Empresas estão de olho nas férteis terras da Ucrânia

Roman Olearchyk e Stefan Wagstyl

"Veja a cor, que bela safra", diz Richard Spinks, apontando para os campos de trigo e colza que sua empresa semeou esta estação no oeste da Ucrânia.

"Se todas as fazendas da Ucrânia conseguissem o rendimento que estamos tendo, este país poderia ter uma grande importância para alimentar o mundo e estabelecer a si própria como uma potência geopolítica", diz o britânico, principal executivo da Landkom, que tem ações negociadas em Londres.

Por Roman Olearchyk

A Ucrânia não é a única antiga república soviética que provavelmente deixará sua marca nos mercados mundiais de agricultura e alimentos nos próximos anos.

Safras na Rússia e no Cazaquistão, ambos países com vasto território e entre os mais importantes produtores mundiais de grãos, devem melhorar acentuadamente seus níveis de colheita e produção de alimentos nos próximos anos.

Embora a Ucrânia desfrute de um solo mais rico e melhor logística devido à sua proximidade de mercados importantes tais como a Europa e o Oriente Médio, a Rússia e o Cazaquistão cultivam territórios muito maiores. Já se percebe a competição entre os grupos agrícolas nesses países.

Um relatório divulgado este mês pelo banco de investimentos de Moscou Troika Dialog, refere-se aos mercados agrícolas na antiga URSS como a "nova fronteira". O Troika disse que é imensamente favorável a perspectiva para colheitas e produção de alimentos nessa região, que "possui 13% da terra arável do mundo, e, no entanto, produz apenas 6 % de suas safras e apenas 3% da carne bovina do mundo".

"Em contraste com a revolução verde que se espalhou pelo mundo, os rendimentos agrícolas estão estagnados desde a década de 1970, e os empreendedores com novas idéias e tecnologia têm uma grande oportunidade de aumentar extraordinariamente a produção."

Dimitri Rylko, diretor da consultoria IKAR, com sede em Moscou, diz que as perspectivas de crescimento são bastante fortes em todos os três ex-países soviéticos, acrescentando que a Rússia, esperando uma colheita de mais de 85 milhões de toneladas para este ano, poderia aumentar seus rendimentos em pelo menos um terço no médio prazo.
Rússia e Cazaquistão plantam as sementes do sucesso
Antes consideradas grandes centros produtores de grãos da Europa, as propriedades agrícolas da Ucrânia ainda estão se recuperando do colapso econômico que se seguiu ao desmembramento da União Soviética. Apesar do clima favorável e de alguns dos solos mais férteis do planeta, a produção de grãos caiu para a metade depois que o sistema de fazendas coletivas da era de Stalin foi suspenso e os campos de trigo voltados para a pastagem.

O modelo de negócios da Landkom é simples: arrenda terras cultivadas com pouca eficiência e aplica fertilizantes ocidentais e irrigação. Com o rendimento de grãos na Ucrânia em cerca de 35% em relação ao Oeste da Europa, existe bastante oportunidade para melhorar os retornos.

A Landkom, que captou pouco mais de US$ 100 milhões na Aim, o mercado de ações "junior" de Londres, no ano passado, arrendou mais de 100.000 hectares. E ela é apenas uma entre um número cada vez maior de empresas do setor de agribusiness que vê lucros na Ucrânia.

As mais importantes tradings de colza e grãos, tais como a Cargill e a Toepfer, entraram cautelosamente no mercado na década de 1990 e hoje em dia têm um grande papel na exportação de grãos.

Com os preços de alimentos subindo aos céus devido à crescente demanda global e por causa de más colheitas, o seu "timing" parece perfeito.

"A Ucrânia não é parte do problema; é parte da solução para a oferta de alimentos", disse em Kiev no mês passado Jean Lemierre, diretor do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, que está encerrando seu período no banco.

Com investimentos e a tecnologia correta, a Ucrânia pode "duplicar ou mesmo triplicar" a produção, atendendo a um sete avos da produção mundial, diz Yuriy Melnyk, ministro da Agricultura.

Até agora, menos de US$ 3 bilhões foram investidos na agricultura ucraniana desde 1991, segundo números do governo. Os produtores domésticos estão começando a captar fundos nos mercados internacionais de ações. O Renaissance Capital, um banco de investimentos, diz que US$ 628 milhões em novas participações acionárias foram captados desde agosto de 2006.

Yury Kosyuk, principal executivo da MHP, um importante grupo ucraniano do setor avícola e de agricultura, diz que US$ 27 bilhões poderão ser investidos na agricultura do país durante os próximos 15 anos e não só em grãos. "A Ucrânia poderá dentro de alguns anos tornar-se um importante exportador de carne, principalmente para a Europa."

Isso poderá acontecer, dependendo do ritmo das reformas no problemático parlamento ucraniano. É ilegal vender terras agricultáveis, a maior parte da qual pertence a milhões de produtores rurais com dificuldades financeiras.

Um lobby pelas reformas, cada vez mais vociferante, está pressionando fortemente pela suspensão das restrições no próximo ano. "As companhias estão competindo acirradamente por essas terras hoje e vemos cada vez mais participantes. Se a moratória for suspensa haverá uma grande corrida pela terra na Ucrânia", afirmou Yarmak.

Mas os políticos dizem que os proprietários pobres, de áreas com menos de 50 acres precisam ser protegidos da exploração da parte de empresários inescrupulosos que poderiam comprar a terra por uma fração de seu valor real.

Andriy Yarmak, especialista em agricultura, diz que o verdadeiro "boom" acontecerá quando os legisladores sancionarem a venda da terra agricultável. Com a garantia do direito à propriedade, o investimento e a produtividade terão uma grande alta.

O protecionismo também tem sido uma preocupação. Kiev limitou as exportações de grãos nos últimos anos, para manter baixos os preços no mercado interno. Como resultado, produtores agrícolas voltaram-se para safras mais fáceis de serem exportadas, tais como colza, usada na produção de biocombustível. Mas com a entrada da Ucrânia na Organização Mundial do Comércio este ano, as restrições deverão ser suspensas.

Uma das coisas que atrai os investidores estrangeiros à Ucrânia é a facilidade com que as colheitas podem ser exportadas para a União Européia, seja por ferrovia ou pelos portos do Mar Negro.

Os investidores têm arrendado terras na esperança de que poderão estar na frente da fila para comprá-las ou vendê-las com lucro. Os preços anuais de arrendamentos duplicaram para US$ 60 a US$ 80 por hectare no ano passado. O Renaissance Capital, que arrendou 300.000 hectares de terras com a intenção de revender os arrendamentos, prevê que esse número vai dobrar de novo este ano.

Enquanto isso, o clima favorável e o aumento nos investimentos devem resultar em 40 milhões de toneladas de grãos essa safra, mais que a colheita de 29 milhões de toneladas do ano passado, afetada pela seca. Cerca de 14 milhões de toneladas de grãos foram reservados para exportação, acima dos meros 2,4 milhões de toneladas do ano passado. Claudia Dall'Antonia

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