Plano de Constituição amplia a divisão na Bolívia

Naomi Mapstone e Andres Schipani

Os presidentes da Bolívia tradicionalmente se dirigem à nação de Sucre, a elegante capital constitucional do país de prédios brancos, no Dia da Independência.

Mas Evo Morales, o presidente esquerdista radical que enfrenta um referendo de ratificação de seu cargo neste domingo (10), não foi bem-vindo em Sucre nesta semana.

A cidade não esqueceu a violência de novembro passado, quando três manifestantes morreram em confrontos com a polícia em torno da decisão do governo de aprovar o projeto de uma nova Constituição, após um impasse na Assembléia Constituinte.

Em seu lugar, Morales, resplandecente em uma faixa tricolor sobre um terno com um elegante tecido indígena, falou ao seu povo da sacada do palácio presidencial em La Paz.

"Eu não tenho medo do povo, nem tenho medo do império", disse Morales em seu discurso, se referindo aos Estados Unidos. "Mas algumas pessoas não querem se submeter ao povo; elas só querem se submeter ao império."

Com vista para bandeiras hasteadas da Bolívia e de suas nove províncias, quatro das quais votaram neste ano a favor da autonomia local, Morales apelou por unidade e pediu aos eleitores rurais que comparecessem em peso em seu apoio.

O vice de Morales, Álvaro García Linera, e oito governadores provinciais também enfrentam referendos de ratificação de seus cargos no domingo, em uma votação que deverá aprofundar as divisões existentes entre as ricas províncias do sul e as terras baixas do leste e províncias mais pobres, de maioria indígena, das terras altas do oeste.

"Mesmo que ele obtenha 60% dos votos (...) a polarização chegou a tamanho extremo que há lugares onde o presidente não pode ir", disse Horst Groebe, um ex-ministro das finanças e analista político do centro de estudos Prisma, em La Paz. "Após o referendo a polarização será ainda maior. Nós teremos uma situação onde Morales não será capaz de colocar seus pés em quatro ou cinco regiões."

Morales foi forçado a cancelar dois comícios na quarta-feira (6), nas fortalezas da oposição de Santa Cruz e Trinidad, após manifestantes terem cercado os aeroportos. No dia anterior, Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, e Cristina Fernández, a presidente da Argentina, cancelaram as negociações de energia na província de Tarija, no sul e liderada pela oposição, após manifestantes terem bloqueado as estradas e cercado o aeroporto. Enquanto isso, dois mineiros foram mortos em protestos separados na cidade mineira de Huanuni.

As mais recentes pesquisas sugerem que Morales conta com 59% de apoio - suficiente para fortalecer seu mandato e talvez aprovar a nova Constituição, que ampliaria seus poderes, enfraqueceria o Judiciário e daria às comunidades indígenas maior autonomia e maior participação nas terras e recursos do país.

Mas realizar pesquisa entre o eleitorado da Bolívia é notoriamente difícil. Morales é certamente popular: o primeiro presidente indígena do país assumiu em dezembro de 2005 com 54% de apoio, obtidos por meio de uma ampla coalizão de eleitores rurais, indígenas e eleitores urbanos de classe média.

De lá para cá, seu partido Movimiento al Socialismo (MAS) tem usado as receitas extras da nacionalização do setor de hidrocarbonetos e dos impostos sobre a mineração para ampliar significativamente os gastos públicos, incluindo a introdução de dois programas de transferência de dinheiro voltados a estudantes e idosos.

Na Bolívia, o país mais pobre da América do Sul apesar de contar com a segunda maior reserva de gás natural da região, estes programas são populares. Mas o fantasma da inflação alta - que atualmente está acima de 17% - a crescente desconfiança em instituições como o Tribunal Eleitoral Nacional, que supervisiona os processos eleitorais da Bolívia, e o desencanto entre a classe média urbana, minaram a base política de Morales.

"Muitas das pessoas que votaram em Evo não vão fazê-lo de novo", disse Jim Shultz, diretor executivo do Centro para Democracia, um centro de estudos em Cochabamba.

"Há uma percepção muito forte entre a classe média urbana de que ele é realmente presidente apenas dos indígenas. Eles perguntam: 'O que ele está fazendo por mim?'"

A oposição também conseguiu, com algum sucesso, pintar Morales como um fantoche da Venezuela, uma tática refletida na guerra de propaganda de pichações em andamento nas fachadas de Cochabamba: "Evo, fantoche de Chávez" contra "Evo, a revolução continua".

Jorge "Tuto" Quiroga, ex-presidente e líder do partido de oposição Podemos, que controla o Senado, disse que o governo de Morales é uma "subsidiária de propriedade total" da Venezuela e que a aprovação da nova Constituição lançaria o país em anos de governo autocrático.

Morales precisará de uma vitória significativa no domingo caso queira dar continuidade aos seus esforços para implantar uma nova Constituição. Qualquer coisa menor poderá levar o presidente a adiar sua agenda de reforma e concentrar suas energias em sua sobrevivência política.

A falta de fortes instituições independentes na Bolívia e de um terreno político intermediário significa que qualquer que seja o resultado no domingo, as tensões continuarão.

"Nós temos lideranças muito radicais que não têm negociação e diálogo como parte de sua cultura política. Há muita luta, com uma estratégia de tudo ou nada. E aquele que historicamente aplica esta estratégia acaba com nada."

"Nós estamos em um momento muito desesperado", disse Groebe. George El Khouri Andolfato

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