Martin Wolf: como administrar a economia mundial em meio a duas crises

Martin Wolf
Colunista do Financial Times

Duas tempestades estão causando turbulência na economia mundial: uma tempestade inflacionária de preço das commodities e uma financeira deflacionária. Na semana passada, eu argumentei que os regimes de taxa de câmbio eram um elo entre estes eventos distintos. Nesta semana, vamos analisar como navegar nestes mares tempestuosos.

O lugar por onde começar é na economia mundial como uma unidade. Quanto mais globalizadas as economias se tornam, mais apropriado é pensar na economia mundial desta forma. Então, o que aprendemos com a economia mundial como um todo? A resposta é que ela está se deparando com limites de recursos, pelo menos a curto prazo.

Nossa civilização é baseada em combustíveis fósseis. Mas desde o final de 2001, o preço real do petróleo aumentou seis vezes. Hoje, o preço real é o mais alto desde o início do século anterior. Como o Banco Mundial nota em seu relatório de Financiamento do Desenvolvimento Global de 2008, a oferta global de petróleo estagnou em 2007. Isto, argumenta o relatório, "contribuiu para uma grande redução dos estoques na segunda metade de 2007 e a preços acentuadamente mais altos"*. Estes aumentos podem ser temporários, como aconteceu após os picos dos anos 70, ou permanentes. Nós ainda não sabemos.

Saltos nos preços de energia têm pelo menos três efeitos na economia.

Primeiro, eles aumentam a inflação cheia. Nas economias emergentes, acima de tudo, surpresas inflacionárias ruins se tornaram a norma.

Segundo, eles reduzem a oferta potencial, ao reduzir os lucros em atividades que consomem energia, forçando empresas a descartar capacidade intensiva em energia e tornando necessário o investimento em nova capacidade mais eficiente em energia.

Em seu mais recente Panorama Econômico, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) discute as conseqüências desse choque negativo da oferta sobre os países membros**. Ele apresenta dois pontos principais: primeiro, aumentou a incerteza em relação aos níveis atuais e o futuro crescimento da produção potencial; e, segundo, os efeitos adversos disto podem ser consideráveis.

A OCDE estima que o recente aumento no preço relativo do petróleo reduziu o steady-state (estado de equilíbrio) da produção em 4% nos Estados Unidos e 2% na zona do euro, assim como reduziu o crescimento potencial, a médio prazo, em 0,2 ponto percentual e 0,1 ponto percentual, respectivamente. Isto não é trivial: no caso dos Estados Unidos, o declínio no crescimento da produção potencial deve ser de pelo menos 10% do crescimento potencial per capita. Nas economias emergentes mais avançadas -e particularmente em uma economia industrializada que cresce rapidamente como a da China- a redução da taxa de crescimento potencial pode ser ainda maior.

Terceiro, saltos nos preços da energia alteram o nível e distribuição da demanda global. O aumento do preço, de próximo de US$ 53 o barril no início de 2007 para os atuais US$ 136, aumenta o custo anual para os consumidores em cerca de US$ 2,6 trilhão, que representa uma taxação de cerca de 4,5% sobre a produção global que não a de petróleo. Cerca de dois terços desta transferência é de países importadores de petróleo para países exportadores de petróleo. Também é daqueles que gastam para aqueles inclinados a economizar, pelo menos a curto prazo.

Esta mudança por si só coibirá o aumento da demanda global. Assim como as crises financeiras nos Estados Unidos e em outros países ricos e o colapso estreitamente relacionado de várias bolhas imobiliárias imensas. Nos países ricos, a previsão de crescimento pela OCDE é de que desacelerará para um pouco abaixo da tendência neste ano e no próximo. Como alguém esperaria, o maior declínio ocorre nos Estados Unidos, com um crescimento do produto interno bruto de 1,2% neste ano, quase todo ele proporcionado, segundo as expectativas, pelo aumento das exportações. De locomotiva do crescimento, os Estados Unidos se tornaram dependentes do crescimento em outros lugares.

Mas este declínio na taxa de crescimento nos países ricos esfriará o suficiente uma economia mundial superaquecida? Talvez não. A OCDE espera um declínio no crescimento fora da OCDE, mas para níveis ainda acima do potencial (difícil de medir). O relatório de Financiamento do Desenvolvimento Global do Banco Mundial não espera um declínio acentuado no crescimento dos países em desenvolvimento, que ainda permanecerá alto, de 7,8%, em 2007, para 6,5% neste ano e 6,4% em 2009. A previsão de crescimento da China é de uma desaceleração de 11,9%, em 2007, para 9,4% neste ano, enquanto a da Índia cairá de 8,7% para 7,0%.

Mas como argumentei na semana passada, a política monetária global está provavelmente frouxa demais, apesar do impacto adverso da crise de crédito nos países ricos. Em muitos países emergentes a produção está crescendo rapidamente, com a inflação subindo fortemente. Se, ao que parece, a economia mundial não puder crescer tão rápido quanto as pessoas esperavam há um ano ou dois, as economias emergentes vão precisar participar do ajuste. Isto se tornará ainda mais evidente quando, finalmente, os países ricos se recuperarem plenamente.

Diante deste cenário difícil, quais são as respostas certas e como devem ser distribuídas por todo o globo? Elas precisam ser divididas em curto prazo e longo prazo.

A curto prazo, a maior exigência de política monetária é um arrocho nas economias emergentes, muitas das quais atualmente contam com taxas de juros reais fortemente negativas. Uma pré-condição para esse arrocho é um relaxamento da taxa de câmbio. O arrocho monetário é menos necessário nos países ricos, apesar do Federal Reserve, o banco central americano, poder ter reduzido demais os juros.

Igualmente importante é permitir que os aumentos nos preços da energia sejam repassados, forçando assim os ajustes necessários no uso da energia. Os beneficiários dos subsídios oferecidos por muitos países emergentes estão em grande parte nos grupos de maior renda. Na Índia, o custo dos subsídios aos combustíveis atualmente é quase tão grande quanto o gasto público em educação: isto é escandaloso. Não menos importante é o abandono da idéia tola de que os aumentos de preços no petróleo e alimentos são resultado de "especulação" perversa -uma fantasia promovida por populistas perigosos ao redor do mundo.

Finalmente, é essencial que os países ricos amorteçam estes choques para as pessoas e países mais pobres. A meta deve ser reduzir a dor e financiar o ajuste necessário, mas não impedi-lo.

A médio e longo prazo, a maior prioridade é eliminar os obstáculos de energia ao crescimento. Isto significa um maior investimento público e privado em pesquisa de energia, particularmente as renováveis. O desafio é imenso, mas deve ser feito.

Os choques são grandes. Mas o mais significativo é o alto preço da energia. A crise financeira foi uma estupidez evitável. Os aumentos dos preços da energia são uma realidade amarga. O mundo precisa se ajustar a esta nova ameaça desagradável. De forma ideal, os países deveriam agir juntos. Mas independente disso ocorrer ou não, eles precisam agir. Caso contrário, um risco maior -até mesmo uma dose ruim de estagflação- aguarda à frente.

*www.worldbank.org
**www.oecd.org
George El Khouri Andolfato

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