Bollywood busca inspiração em Spielberg para "criar nova mágica"

Matthew Garrahan e Joe Leahy

No filme "The Love Guru" ("O Guru do Amor", EUA, 2008), uma comédia de Myke Myers que estréia neste fim de semana nos cinemas norte-americanos, um místico indiano vai aos Estados Unidos para ajudar os infelizes cidadãos daquele país. O filme, que se baseia fortemente em estereótipos da Índia e do seu povo, é descrito pelo jornal de Hollywood "Variety" como sendo "incansavelmente juvenil".

Os personagens indianos freqüentemente são figuras engraçadas nos filmes norte-americanos. Mas devido a um acordo inédito em andamento que fará com que um grupo indiano de mídia financie uma nova companhia cinematográfica com Steven Spielberg, Hollywood poderá ter que demonstrar mais respeito para com a Índia.

Spielberg e David Geffen, o seu parceiro empresarial, estão em meio a conversações para a criação de uma sociedade cinematográfica com a Reliance Big Entertainment, um conglomerado de mídia liderado por Anil Ambani, um empresário bilionário. Spielberg e Geffen são os fundadores que restaram da DreamWorks, que faz parte da Viacom. Mas eles estão inclinados a retirar a sua empresa do grupo norte-americano de mídia.

Caso as negociações com Ambani tenham sucesso, a Reliance financiará inicialmente a DreamWorks com cerca de US$ 500 milhões, sinalizando a chegada da Índia como uma força séria e de credibilidade em Hollywood.

As negociações ocorrem um mês depois que a Reliance assinou uma série de acordos de produção ousados no festival de cinema de Cannes com astros de Hollywood, incluindo George Clooney e Brad Pitt. Rajesh Sawhney, presidente da Reliance Big, sugeriu nesta semana que a companhia indiana poderia revigorar a indústria de entretenimento. "Acreditamos que o sistema de estúdios está desmoronando", afirmou ele. "A indústria passou a ficar presa a fórmulas velhas, e a sua capacidade de correr riscos diminui".

Ao se mobilizar para se firmar na elite de Hollywood, Ambani - o sexto homem mais rico do mundo, com uma fortuna de US$ 42 bilhões, segundo a "Forbes" - faria bem em analisar as experiências de outros investidores internacionais que vieram a Tinseltown com grandes ambições e muito dinheiro para gastar.

A história de Hollywood é cheia de casos de indivíduos e companhias que acreditavam que poderiam sacudir a indústria e reformá-la com novos investimentos e práticas empresariais. Mas todos acabaram encontrando dificuldades. Conforme diz um executivo da mídia: "Hollywood tem uma longa e característica tradição de devorar estrangeiros e cuspi-los".

A primeira grande onda de investimentos internacionais ocorreu na década de 1980, quando companhias japonesas, nadando em dinheiro, bateram à porta de Hollywood. A Sony, ansiosa para evitar uma repetição do seu fracasso com o sistema de vídeo Betamax, decidiu comprar um estúdio em Hollywood para fornecer o conteúdo necessário para estimular as vendas dos seus produtos eletrônicos. Em 1989 ela adquiriu a Columbia Pictures e a sua companhia irmã, a Tri-Star Pictures, por US$ 3,4 bilhões. O nome do estúdio foi mudado para Sony Pictures Entertainment e Jon Peters e Peter Guber, produtores que acabavam de estrear com dois grandes sucessos daquela década - "Batman" e "Rainman" -, foram contratados para dirigi-lo.

Guber e Peters tornaram-se conhecidos pelos seus gastos generosos e criaram novos padrões na indústria por pagarem o talento demonstrado nas telas. Mas eles também presidiram uma série de fracassos. Com os custos em disparada e o estúdio mostrando um desempenho aquém do esperado, cinco anos depois a Sony registrou um prejuízo de mais de US$ 3 bilhões vinculado à aquisição.

A Matsushita veio a seguir, comprando a MCA Universal, de Lew Wasserman - mais tarde rebatizada de Universal Studios - em um outro negócio caracterizado por vários problemas. Como a Sony, a Matsushita queria usar o conteúdo e a infra-estrutura do parque temático do estúdio para impulsionar as vendas dos seus produtos eletrônicos, que são distribuídos através de marcas como a Panasonic. Quando a economia japonesa passou a sofrer um desaquecimento, a Matsushita reduziu o seu investimento na produção de filmes e acabou vendendo a companhia cinco anos depois.

Jean-Marie Messier, o elegante ex-diretor-executivo da Vivendi, uma companhia francesa, também investiu em Hollywood, comprando a Seagram (que tinha adquirido a Universal da Matsushita) como parte da sua transformação da Vivendi em um conglomerado de mídia. Mas o seu sonho terminou em fracasso quando ele foi retirado da diretoria da empresa e o negócio que articulou foi desfeito.

Ambani pode achar que teve mais sorte do que os compradores internacionais que o antecederam. Para início de conversa, ele associou-se a Spielberg, que, sob o ponto de vista comercial, é o maior criador de filmes que Hollywood já conheceu. A companhia de Ambani também conhece por dentro o setor cinematográfico da Índia, e pretende utilizar o vínculo com o diretor premiado para acelerar o desenvolvimento da próspera indústria cinematográfica indiana, bem como a produção de filmes para os Estados Unidos e outros mercados.

Os estúdios de Hollywood estão cada vez mais de olho no mercado indiano: o boom econômico de cinco anos naquele país foi acompanhado da construção de cinemas multiplex e de uma platéia urbana mais sofisticada, disposta a pagar um preço maior pelos ingressos. No ano passado, os lucros da indústria cinematográfica da Índia atingiram um valor estimado de US$ 2,2 bilhões, o que representa um aumento de 14% em relação ao ano anterior, segundo a PwC, que prevê que o setor quase que dobrará de tamanho até 2012. Este fato, bem como o crescimento da indústria de televisão paga, chamou a atenção de Hollywood.

A Walt Disney foi um dos primeiros estúdios a entrar no país, e há dois anos a empresa adquiriu uma grande parcela acionária da UTV Software Communications, dirigida por Ronnie Screwvala, um empresário indiano do setor de mídia. A esse negócio seguiram-se vários outros. A Disney fechou um acordo com Yash Raj, um dos mais respeitados cineastas da Índia, enquanto a Viacom, dona da Paramount Pictures, associou-se a Raghav Bahl, um outro empresário indiano do setor de mídia.

A Sony e a Lionsgate Entertainment, o estúdio independente dos Estados Unidos, assinaram acordos com a Eros International, a maior companhia cinematográfica da Índia, que detém mais de 40% do mercado. Na próxima semana a companhia indiana deverá revelar os seus resultados anuais, com o lucro bruto e líquido.

A Sony, que também detém ações de um dos canais indianos de TV a cabo, fez a sua própria estréia na indústria cinematográfica indiana no ano passado, ao lançar o primeiro filme de Hollywood feito para Bollywood - "Saawariya", uma ousada iniciativa no gênero indiano de música e dança.

A Índia e outros mercados cinematográficos em crescimento, como a Rússia, contêm atrativos óbvios para Hollywood. As receitas da indústria cinematográfica norte-americana estão estagnadas e os estúdios descobriram que as melhores oportunidades de crescimento encontram-se em outros locais. "Quem conseguir alcançar a base desses mercados, acabará contando com um maior mercado consumidor do que os Estados Unidos", afirma Michael Cerenzie, um produtor que arrecadou dinheiro de investidores na Índia e no Japão para fazer filmes. "O desaquecimento dos mercados de créditos significa também que os estúdios de Hollywood estão ansiosos para encontrar novas fontes de financiamento. Eles têm buscado mais agressivamente investimentos estrangeiros".

Com a investida de Hollywood sobre Bollywood em andamento, as companhias indianas passaram a mirar as oportunidades nos Estados Unidos. A UTV, de Screwvala, fechou contratos de co-produção com a empresa Fox Searchlight e com a Overbrook Entertainment, de Will Smith. No ano passado Screwvala lançou "The Namesake" ("Nome de Família", EUA, 2006), um dos primeiros filmes de Hollywood co-produzidos por um grande grupo de comunicação da Índia, e neste ano lançará "The Happening" ("Fim dos Tempos", EUA, 2007), um filme de suspense estreando Mark Wahlberg.

Mas o vínculo proposto entre a DreamWorks e a Reliance eclipsaria qualquer outra atividade cinematográfica indiana anterior. Ao aliar-se em âmbito global com a DreamWorks, a Reliance obteria acesso a um mercado bem mais vasto do que o saturado campo doméstico e seria capaz de trazer de volta para casa aquilo que aprendesse ao trabalhar na indústria de cinema mais sofisticada do mundo. "Hollywood tem uma certa habilidade que poderia ser aglutinada às sensibilidades indianas para a criação de um conteúdo para as platéias da Índia", diz Sawhney, da Reliance. "Em conjunto, a Índia e Hollywood podem criar uma nova mágica".

Apesar dos fracassos anteriores das investidas internacionais em Hollywood, há muita esperança de que a combinação Reliance-DreamWorks seja um sucesso. Um executivo de um estúdio chama o acordo de um "modificador do jogo" para a indústria. Afinal, quando bem administrado, o setor de entretenimento pode ser um investimento altamente lucrativo, com a TV paga, as vendas de DVDs e a Internet permitindo aos estúdios explorar por meio de vários canais diferentes o conteúdo que criaram. Embora os primeiros anos da sua aventura em Hollywood tenham sido difíceis, a Sony persistiu, e nos últimos 15 anos tornou-se um dos estúdios de mais sucesso do setor, responsável por sucessos globais como o franchise "Spider-Man" e "Casino Royale".

"O setor de entretenimento constitui-se sempre em uma oportunidade atraente para os investidores internacionais", afirma Chris McGurk, diretor-executivo da Overture Films, que lançará "Righteous Kill", um filme estrelando Robert de Niro e Al Pacino, no terceiro trimestre deste ano. "Há um atrativo especial para se investir em companhias ou indivíduos que são sucessos comprovados. E ninguém tem uma história de sucesso maior do que a de Steven Spielberg". UOL

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