Crise econômica atinge pubs do Reino Unido

Roger Blitz
Em Londres

As casas de bebida no Reino Unido já foram chamadas de várias coisas - pubs, inns, tavernas, gastropubs, bares, boozers -, mas nunca de espécie ameaçada de extinção. O país no qual os pubs tiveram origem tem tantos estabelecimentos desse tipo que ninguém sabe precisamente quantos existem.

"Nos últimos dez ou 15 anos o número de pubs sempre manteve-se em torno de 60 mil. Mas nos últimos tempos muitos deles têm fechado as portas", afirma Julian Hough, analista do Campaign for Real Ale (Camra), um grupo de lobby do setor de bebidas alcoólicas.

Esse índice de falência dos pubs está atingindo níveis críticos, segundo especialistas no setor. No ano passado cerca de 1.400 pubs fecharam as portas, e um número similar terá desaparecido até o final deste ano. A firma de serviços profissionais PwC reajustou as suas estimativas quanto aos fechamentos, adotando uma previsão mais pessimista.

Embora ninguém esteja prevendo um declínio terminal do pub britânico, este estabelecimento, que há séculos é o centro da vida social do país, corre risco.

Hoje é o aniversário da proibição do fumo em locais públicos na Inglaterra, um fato que ameaçou a sobrevivência dos pubs, já que eles dependiam daqueles fregueses que vinham regularmente para "tomar uma caneca de cerveja em silêncio" e fumar um cigarro.

Um ano depois, os piores temores dos donos de pubs materializaram-se. Mas o problema não é apenas o resultado da perda direta de fregueses fiéis provocada pela proibição do fumo.

O dano real foi provocado pelo fato de as redes de pubs terem decidido superar a proibição reinventando-se como restaurantes de jantar a fim de atraírem uma nova clientela - especialmente mulheres e famílias, que anteriormente mantinham distância dos pubs, cuja imagem era a de bares enfumaçados, dominados pelos homens e rescendendo a cerveja. As cozinhas foram reformuladas e os menus aperfeiçoados para que se atingisse uma qualidade digna de restaurantes que servem salada, prato principal e sobremesa.

Um ano após a proibição do cigarro, os modelos empresariais e os preços das ações estão sem dúvida alguma vivendo um mau momento no Reino Unido. Uma economia britânica em desaceleração está fazendo com que os consumidores reduzam os seus gastos. A disparada dos preços dos alimentos também prejudicou as vendas.

"O índice de fechamento de pubs atingiu níveis recordes", afirma Mark Hastings, da Associação Britânica de Pubs e Cerveja.

E os desafios também vêm de outras partes. Os supermercados estão prejudicando os negócios dos pubs com a venda de bebidas alcoólicas baratas, fazendo com que uma noite em um pub seja um programa menos tentador. Os parlamentares desejam investigar se as companhias de pubs não passaram a exercer um poder excessivo sobre gerentes independentes que alugam as instalações de grandes operadores.

E, em março passado, um governo carente de verbas aumentou o imposto sobre a cerveja, aumentando em 15 pennies o preço do pint (568 ml) da bebida, segundo Camra.

Nos estabelecimentos mais sofisticados de Londres, um pint de cerveja da variedade lager é vendido a £ 4. Até mesmo nas regiões mais pobres do Reino Unido, um pint da ale real, uma bebida cujo sabor morno e não gasoso há muito atrai os turistas, custa impalatáveis £ 2,40.

Não é de se admirar que as companhias de pubs estejam prevendo que o declínio do consumo de cerveja diminuirá, seguindo a tendência dos últimos anos.

Mas nem todos estão totalmente pessimistas. A Wetherspoon, que vende café da manhã e café nos seus pubs, informa que está se saindo bem com a sua oferta diversificada, embora admita que a proibição do fumo acabou com uma fatia da sua clientela.

Hough adota uma visão otimista quanto à possibilidade de alguns estabelecimentos britânicos antigos se recuperarem, sugerindo que já passou da hora de aplicar princípios econômicos isentos de sentimentalismo à indústria dos pubs.

"No passado a indústria resistiu bastante a fechar pubs que não apresentavam um bom desempenho", diz ele. UOL

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