Ruanda ameaça Paris sobre genocídio

William Wallis
Em Londres

O presidente Paul Kagame, de Ruanda, disse que seu país vai considerar processar os franceses que supostamente participaram do genocídio de 1994, se nada for feito para reverter a série de indiciamentos de autoridades ruandenses em tribunais europeus.

Kagame diz que uma investigação em Ruanda obteve informações sobre franceses que segundo ele são cúmplices do antigo regime ruandês responsável pelo assassinato de mais de 800 mil pessoas das etnias tutsi e hutu.

Ele falou ao "Financial Times" depois de conquistar apoio na cúpula da União Africana no Egito, na terça-feira, para uma resolução que impede que a jurisdição universal se estenda aos 53 países membros da UA.

A UA pediu a criação de um órgão regulador internacional com competência para analisar apelos "que surjam do abuso do princípio da jurisdição universal por países individuais", dizendo que isso viola a soberania e interfere na capacidade de os países membros manterem relações internacionais.

Kagame liderou os rebeldes da Frente Patriótica de Ruanda (FPR) em 1994, conduzindo os responsáveis pelo genocídio aos países vizinhos enquanto o mundo assistia e pouco fazia. Seus soldados foram acusados de atrocidades nos anos seguintes, mas ele continuou um defensor obstinado do alto nível moral que ele acredita que a FPR conquistou em 1994.

O papel da França no apoio ao antigo regime dominado pelos hutus foi uma fonte de atrito com Kagame desde então.

A França nega a participação no genocídio e afirma que sua intervenção ajudou a evitar uma catástrofe pior. As relações entre os países pioraram em 2006, quando um promotor francês indiciou nove autoridades ruandesas por supostamente conspirarem para derrubar um avião que levava o ex-presidente Juvenal Habyarimana, evento que provocou o genocídio. A origem do míssil continua sendo um mistério. Kagame e seus muitos aliados culpam os extremistas hutus. Ele cortou relações diplomáticas com a França.

Em fevereiro, um juiz espanhol denunciou 40 autoridades ruandesas por suposta participação na morte de milhares de hutus em Ruanda e no Congo nos anos depois que a FPR assumiu o poder. Kagame foi citado, mas goza de imunidade como chefe de Estado.

"Não há base [para as acusações espanholas e francesas]... Eles estão acusando as pessoas que na verdade impediram o genocídio", ele diz, acrescentando: "Seria de esperar que houvesse um mecanismo regulador internacional. De outro modo será o caos - todo mundo vai acusar todo mundo".

Se os países europeus puderem estender seus poderes jurídicos à África, ele advertiu, os países africanos devem poder fazer o mesmo. "Possivelmente nossos juízes também gostarão de denunciar alguns deles [franceses]. Eu não descarto isso, a menos que essas questões sejam resolvidas", disse Kagame.

Sob o governo de Kagame, Ruanda projetou sua força militar por grande parte da África central na década de 1990, enquanto perseguia os remanescentes do antigo regime. Ele continua sendo um estreito aliado dos EUA e da Grã-Bretanha.

Seu governo está constantemente investindo em defesas para salvaguardar "o desenvolvimento social e econômico", diz Kagame. Ruanda "está muito melhor hoje do que nunca foi", ele acrescenta. Mas os ocidentais continuam preocupados com a "história feia" de seu país, e não com o progresso que está fazendo em direção à recuperação.

Kagame tem um senso de humor irônico e um senso histórico amargo. Ele diz que enquanto há muita conversa sobre novas relações mais igualitárias as potências européias continuam querendo dominar os acontecimentos. "Quando as coisas vão bem, elas querem ser consideradas responsáveis. Quando as coisas vão mal, querem ser consideradas as que as consertam." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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