O mundo quer saber se Medvedev é quem de fato comanda a Rússia

Catherine Belton

Quando Dmitri Medvedev emergiu das quatro horas de conversa com o presidente francês Nicolas Sarkozy na terça-feira passada a fim de apresentar um plano para por um fim à batalha pela Ossétia do Sul, a sua imagem de líder liberal pró-ocidental pareceu à primeira vista ter permanecido intacta.

Mas, apesar dos apertos de mão, muitas questões permanecem sem resposta - não apenas no que se refere a como se fará cumprir o acordo, mas também quanto ao que significará para a presidência de Medvedev a resposta militar da Rússia à tentativa da Geórgia de controlar a região.

Para alguns, o confronto constitui-se em um fim brutal de uma lua-de-mel durante a qual algumas autoridades ocidentais esperavam que Medvedev conduzisse o seu país por uma rota mais liberal e pró-Ocidente. "Isto poderá ser um golpe nas nossas relações com o qual a Rússia arcará durante décadas", afirmou uma autoridade graduada do governo dos Estados Unidos.

Yuri Kocketkov/EFE - 20.ago.2008 
Medvedev (esq.) recebe oficiais que participaram da ação militar russa na Ossétia do Sul

"A guerra colocou Medvedev em uma armadilha, porque ele assumiu a responsabilidade pela agressão russa", afirma Lilia Shevtsova, pesquisadora da instituição Carnegie Endowment for International Peace. "Ao assumir essa responsabilidade, ele liqüidou as esperanças de uma melhoria das relações políticas. Este é o retorno à agressiva União Soviética. Esta é a Rússia levantando-se após ter ficado de joelhos. Não existe um só país no mundo que tenha abraçado reformas liberais quando usava uma retórica militarista".

O conflito voltou a gerar dúvidas quanto a quem está de fato no comando no Kremlin. Falando nas Olimpíadas de Pequim, Vladimir Putin - o ex-presidente e atual primeiro-ministro - afirmou na última sexta-feira que a Rússia responderia à "agressão" georgiana. Ele suspendeu a sua viagem no sábado para ir ao Cáucaso, a fim de apoiar as "tropas de paz" russas e passar algum tempo com refugiados. Quando Putin chegou a Moscou, a televisão mostrou-o aconselhando o presidente a fazer com que promotores conduzam uma investigação do ataque desfechado pela Geórgia.

O comedido Medvedev teve que decidir, e quando o fez - em reuniões televisionadas com oficiais militares de alta patente - ele parecia esmagado pelos fatos. "Para qualquer líder ainda nos seus cem primeiros dias de presidência, um conflito militar de grandes dimensões é um teste sério", admitiu uma autoridade do Kremlin.

A série de declarações emitidas pelo gabinete de Medvedev no Kremlin e pela Casa Branca de Putin fez com que alguns diplomatas ocidentais se perguntassem se os dois estão falando a mesma língua.

Na segunda-feira, após uma conversa por telefone com Sarkozy, Medvedev anunciou que a Rússia havia completado uma "parte significativa" de uma operação militar para "forçar os georgianos a adotar o caminho da paz". Mas apenas uma hora depois, Putin criticou o apoio dos Estados Unidos à Geórgia e insistiu que a Rússia levaria o conflito até "à sua conclusão lógica".

À noite, segundo um diplomata ocidental familiarizado com a questão, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia ainda insistia na substituição do presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili. Enquanto isso, tropas russas entravam com desenvoltura na Geórgia, capturando uma base militar na cidade ocidental de Senaki.

Na terça-feira Putin apareceu para participar da maior parte das discussões de Medvedev com Sarkozy, segundo um diplomata ocidental familiarizado com a questão. O acordo a que se chegou fez com que as questões mais espinhosas não fossem resolvidas. Um crucial quinto ponto em um plano que tem um total de seis, permitiu às forças de paz russas "tomar medidas ampliadas de segurança" até que se chegue a um acordo quanto a um "mecanismo internacional".

E, quando Medvedev emergiu das conversações, ele atacou Saakashvili com uma linguagem reminiscente do estilo duro de Putin. "A diferença entre os lunáticos e as outras pessoas é que é muito difícil detê-los quando eles farejam sangue. É preciso usar cirurgia", afirmou o presidente russo.

Sergei Markov, um membro do partido Rússia Unida, pró-Kremlin, e analista político, afirmou que Medvedev só utilizou uma linguagem dura depois de conversar com Putin. "Acho que, internamente, existe algumas diferenças de opinião", disse ele. "Mas eles decidem essas diferenças entre si, até que concordem quanto a uma posição consolidada. Eles jamais permitirão que tais diferenças de opinião venham à tona".

Olga Kryshtanovskaya, especialista na elite política russa da Academia de Ciências, afirma: "Putin toma as decisões e Medvedev repete as suas palavras. Ele é como um garoto na escola que repete o que o professor diz. Medvedev está cercado de pessoas da confiança de Putin. Caso haja qualquer conflito ele está fadado à derrota".

Alexei Venediktov, o influente editor-chefe da estação de rádio Ekho Moskvy, diz ter certeza que Medvedev e Putin concordaram que a Rússia foi forçada a agir contra a tentativa da Geórgia de tomar a Ossétia do Sul. "Eles não tinham outra escolha", afirma Venediktov. "Eles têm apenas uma diferença no estilo. Não estão fazendo um jogo do tipo mocinho e bandido. Ambos concordaram que o conflito teria que ser contido porque perceberam que, caso contrário, o custo - a não aceitação da Rússia no Ocidente e da sua integração em instituições globais, como a Organização Mundial do Comércio - seria bastante alto. UOL

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