Chávez tenta fazer uma revolução televisionada na Venezuela

Benedict Mander

Às 11 horas da manhã dos domingos, os venezuelanos ligam seus televisores para assistir o programa mais amado e odiado do país. Seu carismático, mas controverso apresentador discute política por horas - seu recorde ultrapassa oito - pregando e filosofando, contando casos pessoais e dando lições de história. Ele faz piadas em um momento e se enfurece em outros, assim como ataca agressivamente seus inimigos tanto quanto acaricia amorosamente crianças pequenas e idosas.

O apresentador é ninguém menos que Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, e seu programa semanal "Aló Presidente" no principal canal público, o "Venezolana de Television" (VTV), é freqüentemente o evento político mais importante da semana. Não apenas é uma ferramenta de Chávez para educar e informar a população sobre o progresso e metas de sua chamada revolução bolivariana (batizada segundo o herói da independência do século 19, Simón Bolívar), assim como para pregar os males do capitalismo e imperialismo (isto é, os Estados Unidos). É também uma forma inovadora de governo, onde anúncios significativos são feitos e políticas públicas são explicadas, enquanto ministros do governo fazem diligentemente anotações na platéia. Ministros são demitidos e repreendidos, empresas são nacionalizadas, fazendas expropriadas, hospitais e fábricas inaugurados. Na TV, Chávez até mesmo ordenou que batalhões de tanques se posicionassem na fronteira com a Colômbia, deixando alguns temendo uma guerra.

"Aló Presidente" é a linha direta de Chávez com o povo e o programa raramente se passa em um estúdio de televisão. Não, Chávez e sua equipe viajam por todo o país, montando um palco e mesa presidencial em qualquer lugar onde achem adequado - em uma praia, no topo de uma montanha, à sombra de uma refinaria de petróleo gigante ou no meio de um campo, com vacas pastando ao fundo. Súditos afetuosos das aldeias próximas vêm para aplaudir o presidente e talvez até mesmo ganhar um de seus abraços distribuídos generosamente.

Mas o programa de Chávez é apenas um exemplo do uso da TV para fins políticos. O outro é a notória "cadena" (cadeia de TV), que todos os canais abertos são obrigados a mostrar: ele consiste basicamente de discursos presidenciais, que podem durar várias horas. Já foram realizados mais de 1.600 desde que Chávez chegou à presidência, somando mais de 1.000 horas no ar.

Nos últimos 10 anos, a politização da mídia - ou a "midiatização" da política - tem sido notável. Na verdade, Chávez deve sua ascensão inicial à fama a uma breve aparição na televisão. Após um golpe de Estado fracassado em 1992, ele foi autorizado a anunciar sua derrota à nação em "cadeia de TV", pedindo aos seus companheiros insurgentes que baixassem suas armas. O antes desconhecido Chávez se tornou um herói. Ele foi eleito democraticamente presidente em 1998.

Mas apenas após ter estado do outro lado de um golpe, em 2002, é que o poder pleno e potencial da televisão ficaram claros para ele. Os canais de TV privados controlados pela oposição foram acusados de cobertura tendenciosa e de terem encorajado o golpe, e até mesmo de terem promovido um "apagão" dos noticiários quando ficou claro que havia uma ampla rejeição ao golpe, exibindo filmes clássicos e desenhos em seu lugar.

Desde então, o bombástico presidente da Venezuela tem feito um esforço orquestrado para desafiar a mídia privada, ao estabelecer múltiplos órgãos de mídia para promover sua pretensa revolução socialista. De apenas um canal público de TV antes de 2002, agora há seis, ganhando sua mais recente adição quando o governo se recusou a renovar a concessão de uma das emissoras de TV mais populares do país, a "RCTV", em grande parte devido a seu suposto envolvimento no golpe de 2002. Ela foi substituída pela estatal "TVes". Outra inclui a continental "Telesur", um canal de notícias 24 horas que visa competir com as notícias americanocêntricas da "CNN".

Segundo Marcelino Bisbal, que leciona comunicações na Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas, estes canais públicos de TV se tornaram instrumentos do governo. Em um recente estudo da "VTV", ele apontou que notícias (visando basicamente informar sobre as realizações do governo, ele disse), propaganda oficial ou do partido, discursos presidenciais e publicidade compõem mais de 80% da programação.

"Isto visa promover as metas do projeto político do presidente, e não pode ser chamado de um canal de serviços públicos", disse Bisbal. De fato, três apresentadores de destaque no horário nobre foram recentemente eleitos para o diretório do Partido Socialista Unido da Venezuela de governo, composto de 14 pessoas. Dois deles estão concorrendo a posições-chave em importantes eleições regionais em novembro, um para prefeito da capital, Caracas, outro para governador do Estado que contém a terceira maior cidade da Venezuela, Valencia.

Apesar de haver pouca dúvida de que os canais públicos são altamente politizados, os canais privados de TV, que contam com maior audiência, tradicionalmente estão longe de livres de tendenciosidade - e esta é a principal justificativa do governo para a forma como usa os canais públicos. Mas a cobertura de notícias nos canais privados melhorou acentuadamente. Dos "quatro cavaleiros do apocalipse", como Chávez descrevia as quatro principais emissoras privadas de TV, uma já foi removida do ar (a "RCTV"), e duas atenuaram significativamente sua cobertura desde o golpe de 2002, e agora são consideradas bem equilibradas. Apenas o canal de notícias 24 horas "Globovision" permanece abertamente crítico do governo - mas diferente dos demais canais, sua concessão não será renovada tão cedo.

O contraste entre mídia privada e pública talvez seja o aspecto mais notável da TV venezuelana, evidência de quão profundamente polarizada a sociedade se tornou: aqueles que defendem a revolução, e aqueles contrários a ela. A qualquer momento, enquanto em um canal privado é possível assistir a um game show ou novela, na TV pública é mais provável que alguém - quando não o próprio presidente - estará expondo entusiasticamente as virtudes da revolução. Certamente, na Venezuela, a revolução está sendo televisionada. Tanto os canais públicos quanto privados de TV são cúmplices na "midiatização" da política pelo presidente Hugo Chávez George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos