traz Néstor Kirchner para o primeiro plano

Jude Webber

Ninguém esperava que Néstor Kirchner desaparecesse da política argentina depois que sua mulher o sucedeu na presidência. Mas seu súbito reaparecimento na ribalta em meio a um intenso conflito rural de 13 semanas, que se transformou em uma crise de governo, lembrou a muitos argentinos o slogan para as eleições de 1973.

Na época, Juan Perón, o homem que dominou a política argentina no século 20, ainda estava no exílio na Espanha e proibido de disputar a presidência, por isso um seguidor leal, Hector Cámpora, foi levado para disputar a presidência em seu lugar.

O slogan eleitoral não poderia ser mais claro: "Cámpora no governo. Perón no poder".

"Não há dúvida de que a figura dominante na política argentina é Néstor Kirchner", diz Ricardo Rouvier, um pesquisador que trabalha para o governo.

Cristina Kirchner assumiu a presidência em dezembro passado com as mesmas políticas e virtualmente o mesmo gabinete que seu marido, prometendo preservar seu legado de quatro anos de 8% ou mais de crescimento anual depois do colapso da economia argentina em 2001-02.

Uma poderosa senadora e uma das assessoras mais próximas de seu marido antes de assumir o cargo, Cristina tem uma personalidade forte mas lutou para conquistar a autoridade inquestionável que seu marido cultivou.

Enquanto ele goza de sua reputação como o homem que salvou a Argentina, a popularidade de Cristina despencou no prolongado conflito com os agricultores.

Sua recusa a voltar atrás no regime de tarifas de exportação que ela introduziu em março, detonando o conflito, foi típica dos Kirchner. Mas ela parecia indecisa desde então, enquanto hesitava entre criticar asperamente os fazendeiros e a mídia, pedir conciliação e apenas ignorar o tema em discursos e comícios para os fiéis do partido.

Entra Néstor Kirchner. Recém-coroado chefe do partido peronista -foi o único candidato-, ele surgiu no centro da cena nos últimos dias, pedindo que a liderança de seu partido emitisse uma firme condenação dos fazendeiros como possíveis líderes de um golpe, e conclamando senadores e ativistas a apresentar uma frente unida depois das críticas feitas ao governo de dentro de suas próprias fileiras.

Políticos da oposição detectaram sua influência quando negociações agendadas com líderes rurais no dia seguinte ao Dia da Independência foram canceladas. "Hoje o Kirchner encarregado da política relativa aos agricultores se chama Néstor, e não Cristina", disse o analista político Carlos Germano.

No entanto, no mundo obscuro da política argentina há alguns claros indícios de onde está a autoridade. Damián Barijhoff, editor da "Ka", uma vistosa revista oficial e líder de uma facção peronista que conhece o casal presidencial há anos, disse que a presidente é quem manda. "Houve muitas vezes em que ela disse não para Néstor; algumas vezes ela passou três dias sem falar com ele", ele contou.

Fernando Braga Menéndez, um publicitário que dirigiu campanhas do governo, disse que uma maneira de resolver a confusão sobre quem realmente governa seria que Fernández nomeasse seu marido chefe de gabinete, deixando-a em um papel de chefe de Estado. "Ele é mais popular que ela, e esclareceria a confusão", ele disse.

O antigo sonho dos Kirchner de mais uma transmissão de poder entre cônjuges em 2011 também poderá ser difícil. Primeiro eles terão de sanar as rixas no partido peronista e reconquistar os eleitores da classe trabalhadora, que, segundo pesquisadores locais, estão desertando para o lado dos agricultores.

As eleições em meio de mandato no próximo ano serão o maior teste, e a vitória não está de modo algum segura.

Novo índice de inflação
A Argentina se preparava ontem para revelar um polêmico índice de inflação que o governo disse que vai corrigir as atuais distorções e mostrar que os preços ao consumidor estão crescendo mais lentamente do que se pensava anteriormente.

Os números da inflação perderam a credibilidade nos últimos 18 meses, depois que o governo trocou uma série de autoridades chaves e começou a publicar números abaixo das expectativas do mercado. Ele é amplamente acusado de manipular os dados depois de fracassar em suas tentativas de administrar a inflação por meio do controle de preços. O governo nega essas alegações.

O novo índice deverá reduzir pela metade o número de preços pesquisados. Os economistas esperam que a inflação de maio, pelo novo índice, seja de 0,5% a 0,6%, mas dizem que essa ainda é aproximadamente a metade da taxa real. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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