A prisão de Karadzic pode estreitar laços com a Europa

Stefan Wagstyl e Neil Macdonald

Não deve causar surpresa, agora que ele será julgado pelo Tribunal Internacional de Crimes de Guerra, que Radovan Karadzic decidiu conduzir sua própria defesa. Como líder dos sérvios bósnios ele cortejou a mídia quando estava orquestrando o conflito mais sangrento da Europa desde a Segunda Guerra Mundial e, como se revelou esta semana, não se intimidou com a publicidade mesmo durante os 12 anos em que viveu escondido. Disfarçado como o terapeuta de fartas barbas Dragan Dabic, ele escreveu para a revista "Vida Saudável" da Sérvia, falou em conferências e distribuiu cartões profissionais proclamando-se um mestre em bioenergia.

Provavelmente conseguirá confrontar os promotores sobre as acusações contra ele, de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra, incluindo sua participação no sítio de Sarajevo e no massacre de Srebrenica. O ex-psiquiatra de 63 anos já se preparou para sua próxima aparição pública: raspou a barba branca de seus anos de fugitivo e pediu um corte de cabelo.

Para as famílias das vítimas, a prisão trouxe uma sensação de catarse. Os muçulmanos bósnios, que sofreram a violência dos sérvios bósnios na guerra de 1992-95, comemoraram nas ruas. Entre os sérvios, tanto na Bósnia quanto na Sérvia, a reação foi discreta. Para os nacionalistas da linha-dura Karadzic continua sendo um herói, mas muitos outros concordam que deve haver um reconhecimento legal para poderem pensar no futuro. Richard Holbrooke, o ex-diplomata americano e autor do acordo de paz da Bósnia, diz: "A prisão de Karadzic remove da região uma personalidade desestabilizadora e um símbolo ativo da resistência à reconciliação".

Para o tribunal da ONU em Haia a prisão de Karadzic é uma nova oportunidade de provar o valor dos tribunais internacionais de crimes de guerra. Como diz Robert Goldstone, o ex-promotor chefe do tribunal: "Acho que isto serve como advertência para todos os criminosos de guerra. Está aí como um dissuasor".

Apesar de o tribunal ter indiciado 161 pessoas e condenado 56, seus esforços para julgar os principais líderes estão incompletos. No caso mais significativo, o presidente Slobodan Milosevic foi julgado durante quatro anos de acusações que incluem genocídio, mas o ex-líder sérvio morreu antes do fim do julgamento. Karadzic oferece aos promotores mais uma oportunidade, apesar de eles saberem que seu trabalho não terminará a menos que também levem à Justiça Ratko Mladic, o comandante militar dos sérvios da Bósnia.

Os sérvios alegam que o tribunal é tendencioso, com predominância de sérvios entre os réus. O tribunal poderia parecer mais equilibrado se conseguisse julgar casos contra Alija Izetbegovic, o presidente bósnio-muçulmano durante o período de guerra que morreu enquanto estava sendo investigado, ou Franjo Tudjman, o falecido presidente croata que foi citado postumamente em indiciamentos de três generais croatas.

Mas Goldstone diz sem rodeios que os sérvios predominam entre os réus porque "a maioria dos crimes" foi cometida por sérvios. Os sérvios alegarem injustiça é como dizer "que um tribunal doméstico é preconceituoso contra os criminosos".

A detenção de Karadzic aumenta os esforços para trazer a Sérvia e o resto da antiga Iugoslávia para a União Européia. Mesmo depois da derrubada de Milosevic, em 2000, e sua ida para Haia, um ano depois, Belgrado demorou para levar os criminosos de guerra a julgamento. Bruxelas compartilhava as suspeitas do tribunal da ONU de que elementos dos militares e forças de segurança sérvias estavam protegendo fugitivos, notadamente o general Mladic. O fracasso em cooperar plenamente com o tribunal bloqueou a integração da Sérvia à UE.

Com o maior país da antiga Iugoslávia afastado e a crescente fadiga dentro da UE sobre a ampliação, também foi mais fácil para Bruxelas ir devagar com a Bósnia, Macedônia e Montenegro. Dos três Estados iugoslavos somente a Eslovênia, que se uniu à UE em 2004, e a Croácia, que iniciou negociações de acesso em 2005, se libertaram dessa restrição.

Belgrado conseguiu prender Karadzic depois de uma grande mudança política. A decisão foi tomada pelo governo liberal aliado ao presidente sérvio, Boris Tadic, que substituiu uma coalizão liberal-nacionalista capenga nas eleições de maio. Ministros das Relações Exteriores europeus cumprimentaram Belgrado pela prisão, com o francês Bernard Boucher dizendo: "Todo mundo está pulando de alegria - finalmente, finalmente! Certamente é uma coisa boa para aproximar a Sérvia da União Européia".

Mas o acordo de estabilização e associação assinado este ano - o primeiro degrau da escada da inclusão na UE - só será ativado quando os promotores dos crimes de guerra da ONU confirmarem que Belgrado está hoje em "plena cooperação" com o tribunal. A Holanda, que tem a linha mais dura sobre a Sérvia entre os 27 membros da UE, aceitará o próximo passo - a concessão do status de candidato - somente depois que o general Mladic for apanhado.

O progresso da Sérvia em relação à UE poderá acelerar o processo para seus vizinhos. Em termos formais, a Croácia está na liderança, com as negociações para afiliação em curso, seguida pela Macedônia, com status de candidato mas sem negociações. Mais abaixo na fila estão Bósnia e Montenegro, com acordos de associação. Gerald Knaus, da Iniciativa para Estabilidade Européia, um grupo de pensadores, diz que os avanços desta semana são "positivos para toda a região".

Para a Bósnia, especialmente, o legado de Karadzic persiste em sua divisão entre uma república dominada pela etnia sérvia e uma federação croata-muçulmana. Haris Silajdzic, o membro muçulmano da presidência tripla, pede a reunificação, dizendo que a prisão de Karadzic não resolverá nada enquanto as comunidades étnicas permanecerem em seus "guetos". Mas o discurso sobre reescrever radicalmente o acordo de paz de 1995 tem pequeno apoio internacional. "O que ele quer?", pergunta uma autoridade da Comissão Européia. "Outra guerra?"

A grande mosca na sopa regional é Kosovo, a província separatista sérvia cuja maioria étnica albanesa enfureceu Belgrado este ano ao declarar sua independência. Kosovo está dividida, com os sérvios no norte leais a Belgrado e rejeitando os esforços apoiados pela UE de construir um Estado integrado. A comunidade internacional também está dividida, com as potências ocidentais reconhecendo o país enquanto a Rússia e muitos outros se recusam. O impasse bloqueia a entrada de Kosovo na ONU e deixa incertezas que poderiam vazar para os países vizinhos.

A prisão de Karadzic tem pequeno impacto direto sobre Kosovo. Mas diplomatas europeus dizem que poderia ajudar em longo prazo, porque quanto mais a Sérvia se concentrar na integração à UE menos energia terá para gastar em uma disputa territorial. O novo governo ainda promete que jamais reconhecerá a independência de Kosovo, mas esta semana devolveu à capital da UE embaixadores que foram chamados por causa de Kosovo no início deste ano.

Apesar de sua política envenenada, a região fez progresso econômico. Desde 2000 e a queda de Milosevic, o crescimento da ex-Iugoslávia (menos Eslovênia) foi de 5,5% anuais em média. Os investimentos estrangeiros fluíram, com bancos austríacos, italianos e gregos liderando o caminho. A Sérvia sozinha atraiu cerca de US$ 15 bilhões em investimento direto estrangeiro desde 2000. "Estamos convencidos de que a Sérvia é um lugar de produção ideal para nós em médio a longo prazo", diz Siegfried Augerer, um alto executivo da fábrica de peças para automóveis alemã Draxlmeier, que está mudando empregos da Albânia para uma nova unidade no norte da Sérvia.

O comércio também se multiplicou, embora principalmente com países europeus. Na região, as barreiras políticas e administrativas foram mais difíceis de superar, assim como a geografia montanhosa.

Resta muito a fazer. A renda média anual nos antigos países da Iugoslávia (excluindo a Eslovênia) são de cerca de US$ 11 mil este ano em uma base de paridade de poder de compra. Fora a Croácia, cuja renda média é de US$ 16.500, os antigos países da Iugoslávia ficam bem abaixo da Romênia e da Bulgária, os países mais pobres da UE.

Para piorar a vida, os índices de desemprego, que despencaram na Romênia e na Bulgária, continuaram muito altos - cerca de 20% na Sérvia e 40% em Kosovo.

Os direitos de viagem são restritos - os cidadãos da ex-Iugoslávia exceto Eslovênia e Croácia ainda precisam de vistos para a UE. "É muito frustrante. Você se sente como um prisioneiro em seu próprio país", diz Tanja Katanic, uma professora de italiano em Belgrado. "A vida econômica melhorou desde 2000. Mas foi lento demais. Meus pais lembram que nossos padrões de vida eram muito melhores na década de 1980."

Os iugoslavos mais antigos ressentem o declínio da época em que eram o país mais rico do mundo comunista. Os jovens estão ainda mais irritados por terem crescido com menos dinheiro e menos capacidade de viajar que seus pais. Não é de surpreender que alguns tenham se voltado para o nacionalismo. "Eu me preocupo com minha filha, que nunca conheceu um estrangeiro e acha que eles são uma espécie de monstros", diz um sindicalista sérvio.

A captura de Karadzic não vai transformar os Bálcãs ocidentais da noite para o dia. Mas é um grande passo adiante, especialmente se for acompanhado em breve da prisão do general Mladic.
Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos