Mulheres desesperadas escolhem morte pelo fogo

Jon Boone

O hospital no qual Amina foi internada alguns dias atrás é, pelos padrões afegãos, um dos melhores do país, construído com dinheiro internacional, dotado de médicos treinados no exterior e equipado com aparelhos modernos. Ou seja, ela obteve o melhor tratamento possível.

Mas as suas chances de sobrevivência não são boas.

Recebendo medicamentos e envolta em bandagens, só uma parte da sua face está visível na ala de emergência, que ela compartilha com quatro outros pacientes. A pele empolada da face de Amina não fornece indícios das queimaduras terríveis que cobrem grande parte do resto do seu corpo.

Em outras partes do hospital especializado em queimaduras em Herat há alguns homens e umas duas crianças que sofreram acidentes graves, mas cerca da metade dos pacientes são mulheres que ensoparam-se deliberadamente com gasolina e atearam fogo em si próprias.

Mohamad Harif Jalali, um dos médicos do hospital, afirma que quando mulheres dão entrada na instituição apresentando queimaduras que cobrem 80% ou 90% do corpo sabe-se com quase certeza de que os ferimentos foram auto-infligidos.

O hospital se recusa a fornecer detalhes sobre a forma com elas sofreram queimaduras tão sérias, mas a história contada por Gulran, que deu entrada no hospital quatro dias atrás, é aparentemente típica.

Jalali afirma que Gulran era tratada como uma cidadã de segunda classe, incapaz de se entender com uma outra moça que foi morar na sua casa depois que o pai dela arranjou uma segunda mulher.

O moderno centro de tratamento de queimaduras é, sob certos aspectos, o mais imponente do complexo hospitalar de Herat, oferecendo alas esterilizadas, instalações com padrão ocidental e 34 leitos. O centro cirúrgico está sempre ocupado devido à demanda constante por enxertos de pele. Mas, conforme observa a médica Marie Jose Brunez, da organização francesa HumaniTerra International, que ajuda a administrar a instalação e a treinar médicos afegãos, é necessário que o paciente tenha uma quantidade suficiente de pele intacta para que a operação dê certo.

"No caso das mulheres com queimaduras mais graves, o hospital pouco pode fazer, a não ser proporcionar-lhes algum conforto com a administração de analgésicos, e esperar que elas morram", afirma Brunez. "Muitas dessas mulheres não sabem como é terrível a morte por queimaduras, desconhecem o sofrimento lento que as aguarda ou adquiriram uma concepção errada quanto ao isso assistindo a filmes iranianos".

O vizinho Irã exerce uma poderosa influência cultural sobre Herat. "Os filmes iranianos que exigem auto-imolações são muito populares aqui.
Eles fazem com que isso pareça ser fácil. As garotas acham que só precisam jogar gasolina sobre o corpo e tudo estará terminado em um segundo", diz Brunez.

Outros especialistas afirmam que este tipo de auto-imolação é popular devido à disponibilidade de líquidos inflamáveis nas casas afegãs.

De qualquer maneira, algumas organizações de mulheres relutam em financiar grandes campanhas publicitárias para aumentar a consciência quanto ao problema por temerem que isso só daria às mulheres mais idéias de como se matarem.

No Afeganistão são poucas as estatísticas confiáveis a respeito da auto-imolação. Em 2006, o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas informou que 106 mulheres haviam se queimado propositalmente.

Mas Charlemagne Gomez, que no ano passado preparou um relatório para o grupo feminino alemão de caridade Medica Mondiale, diz que, provavelmente, o número real é bem mais alto.

"Só é possível compilar os incidentes que são relatados quando as mulheres dão entrada no hospital. Mas muitas vezes as famílias recusam-se a levá-las até lá porque não querem cair em desonra. E é claro que, nestes casos, quando elas morrem, ninguém fica sabendo. A história é abafada", afirma Gomez.

As opiniões são divididas quando se trata de apontar as razões pelas quais as mulheres de Herat têm maior probabilidade que as mulheres do sul do país de tomarem uma atitude tão drástica. Segundo uma teoria, as mulheres da cidade contam com um nível educacional relativamente alto, comparado ao resto do país, e têm maior propensão ao ressentimento devido à vida conjugal forçada.

Mas, segundo Gomez, trata-se na verdade de um problema encontrado em todo o país, e que só é mais relatado em Herat.

Um padrão que emergiu de forma razoavelmente clara dos dados disponíveis foi que a maioria dessas mulheres tem de 16 a 19 anos de idade. Elas não tiveram que suportar anos de abusos, mas, recentemente, e a contragosto, foram obrigadas a morar longe de suas famílias devido a um casamento arranjado.

"É comum encontrar uma garota de 18 anos que tornou-se a segunda mulher de um marido de 80 anos", diz Brunez. "Que espécie de vida é essa? Elas são espancadas pelos maridos e maltratadas pelas sogras, e não têm como falar sobre isso com os seus familiares". UOL

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