Shopping para mulheres da Arábia Saudita levanta o véu nos negócios

Andrew England

Separações de vidro escurecido escondem as entradas para o centro Bab Rizq Jameel em Riad, como se protegesse um precioso segredo em seu interior. Diferente da maioria dos novos shoppings que surgem no Golfo, ele não tem janelas.

Dentro, entretanto, o shopping center de dois andares é todo esplendor: um centro de lojas chiques oferecendo perfumes, cosméticos, roupas, artesanato e -acima de tudo- um santuário onde as empresárias sauditas podem negociar abertamente com outras mulheres.

No andar superior, Amani Hammad tem um escritório onde dirige uma filial da agência de publicidade de seu irmão, enquanto Samira Rasheed tem uma loja que vende roupas, acessórios e perfumes.

No total, há cerca de 60 empresárias trabalhando no centro, que foi inaugurado no mês passado.

As mulheres no reino ultraconservador são altamente segregadas, tanto socialmente quanto no local de trabalho. Elas são proibidas de dirigir e, fora um número minúsculo de exceções, são impedidas de trabalhar no mesmo ambiente que os homens. Tradicionalmente, muitas mulheres não procuram empregos, se casando cedo e dedicando suas vidas à criação de suas famílias. O desemprego feminino no reino rico em petróleo é estimado em mais de 20%.

Mas lentamente as posturas estão começando a mudar. Uma empresa saudita de propriedade familiar -a Abdul Latif Jameel (ALJ)- criou um esquema sem fins lucrativos em 2003, sob seu programa corporativo de responsabilidade social, que tem ajudado milhares de mulheres a encontrar emprego e abrir seus próprios negócios.

O programa oferece empréstimos tanto para homens quanto para mulheres, assim como treinamento profissional e coordenação entre aqueles que procuram emprego e os empregadores que desejam contratar, usando consultores para pesquisar que empresas estão à procura e onde estão as oportunidades.

Desde 2007, ela também abriu três shopping centers só para mulheres -o de Riad foi inaugurado no mês passado, se juntando aos outros em Jidda e Dammam- sob a bandeira Bab Rizq Jameel.

As mulheres não podem trabalhar nos shoppings normais, mas nos centros Bab Rizq elas podem alugar espaço para suas próprias empresas; elas podem trabalhar; e aquelas em busca de emprego podem visitar para discutir suas opções com funcionárias da ALJ.

"O objetivo é o empoderamento da mulher", disse Saad al Ghamdi, vice-presidente sênior da ALJ. "Nós precisamos mostrar para as pessoas que não há nada errado em trabalhar, que o trabalho é algo que deve ser digno de honra."

A ALJ, cujos principais interesses de negócios incluem a indústria automotiva, imóveis e eletrônicos, doa 100 mil riais (US$ 26,7 milhões) a cada ano para o programa de serviços comunitários.

A organização usa os fundos para pagar consultores e fornecer empréstimos sem juros, que variam de 5 mil riais a 150 mil riais, para homens e mulheres interessados em abrir seus próprios negócios, assim como "microempréstimos", que variam de 1.000 riais a 5 mil riais, especificamente para mulheres.

Cerca de 50 mil pessoas se beneficiaram com os empréstimos, das quais mais de 65% eram mulheres.

Rasheed, uma mãe de cinco, disse que se beneficiou tanto com a iniciativa da ALJ quanto -igualmente importante- pela evolução das posturas.

Ela abriu seu negócio há cerca de 10 anos, trabalhando em casa e desenhando moda e acessórios femininos. Ela sonhava em abrir uma loja mas, como outras mulheres sem emprego, sabia que não conseguiria um empréstimo.

Há dezoito meses, após descobrir o programa da ALJ, ela tomou um empréstimo de 25 mil riais e mudou seu negócio para o shopping center apenas para mulheres. Quando a organização abriu seu shopping em Riad, ela se mudou para lá.

"Sem o empréstimo, eu seria pequena e limitada apenas à minha casa", ela disse. "O primeiro motivo é o apoio financeiro; o segundo motivo é termos nos tornado mais desenvolvidos. Está mudando dia a dia; você pode se comunicar com as pessoas; há mais jornais, há mais informação."

No ano passado, por meio dos empréstimos e seu programa de empregos, o esquema ajudou 22 mil pessoas a encontrarem alguma forma de emprego, disse o grupo, incluindo 14 mil mulheres.

O plano de desenvolvimento do grupo é abrir 20 novos centros Bab Rizq Jameel por todo o país nos próximos três anos, com a meta de criar 200 empregos por mês em cada local, disse Ibrahim Badawood, diretor do programa de serviços comunitários da ALJ.

Ela também gostaria de abrir filiais em outros países onde a ALJ tem presença, como Egito, Argélia e Turquia.

No momento, o programa está atendendo apenas entre 15% e 20% da demanda na Arábia Saudita, disseram representantes.

"Somos apenas uma gota no oceano", disse Ghamdi. George El Khouri Andolfato

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