Banco Central do Brasil defende o controle global da inflação

Jonathan Wheatley
Em São Paulo

A inflação é a maior ameaça enfrentada pelo Brasil e pelo restante do mundo, disse Henrique Meirelles, presidente do Banco Central do Brasil ao Financial Times, fazendo um apelo aos outros presidentes de bancos centrais para que se unam na tarefa de manter as altas de preços sob controle.

"A maior preocupação para os próximos 12 meses no Brasil e no resto do mundo é a inflação," afirmou em uma entrevista em São Paulo. "O risco é que os preços de alimentos e de matérias-primas continuem a subir. Se cada dirigente de banco central decidir que esse é um problema para outros países, ninguém fará nada e haverá uma inflação (mais acelerada) em todo mundo".

O Federal Reserve dos EUA e outros bancos centrais reduziram suas taxas de juros nos últimos nove meses para se precaver da ameaça de recessão. Mas Meirelles disse estar confiante de que os banqueiros centrais voltariam agora sua atenção para a ameaça maior de inflação.

"É importante que no momento estejamos vendo autoridades em geral assumindo uma atitude diferente, que é bem-vinda" ele afirmou. "A inflação é realmente o maior desafio agora."

O Banco Central do Brasil começou a elevar sua meta para a taxa de juros do overnight em abril, depois de dois anos de flexibilização monetária. A taxa, conhecida como Selic, caiu de 19,75% ao ano em setembro de 2005 para 11,25% em setembro de 2007. Desde então o banco a elevou duas vezes em meio ponto percentual cada vez, em abril e maio, para 12,25%.

A maior parte dos economistas espera que a taxa alcance os 14,25% até o fim do ano.

Muitos ficaram surpresos de que o banco tenha começado a elevar as taxas em 0,5 ponto em vez dos costumeiros ajustes de 0,25 ponto. O banco disse em abril que seu objetivo era encurtar o ciclo de aperto. Meirelles disse que não poderia adiantar o quanto esse ciclo iria durar, embora tenha afirmado que diante das recentes altas de preços, poucos economistas pensavam que o banco tinha sido demasiadamente agressivo.

O banco central usa as taxas de juros para acompanhar as metas do governo para conter a inflação nos preços ao consumidor, atualmente em 4,5% no ano. A taxa chegou a 5,8% nos 12 últimos meses. Muitos economistas acreditam que ela alcance os 6,5% até o final do ano.

Mais preocupante, a inflação nos preços do atacado deve chegar a cerca de 10% até o final de 2008.

"Precisamos tomar cuidado com o equilíbrio entre oferta e demanda para garantir que os aumentos nos preços de atacado não sejam repassados para os preços do varejo", disse Meirelles, acrescentando que já existem evidências de mais inflação se difundindo nos preços de varejo nas últimas semanas.

Indagado se o governo poderia fazer mais para combater a inflação, ao controlar o gasto público, Meirelles disse que "partia do princípio" de que o governo estava consciente da necessidade de uma maior contenção nos gastos.

"Existem importantes pressões por aumento de salário entre servidores públicos e evidentemente estamos preocupados a respeito disso, pois essas são despesas permanentes", respondeu. Claudia Dall'Antonia

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