Países ricos protelam diálogo com potências emergentes

Hugh Williamson
Em Berlim

As iniciativas do Grupo dos 8 de entrar em um diálogo mais estreito com as novas potências econômicas como China e Índia estão sendo minadas pela recusa dos países ricos a escutar plenamente as preocupações das nações emergentes, segundo um de seus representantes.

Um ano atrás o G-8 lançou o que foi planejado como uma "parceria igualitária e duradoura" com cinco economias emergentes, mas na realidade - apesar de algum progresso - "os países desenvolvidos basicamente definiram a agenda", disse Lourdes Aranda, vice-ministra das Relações Exteriores do México e coordenadora dos cinco países - Índia, China, México, Brasil e África do Sul - no G-8.

Ela também se queixou em entrevista ao "Financial Times" de que os líderes dos cinco países "não teriam tempo suficiente" na cúpula do G-8 na próxima semana, no Japão, para dar suas opiniões sobre preocupações como o disparo dos preços dos alimentos e da energia.

"Estamos muito interessados em conversar sobre como enfrentar os crescentes custos dos alimentos", ela disse, notando que o G-5 - como o grupo se batizou - poderia exercer um papel estabilizador, especialmente porque inclui vários dos maiores países do mundo, que têm enormes populações pobres.

Diplomatas disseram que o Japão, o anfitrião do G-8 este ano, está relutante em seguir o diálogo com o G-5 - formalizado no ano passado na cúpula de Heiligendamm, Alemanha - por medo de reconhecer abertamente o poder da China. Em conseqüência, o diálogo na cúpula de 7 a 9 de julho foi encurtado e diluído pelo convite de outros países não pertencentes ao G-8, como Indonésia, Coréia do Sul e Austrália.

"Esperamos que haja uma discussão mais ampla na próxima cúpula (na Itália em 2009)", disse Aranda. Segundo ela, o G-5 também gostaria de se concentrar em questões como a transferência de tecnologia dos países desenvolvidos para os em desenvolvimento - por exemplo, relacionadas à mudança climática - e iniciativas para melhorar os sistemas de saúde dos países pobres.

Apesar dessas preocupações imediatas, ela disse que "o processo de Heiligendamm", como é chamado o diálogo, teve sucesso como uma "medida para aumentar a confiança". Ele foi útil como um complemento às negociações formais com os países do G-8 em órgãos multilaterais como a ONU ou a Organização Mundial do Comércio, ela disse.

O diálogo também uniu mais o G-5, provocando uma maior coordenação de políticas não apenas em relação ao G-8, mas também em outros órgãos internacionais, ela acrescentou.

Bernd Pfaffenbach, o vice-ministro da Economia da Alemanha e coordenador do G-8 para o diálogo com o G-5, disse que quatro grupos de trabalho do processo de Heiligendamm haviam se reunido várias vezes desde a cúpula do ano passado. Essas "não são negociações formais, mas um diálogo político dirigido por temas", ele disse.

Os grupos de trabalho são sobre inovação e direitos de propriedade intelectual, eficiência energética e mudança climática, ajuda ao desenvolvimento e redução de barreiras para investimentos transnacionais. Cada um tem uma co-direção do G-8 e do G-5. "O diálogo se baseia em uma posição igualitária [entre os dois grupos]", disse Pfaffenbach.

Um diplomata do G-8 disse que as críticas de Aranda não causam surpresa, já que o âmbito dos quatro grupos de trabalho foi definido amplamente pelo G-8. No entanto, o diálogo tem apenas um ano, e no início os países do G-5 estavam "muito céticos sobre o interesse desse exercício. Eles avançaram significativamente desde então", acrescentou o diplomata.

Pfaffenbach disse que o processo de Heiligendamm é uma maneira de salientar a "responsabilidade comum" do G-8 e das economias emergentes para questões ligadas à globalização e à mudança climática, sem levantar a questão espinhosa de toda a ampliação do G-8 - uma questão sobre a qual o grupo dos países ricos ficou muitas vezes dividido. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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