Rodada Doha: aposta fracassa e Lamy finalmente admite derrota

Alan Beattie

Mais um verão, mais uma reunião ministerial fracassada na Rodada Doha.

Nove dias quentes e úmidos com negociações até tarde da noite, boatos generalizados, paciências perdidas e recuperadas - e um surto incomum de otimismo na segunda metade das negociações - no final não deram em nada.

A convocação de uma reunião de ministros, ainda que persistissem grandes lacunas quanto às negociações, foi, desde o início, uma aposta de Pascal Lamy, o diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC). Mas ele precisa decidir até dezembro deste ano se deseja um outro mandato de quatro como diretor da OMC, e, sendo assim, pode ser que tenha achado que valia apenas fazer esta última aposta nas negociações.

A primeira semana começou com esperanças modestas. Em público, os ministros apoiaram a visão de Lamy, segundo a qual as chances de sucesso eram melhores do que nunca. Mas, reservadamente, poucas autoridades afirmavam que tais chances eram maiores do que 30%.

Os acontecimentos logo passaram a seguir um padrão: de manhã uma reunião maior, com os membros da OMC, e depois um encontro menor, do qual participavam de 30 a 35 ministros, no chamado processo do "salão verde" - assim denominado devido ao salão pintado de verde que foi utilizado em anos anteriores para a reunião de grupos pequenos de negociadores.

Os Estados Unidos geraram uma certa movimentação na terça-feira da semana passada, ao proporem a redução do teto dos subsídios aos seus produtores rurais para US$ 15 bilhões (? 9,6 bilhões, £ 7,5 bilhões). O número ficou uns dois bilhões de dólares abaixo da oferta anterior de Washington, e é muito menor do que o atual limite de US$ 48 bilhões - conforme observaram prontamente o Brasil e a Índia -, embora equivalha a aproximadamente o dobro dos subsídios atuais.

Mas o clima ficou difícil na manhã da quarta-feira, após a chegada de Kamal Nath, o ministro do Comércio da Índia, que estava em Nova Déli ajudando o seu governo a sobreviver a um voto parlamentar de confiança.

Nath, que no passado acabou com reuniões que ele sentia que não transcorriam bem, teve uma atuação ambígua. Primeiro ele fez um discurso duro, chamando os países ricos de prepotentes e afirmando que não negociaria os interesses dos pequenos produtores rurais. Mas, ao falar à imprensa, Nath adotou um tom mais moderado.

As negociações começaram a emperrar quando chegou-se a algumas questões difíceis: os países em desenvolvimento desejando proteger os vulneráveis pequenos produtores rurais e excluir os setores industriais das reduções de tarifas de importação. Um grupo menor de sete parceiros centrais de negociações - União Européia, Estados Unidos, Brasil, Índia, Austrália, Japão e China - reuniu-se até as 3h da madrugada de quarta-feira, sem que houvesse muito progresso.

Naquele momento as negociações pareciam estar na iminência de fracassar.

Os membros da delegação da União Européia passaram a embarcar em vôos a partir de Genebra na quinta-feira. E também na quinta-feira as negociações chegaram tão perto de um colapso que Mariann Fischer Boel, a comissária de Agricultura da União Européia, redigiu e mandou imprimir um discurso, preparando-se para comentar o fiasco.

Porém, depois que o incansável Lamy começou a fazer circular potenciais compromissos, as conversações foram resgatadas. Atribui-se também a um telefonema entre Nath e Manmohan Singh, o primeiro-ministro indiano, a suavização do tom utilizado pela Índia. A minuta de um acordo que circulou na última sexta-feira foi aceita - com bastante relutância no caso de alguns países, como a Argentina, que desejava maior proteção para as suas indústrias - como base para negociação.

Após uma sessão informal bem-sucedida sobre serviços, ocorrida no fim de semana, aumentou a perspectiva até então distante de um acordo.

Mas o acordo para a negociação acabou revelando-se nada mais do que isto, e a discórdia ressurgiu segundo um padrão familiar. Os Estados Unidos, com a cobertura de alguns exportadores agrícolas do mundo em desenvolvimento, como o Uruguai, insistiram que a Índia e a China abrissem os seus mercados de algodão e arroz. A Índia e a China, apoiadas por países de peso como a Indonésia, declararam que os Estados Unidos estavam pedindo um sacrifício excessivo a Pequim e Nova Déli.

Até então Pequim ficava na retaguarda das negociações, apesar da solicitação norte-americana de que a China assumisse um papel de liderança. Washington acabou tendo o seu desejo atendido, mas não da forma que desejava. Na última segunda-feira a China manifestou-se, denunciando publicamente a hipocrisia dos Estados Unidos por subsidiarem pesadamente os seus cotonicultores - um dos pontos mais vulneráveis e sensíveis dos norte-americanos -, enquanto exigem que os outros países exponham os seus produtores de algodão a uma competição intensa. A China chamou atenção para o fato de que o país já promoveu uma rápida liberalização como preço para ingressar na OMC em 2001, na mesma reunião na qual foi criada a Rodada Doha.

As conversações prosseguiram penosamente por mais dois dias, até que finalmente chegaram a um fim, sem que nenhum país mostrasse disposição para dar o golpe de misericórdia, devido ao temor de ser acusado de matar a negociação. Mas Lamy acabou admitindo que a sua aposta não deu resultado, e a Rodada Doha, que tem seis anos de idade, voltou a cair em um limbo. UOL

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