Paraguai sobe na cadeia alimentar

Jude Webber, em Buenos Aires, e
Benedict Mander, em Caracas

Pegue os preços recordes das commodities, adicione um clima subtropical que dá aos produtores rurais cinco colheitas em um espaço de 24 meses e vastos trechos de terras aráveis virgens e, sem causar surpresa, o minúsculo Paraguai desponta como um dos grandes beneficiários da crise global dos alimentos.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reconhece que o país, cuja história de pobreza e corrupção entrincheirada geralmente o rotula como um dos perdedores econômicos do mundo, ganhou mais com a alta dos preços dos alimentos em termos de estímulo à sua balança comercial do que qualquer outro país.

O fundo estima que os aumentos de preço dos alimentos em 2007-2008 aumentaram a balança comercial do Paraguai em 12,2% do PIB de 2005, o único país no mundo a apresentar um ganho de dois dígitos.

Os cálculos do FMI não levam em consideração as flutuações do câmbio e a escalada dos preços dos fertilizantes e combustíveis. Mas eles ilustram como países latino-americanos freqüentemente desconsiderados como Paraguai, Guiana e Uruguai têm potencial de ajudar a alimentar o mundo e ao mesmo tempo colher grandes recompensas para suas economias subdesenvolvidas.

A soja está transformando as finanças do Paraguai. O país sem acesso ao mar é o quarto maior exportador de soja do mundo; a produção quase dobrou em dois anos e o produto ajudou a aumentar as exportações em 77% em 2007. O crescimento econômico foi de 6,4% no ano passado, a taxa mais alta em duas décadas.

"Nós achamos que se a atual situação mundial continuar, nós poderemos facilmente ver investimentos (agrícolas) de US$ 3 bilhões a US$ 5 bilhões nos próximos cinco anos", disse Christian Thielmann, da agência de investimentos e exportações do Paraguai, a Rediex.

Ele disse que investidores argentinos, brasileiros e uruguaios estão exibindo grande interesse em agricultura, pecuária e silvicultura, atraídos por incentivos fiscais na importação de maquinário e uma taxa de retorno de 10%.

Após uma seca séria há dois anos, a produção de soja saltou de 3,6 milhões de toneladas em 2006 para 6,8 milhões de toneladas em 2008, segundo a Câmara de Exportadores de Cereais e Oleaginosas paraguaia. "Mas pode chegar a entre 15 milhões e 18 milhões nos próximos anos", disse Germán Ruíz, vice-presidente da Associação Rural do Paraguai.

A produção de milho, girassol e canola também quase triplicou entre os períodos 2004/2005 e 2006/2007 e a do trigo também aumentou, apesar de mais lentamente. Héctor Cristaldo, presidente de uma confederação de sindicatos rurais, vê "uma migração em massa" do algodão, um produto tradicional, para o gergelim, um novo cultivo comercial que é quase totalmente exportado para o Japão e a Coréia, aumentando as rendas vitais para um país onde o PIB per capita é de apenas US$ 4.500.

O Uruguai -já o sétimo maior exportador de arroz do mundo, sem subsídios do Estado mas com produtividade que os agricultores dizem superar a dos Estados Unidos- está encontrando novos mercados importantes à medida que os estoques diminuem e os maiores produtores restringem as exportações ou aumentam as tarifas para conter a inflação doméstica dos alimentos.

"Europa, Irã, Iraque, Brasil e Peru não possuem estoques suficientes. Qualquer um estaria preparado para comprar mais do Uruguai", disse Alfredo Crossa, presidente da Casarone, o segundo maior moinho de arroz do Uruguai. "Nós também estamos desenvolvendo vendas no Leste Europeu e no Caribe."

Ele disse que o Uruguai, que exporta 90% de seu arroz, está a caminho de aumentar sua produção de 1,4 milhão de toneladas em 20% neste ano. Com investimento em irrigação, a produção poderia chegar a 2 milhões de toneladas em cinco anos, caso os preços permaneçam altos, ele disse.

Octacilio Echenagucía, presidente da Federação Rural, prevê um aumento de 50% no cultivo de soja no Uruguai neste ano.

Na Guiana, a floresta tropical cobre grande parte do país e apenas 2% do território é dedicado à agricultura, principalmente arroz e açúcar. Mas a agricultura já é responsável por um terço dos ganhos com exportação e representa mais de um terço do PIB, que é de apenas US$ 3.900 per capita.

O Ministério da Agricultura prevê que safras maiores e os preços do arroz ampliarão os lucros com a exportação em um terço neste ano.

Mas a Argentina, outra vencedora segundo a análise do FMI, encara os aumentos nos preços dos alimentos como uma espada de dois gumes.

Os planos do governo de aumentar as tarifas de exportação provocaram um conflito com os produtores rurais no início deste ano, que "exemplifica a luta entre a necessidade de alimentar as pessoas a um preço razoável e ainda tirar proveito dos preços de exportação", disse Mark Plant, um dos autores do estudo do FMI sobre o impacto dos aumentos dos preços dos alimentos e combustíveis. George El Khouri Andolfato

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