Mercado de artes vive boom global

Debora Brewster

Quando Roman Abramovich, o milionário russo do setor de mineração e metais, e o xeque Saud al-Thani, da família real do Qatar, apareceram neste mês na feira de artes da Basiléia, a presença deles causou algum alvoroço, mas não foi nenhuma surpresa. O mercado de commodities e o de artes criaram entre si vínculos que eram considerados improváveis.

A enorme riqueza derivada do petróleo e da mineração do Oriente Médio e da Rússia está fluindo para as belas artes, e há uma corrida de novos compradores para este mercado que já vivia uma fase de prosperidade.
Abramovich comprou dois dos três quadros mais caros vendidos no grande leilão de maio na Sotheby's, em Nova York, de acordo com o jornal "The Art Newspaper" - tendo pago US$ 86 milhões pela obra "Triptych, 1976", de Francis Bacon, e US$ 34 milhões por "Benefits Supervisor Sleeping", de Lucian Freud.

Os qatarianos estão construindo um museu de artes, e o xeque tornou-se um dos maiores colecionadores do mundo. A Sotheby's calcula que os compradores russos responderam por 15% de todas as suas vendas de arte impressionista e moderna no leilão de fevereiro, contra 9% no ano passado, e uma quantidade ínfima em 2006. A própria arte russa passa por um boom, graças à demanda da Rússia.

Andy Rain/EFE - 25.mai.2008 
Funcionários da Christie's carregam o quadro "Le bassin aux nympheas", de Claude Monet

A chegada de colecionadores da Rússia, do Oriente Médio e de economias emergentes constitui-se em mais uma evidência para aqueles que acreditam que o grande aumento dos preços das obras de arte é um fenômeno estrutural, e não cíclico - refletindo uma mudança de longo prazo rumo a um verdadeiro mercado global apoiado por uma quantidade crescente de milionários e bilionários.

No ano passado, o mercado de artes - conforme a avaliação dos preços pagos pelas obras dos cem artistas mais cotados vendidas em leilões - superou, em valores nominais, o ápice anterior registrado em 1990, segundo dados da publicação "Art Market Report". Após uma década de estagnação, o mercado recuperou-se sensivelmente em 2003 e 2004, e desde então permanece em alta. A ascensão do mercado contemporâneo tem sido especialmente robusta, com um aumento de preços de até 300% nos últimos três anos, de acordo com o catálogo "Contemporary Art 100", da "Art Market Report".

Na última terça-feira a Christie's vendeu um total de 144 milhões libras esterlinas (cerca de US$ 288,3 milhões) em obras de arte impressionistas e modernas no seu leilão em Londres, a maior quantia já registrada em um leilão europeu de artes. O quadro "Le Bassin aux Nympheas", pintado por Claude Monet em 1919, foi vendido por 41 milhões de libras esterlinas (US$ 82 milhões), o dobro do seu valor estimado.

Na noite seguinte, na Sotheby's, o quadro "Danseuse", pintado em 1915 por Gino Severini, foi arrematado por 15 milhões de libras esterlinas (cerca de US$ 30 milhões), quando o seu valor estimado era de 7 milhões de libras esterlinas (US$ 15 milhões). Isso corresponde a mais de sete vezes o recorde anterior para o trabalho de um artista italiano, que foi de 2 milhões de libras esterlinas (US$ 4 milhões), durante o pico do último boom, em maio de 1990 (os preços finais incluem uma quantia extra de mais de 12% paga pelo comprador, que não faz parte das estimativas).

Na última semana as vendas foram intensas, e as duas casas juntas venderam um total de 283 milhões de libras esterlinas (US$ 564,5 milhões) em obras de arte, 19% a mais do que no ano passado, segundo o banco de dados de artes MutualArt.com. Isso vai de encontro ao prognóstico dos pessimistas, que nos últimos dois anos têm previsto uma queda no mercado de artes. O intenso nervosismo quanto ao mercado revelou-se em novembro do ano passado, quando as ações da Sotheby's despencaram 28% em um só dia. O motivo? A casa de leilões não conseguiu vender um trabalho de Van Gogh no seu leilão da noite anterior. O valor das ações não se recuperou.

Muitos vendedores e colecionadores respeitados acreditam que o mercado atingiu o seu pico. Eli Broad, o colecionar bilionário de Los Angeles, disse várias vezes que não acredita que os preços continuarão subindo.

Um vendedor pessimista de Nova York afirma: "Anote as minhas palavras.
Os russos serão os japoneses do início do século 21". Durante o último pico do mercado de artes, os magnatas japoneses do setor imobiliário ficaram famosos no universo dos maiores compradores, arrematando obras impressionistas - eles apreciavam particularmente Van Gogh -, apenas para ter que vendê-las alguns anos depois a preços bem menores quando a bolha do mercado de imóveis de Tóquio estourou.

O apoio ao mercado de artes de hoje parece ter uma solidez bem maior. As alegações de que o mercado intermediário das obras de arte está se nivelando - o que seria um prelúdio para um grande declínio - não se sustentam em fatos concretos. Nas vendas da semana passada, a proporção de lotes que não foram vendidos não foi maior do que a de anos anteriores.

A Sotheby's observa que, cinco anos atrás, os seus compradores que desembolsaram mais de US$ 500 mil em uma obra de arte vieram de 26 países. Atualmente, os compradores cujos gastos encontram-se neste nível ou acima dele são de 58 países. No ano passado, 21% dos compradores na Sotheby's eram novos no mercado. Como poucos compram em um leilão apenas uma vez, isso significa um grande aumento do número de clientes. Helena Newman, vice-diretora de Arte Impressionista e Moderna da Sotheby's, afirma: "O perfil dos compradores mudou drasticamente nos últimos dez anos. Atualmente temos um alcance global bem maior. Também presenciamos uma demanda muito mais elevada pelos melhores trabalhos. O nosso maior desafio continua sendo o fornecimento das obras, encontrar esses trabalhos impressionistas e modernos da mais alta qualidade para vendê-los".

Simon de Pury, que dirige a casa de leilões Phillips de Pury, concorda:
"Cinco anos atrás, o mercado concentrava-se nos colecionadores europeus ocidentais e norte-americanos, um pequeno grupo de /cognoscenti /da arte. O mercado contemporâneo era dominado por três países - Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha. Agora vemos a mudança até no nosso
Website: as compras são feitas do Brasil, Turquia, China, Índia, Indonésia e Coréia do Sul.

Phillips de Pury é especialista em arte contemporânea e fará o seu leilão nesta semana, juntamente com os leilões de obras contemporâneas da Christie's e da Sotheby's.

De Pury diz que a mudança acelerou-se dois anos atrás. Ele prevê que a arte contemporânea continuará aumentando de popularidade, em parte porque o grande número de compradores significa que a demanda pelos trabalhos das eras anteriores não poderá ser atendida. "É uma questão de disponibilidade. Mesmo que o indivíduo conte com uma quantia ilimitada, ele não conseguirá mais comprar as melhores coleções de mestres antigos.

Mas ele poderá adquirir a melhor coleção de artistas vivos. Por este motivo a arte contemporânea será o mercado mais significativo nos próximos 20 anos. Na China, todo complexo imobiliário de ponta conta com um museu de artes. Todos esses espaços precisam ser preenchidos e isto manterá a demanda em um patamar elevado".

A maioria das nações do Oriente Médio também está construindo museus de arte. Por exemplo, há um Guggenheim e um Louvre destinados a Abu Dhabi.
Esses museus passarão a acumular trabalhos para preencher os seus amplos espaços no final deste ano. Nos Estados Unidos, terra da maioria dos bilionários do planeta, há uma tendência crescente por parte dos magnatas amantes das artes de construir os seus próprios museus, em vez de doar trabalhos para museus já existentes, conforme costumavam fazer.

Há muito mais gente rica no mundo e simplesmente é bem mais provável que essas pessoas comprem obras de arte. O número de milionários no Brasil, Rússia, Índia e China aumentou 19% no ano passado, segundo o Relatório Mundial de Riqueza, divulgado na última semana pela Merrill Lynch e a Capgemini. Atualmente o grupo dos dez maiores colecionadores do mundo inclui Victor Pinchuk, um bilionário ucraniano do setor siderúrgico, Carlos Slim, o magnata mexicano das telecomunicações, e o xeque de Qatar, Al-Thani, segundo a revista "ARTnews", que na última semana divulgou a sua lista anual dos grandes compradores.

A arte é vista também como um canal socialmente desejável para a riqueza resultante dos 20 anos de crescimento dos serviços financeiros. Os gerentes de fundos de hedge dos Estados Unidos, como, por exemplo, Steve Cohen, tornaram-se grandes colecionadores de arte contemporânea. Ben Crawford, diretor de marketing da MutualArt.com, afirma: "A tendência começa com os ricos, e depois há um efeito cascata. Veja o que acontecia no início do século - quem comprava roupas de designers? Um pequeno número de indivíduos da alta sociedade. Mas tão logo esses vestuários tornaram-se acessíveis para uma quantidade cada vez maior de pessoas, os compradores não retrocederam. Da mesma forma, os compradores atuais de arte também não retrocederão ao estágio de colocar pôsteres de 'Guerra nas Estrelas' nas paredes das suas casas".

O mercado será submetido a um novo teste nesta semana, quando ocorrerão as vendas de obras de arte contemporânea. Os leilões incluem trabalhos de artistas chineses e indianos, que há apenas três anos só seriam comprados na China e na Índia - isto quando conseguissem ser vendidos. Um mercado de artes globalizado desafia os profetas pessimistas UOL

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