Venezuela permitirá financiamento imobiliário integral

Benedict Mander
Em Caracas

Enquanto a crise do subprime americana deixa muitos banqueiros trêmulos com as conseqüências de financiamentos hipotecários generosos, uma nova lei na Venezuela permite aos bancos oferecer 100% de financiamento para compradores de imóveis.

Analistas dizem que a lei, parte de um pacote de 26 decretos presidenciais apresentados por Hugo Chávez na semana passada e que gerou grande controvérsia, visa resolver uma profunda crise habitacional que atinge grandes setores da população que vive em favelas.

"Para mim, oferecer 100% de financiamento é apenas uma distração", disse Francisco Neri, o presidente da câmara dos corretores imobiliários. Ele disse que o problema fundamental é que muitos venezuelanos são simplesmente pobres demais para pagar os financiamentos. Com uma inflação anual atualmente ultrapassando 30%, isto está se tornando cada vez mais difícil.

"As pessoas que se beneficiarão com isso serão aquelas que ganham mais, já que terão maior condição de pagar", disse Neri, acrescentando que a segundo a lei, as parcelas do financiamento imobiliário não podem ultrapassar um quinto da renda mensal.

Um outro problema, ele acrescentou, é a escassez de fontes de financiamento. Analistas apontam que a recente nacionalização do Banco de Venezuela, de propriedade do Grupo Santander da Espanha e o terceiro maior banco do país, poderá limitar ainda mais os empréstimos.

Enquanto os bancos privados emprestam em média mais de 60% dos depósitos, os bancos do setor público emprestam apenas cerca de 15%, preferindo investir na dívida do governo, disse César Aristimuño, um analista financeiro de Caracas.

A nova regra provavelmente dificultará ainda mais a obtenção de financiamento imobiliário: com a maioria dos bancos já tendo atingido seus limites de empréstimos, o número absoluto de financiamentos tenderá a cair.

"O empréstimo diminuirá e menos pessoas terão acesso ao crédito", disse Aristimuño, acrescentando que a tendência seria reforçada por um salto substancial nas taxas de juros neste ano.

A promessa de Chávez de fornecer moradias adequadas tem sido uma das mais difíceis de cumprir. Quando ele foi eleito em 1998, o déficit habitacional da Venezuela era estimado em cerca de 1 milhão de moradias; ele agora ultrapassa 1,8 milhões, segundo Neri.

Para cobrir o déficit em 15 anos, cerca de 250 mil moradias precisariam ser construídas a cada ano, dado o crescimento populacional. "Nós não estamos em condição de fazer isso", disse Neri.

Segundo a câmara de corretores de imóveis, cerca de 272 mil moradias foram construídas durante a presidência de Chávez, apesar do ritmo da construção ter aumentado acentuadamente nos últimos dois anos em conseqüência de uma nova legislação, atingindo quase 83 mil construídas no ano passado.

Os analistas listam vários problemas enfrentados pelo setor habitacional. O principal deles é a pesada burocracia que retarda as permissões, assim como maquinário, materiais de construção e infra-estrutura insuficientes.

Eles acrescentam que os problemas foram agravados pela inconsistência da estratégia do governo, exemplificada pelo fato do ministro da habitação ter mudado quatro vezes desde janeiro. George El Khouri Andolfato

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