Nova ameaça terrorista deixa polícia indiana desorientada

Amy Kazmin

Logo após um dos portões de pedra rosa que levam à cidade murada de Jaipur, o policial Amar Singh observa os veículos com placas de fora do Estado, usando seu rifle antigo como advertência aos viajantes suspeitos. Ali perto, um novo sistema de alto-falantes exorta os camelôs e consumidores a notificarem as autoridades se encontrarem qualquer pacote abandonado.

Jaipur, a jóia da Índia do Estado turístico popular do Rajastão, tem vivido em maior grau de vigilância desde maio, quando oito bombas explodiram na frente de templos hindus, pontos turísticos e postos policiais, matando 69 e ferindo mais de 250. O ataque foi assumido por um grupo pouco conhecido chamado Mujahedeens Indianos, que também estava por trás de uma série de 16 bombas que mataram ao menos 45 pessoas em Ahmedabad no último mês.

Até agora, contudo, as avaliações de Singh não geraram nada de útil. Tampouco a investigação conseguiu identificar os atacantes de Jaipur, apesar de entrevistar mais de 10.000 pessoas em dez Estados da Índia. "Esforços estão sendo feitos, mas até agora não deram frutos", disse ao Financial Times o ministro do interior do Rajastão, Gulab Chand.

Gyansham Jai Singh, vendedor de doces em Jaipur que perdeu um funcionário e dois de seus fornecedores de leite nos atentados, duvida que a polícia encontre os culpados. "Mesmo que prendam alguém, será um falso suspeito -apenas para satisfazer o público", disse ele. "Os culpados de verdade estão sentados em algum lugar bem distante".

De fato, o aparato policial indiano está altamente despreparado para o desafio que agora parece confrontar -radicais muçulmanos locais com conhecimento tecnológico adotando o terror em resposta ao que percebem como injustiças sofridas por sua comunidade pela sociedade dominada pelos hindus. Os desafios de segurança não são nada novos em um país que há muito luta contra insurgentes separatistas e movimentos de guerrilha de esquerda, mas esses tendem a ser confinados a áreas específicas distantes do coração econômico do país.

A polícia indiana é carente de pessoal e de fundos e fragmentada. Muitos a consideram mais capaz de tirar confissões forçadas e monitorar a oposição política do que de compilar casos sólidos. Não surpreende que a maior parte dos indianos urbanos tenha dúvidas sobre a capacidade das autoridades de protegê-la de mais ataques terroristas. Em alguns dias consecutivos de julho, a capital da tecnologia da informação, Bangalore, teve oito explosões que mataram uma pessoa; Ahmedabad sofreu as explosões mais sérias, e foram descobertas e desativadas 25 bombas no centro de lapidação de diamantes em Surat, talvez depois de fracassarem.

A segurança para as celebrações do Dia da Independência hoje em Nova Déli será grande, com partes da capital virtualmente isoladas. Mesmo assim, muitos evitarão os festejos, temerosos de multidões em lugares públicos no atual ambiente. No longo prazo, há temores que os ataques repetidos -e a aparente incapacidade das autoridades de detê-los- possam minar a aspiração da Índia de emergir como superpoder econômico.

"Estamos impressionantemente mal equipados para lidar com isso. Temos a mesma força policial hoje do que quando os britânicos nos deixaram, talvez pior... não dá para ter um combate ao terrorismo de primeira classe com um sistema policial de terceira", diz Ajai Sahni, diretor-executivo do Instituto de Administração de Conflitos, que estuda o terrorismo no Sul da Ásia.

Enquanto a Organização das Nações Unidas recomenda uma razão de 222 policiais para cada 100.000 habitantes em tempos de paz, a Índia tem cerca de 126, de acordo com Sahni. Talvez ainda mais significativa que essa falta de pessoal seja a cultura do próprio sistema policial.

Organizada exclusivamente nos Estados, a polícia muitas vezes sofre extrema pressão para satisfazer o governo corrente. Grande parte das investigações se concentra nos partidos políticos de oposição, enquanto os crimes cometidos pelos que estão no poder, suas famílias e aliados são acobertados.

Enquanto isso, as autoridades em torno da Índia estão lutando para monitorar a comunidade de 150 milhões de muçulmanos, que continua revoltada com os conflitos de 2002 em Gujarat, nos quais quase 3.500 pessoas, na maioria muçulmana, foram mortas por multidões hindus enquanto a polícia assistia.

A inteligência muitas vezes permanece no nível local, devido à falta de coordenação entre as forças estaduais. "O problema está na coleta de informações da inteligência", diz H.G. Raghanvendra Suahasaa, diretor-geral da polícia em Jaipur. "Não tomamos medidas ativas para penetrar nesse tipo de rede."

A única agência federal de vigilância da Índia, o Escritório Central de Investigação, tem primariamente a função de investigar a corrupção oficial e só se envolve em outros casos se convidado pelas autoridades locais ou quando recebe ordens da justiça -o que em geral faz com que chegue tarde às investigações criminais.

O escritório de inteligência é agência de espionagem interna da Índia e tem poderes legais limitados. Ele não é capaz de conduzir buscas ou apresentar evidências à justiça e, como a polícia, é suscetível à pressão política.

Dependendo primariamente de informantes -inclusive pessoas locais- onde quer que trabalhe, o escritório de inteligência encontrou dificuldades para entrar na comunidade muçulmana. "Eles acham que é contra o islã cooperar com a polícia. Há uma noção que a polícia é antimuçulmana", diz B. Raman, especialista em inteligência.

Desde as explosões de Ahmedabad, há cada vez mais pedidos para a criação de uma agência federal de combate ao terrorismo capaz de responder à nova ameaça. "Precisamos ter uma agência com poderes maiores, maior assistência financeira e que possa mover-se rapidamente em torno do país, entrar em qualquer Estado e fazer as coisas", diz Suhasaa, que faz parte de uma equipe de 100 pessoas investigando as explosões de Jaipur. Outros sugerem que, em vez de criar uma nova agência talvez seja mais simples reformar as existentes e dar-lhes mais recursos para cumprir suas responsabilidades.

Até que isso aconteça, as investigações de ataques terroristas provavelmente envolverão amplas varreduras de comunidades muçulmanas, freqüentemente culminando em prisões arbitrárias. Em Jaipur, Anwar Shan, secretário geral da Jama Masjid, ou Antiga Mesquita, diz que muitos trabalhadores muçulmanos fugiram para seus Estados natais depois dos ataques de maio, com medo de serem presos em um arrastão policial.

Tais táticas não apenas fracassam em encontrar os verdadeiros perpetradores, e ainda correm o risco de antagonizar ainda mais com as comunidades muçulmanas já alienadas, cuja cooperação é duramente necessária na batalha contra o extremismo violento. "Você tem que ter relações cordiais, desenvolver contatos com pessoas de reputação na área e manter uma vigilância por meio delas", diz Shah. "Deixar de lado toda essa imagem ameaçadora. Essa imagem deve ser removida pelas autoridades. A polícia está tentando mudar, mas ainda cai no antigo padrão". Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos