'Eu sou o presidente', Mugabe alerta oposição e vizinhos

Tony Hawkins
Em Harare

A crise política do Zimbábue se aprofundou na sexta-feira (4), quando Robert Mugabe, em seu retorno ao país após o encontro de cúpula da União Africana no Egito, disse que não é possível um diálogo com a oposição a menos que ela aceite sua vitória no segundo turno da eleição presidencial da semana passada.

Mugabe disse a cerca de 4 mil simpatizantes no aeroporto de Harare: "Eu sou o presidente da República do Zimbábue e esta é a realidade. Todos precisam aceitá-la se desejarem um diálogo".

Morgan Tsvangirai, líder do Movimento para Mudança Democrática (MDC) de oposição, que boicotou o segundo turno na semana passada culpando uma crescente violência contra seus simpatizantes, não deve, segundo Mugabe, "se iludir" em achar que os resultados da eleição de 27 de junho possam ser "expurgados dos registros". O MDC rejeitou imediatamente a condição de Mugabe como "irrealista".

A União Africana pediu na terça-feira para que os dois lados trabalhem para um governo de unidade nacional.

Respondendo aos comentários de Mugabe, James McGee, o embaixador americano no Zimbábue, disse que estava "cansado de retórica e mentiras" que vêm do regime de Mugabe.

Mugabe também foi criticado pela vizinha Botsuana, onde Phandu Sekelemani, o ministro das relações exteriores, disse que seu governo não reconhece o resultado da votação. "Nós esperamos que outros Estados da Comunidade para o Desenvolvimento do Sul da África façam o mesmo", ele disse.

A Nigéria questionou na noite passada a validade da eleição, expressando "forte desagrado" com a forma como ela foi conduzida.

Mas um truculento Mugabe alertou os vizinhos do Zimbábue para não provocarem seu governo. "Se há alguns que queiram nos combater, eles devem pensar duas vezes", ele disse. "Nós não temos intenção de enfrentar nenhum de nossos vizinhos, mas se houver um país, um país vizinho, com intenção de lutar, então que tente."

Fontes do governo em Harare dizem que Mugabe em breve anunciará um novo gabinete em preparação para a mudança do Parlamento em 16 de julho. Elas sugeriram que apesar do regime estar ignorando os resultados da eleição de 29 de março - no qual o MDC conquistou a maioria de 110 cadeiras na câmara baixa em comparação a 99 do Zanu-PF - alguns postos "menores" no gabinete podem ser oferecidos ao MDC.

O partido e ativistas independentes agora temem que parte do plano do aparato de segurança seja remover esta maioria parlamentar à força.

O MDC diz que seus membros não ingressarão no gabinete de Mugabe e alertou que a campanha de terror contra os parlamentares recém-eleitos pode impedi-los de assumir suas cadeiras, dando assim a maioria ao governo de Mugabe.

Segundo o MDC, mais de 100 de seus partidários foram mortos e 1.500 foram presos nas últimas semanas. Entre os presos estão 20 parlamentares ou candidatos, enquanto até 5 mil de seus fiscais eleitorais, candidatos e simpatizantes estão desaparecidos.

O MDC diz ter evidência de um plano do governo para reverter a maioria parlamentar do partido de oposição ao intimidar ou prender seus parlamentares eleitos. O partido diz que até metade deles está escondida no Zimbábue ou já fugiu do país.

"Isto significa que quando o Parlamento se reunir em duas semanas, o governo terá a maioria na prática", disse um advogado constitucional da Universidade do Zimbábue. George El Khouri Andolfato

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