Pesquisadores de Aids perdem a direção na busca de seu santo graal

Andrew Jack

A Conferência Internacional de Aids deste mês no México lançou nova luz aos esforços para combater a doença. Também deixou mais clara uma sombra: uma série de fracassos recentes nas pesquisas que buscam formas médicas de impedir a transmissão do HIV.

Enquanto políticos e grupos ativistas enfatizam a necessidade de se deter a disseminação do vírus enquanto se usufrui dos rápidos avanços nos tratamentos, pesquisadores que trabalham na prevenção estão tentando passar uma imagem de coragem, apesar de seu desânimo.

Os resultados de uma série de ensaios clínicos desapontaram e desmoralizaram os pesquisadores que buscam desenvolver "intervenções médicas" e outras abordagens de baixa tecnologia que possam suplementar os preservativos, que ainda não conseguem impedir 2,5 milhões de novas infecções por HIV por ano.

Várias previsões científicas foram derrotadas pelos resultados, desde o uso de um tratamento barato para herpes - que há muito se acredita acelerar a disseminação do HIV - até um diafragma para reduzir o risco de a mulher contrair o vírus. Os fracassos geraram um momento de reflexão.

Nenhum resultado negativo foi mais perturbador científica e financeiramente do que um experimento destinado a obter o santo graal da prevenção do HIV: uma vacina. "Não ficamos chocados e sim desapontados", admite Seth Berkley, diretor da Iniciativa Internacional de Vacina contra Aids (Iavi), que patrocina a pesquisa nessa área. "Meu medo é que, em certa altura, as pessoas digam basta".

No ano passado, a empresa farmacêutica americana Merck suspendeu seu ensaio da vacina Step após descobrir com estudos preliminares que não apenas estava se provando ineficaz, mas parecia aumentar o risco de contração do HIV em alguns participantes. Isso levou as equipes de pesquisa rivais a repensarem seus projetos e ao cancelamento no mês passado de outro ensaio conduzido pela Sociedade de Avaliação de Vacina de Aids, que estava adotando uma abordagem similar.

Os ensaios testavam a idéia do chamado adenovirus sorotipo 5 estimular uma forte resposta imunológica ao ataque do HIV. "Tínhamos que tentar, porque era a única abordagem que tínhamos, mas estávamos em território virgem", disse Tony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Institutos Nacionais de Saúde, um dos maiores patrocinadores da pesquisa para uma vacina.

Enquanto as vacinas existentes - sejam contra a pólio, catapora ou gripe - reforçam a reação imunológica às infecções que o corpo normalmente derrota sozinho, não há uma resposta natural e eficaz ao HIV. "Agora, todas as apostas foram retiradas, e temos que colocar de lado as lições históricas baseadas na vacinação clássica", diz ele.

Igualmente desanimadores foram os resultados dos ensaios de microbicidas, géis que são aplicados na vagina para eliminar o HIV durante o sexo. Dois anos atrás, os ensaios do gel Savvy foram suspensos prematuramente por causa dos fracos resultados; no ano passado, o mesmo aconteceu com o Ushercell, que até aumentou o risco de transmissão. Os resultados em fevereiro dos ensaios com o Carraguard, derivado de uma alga marinha, também não mostraram qualquer queda na infecção pelo HIV.

"Foi uma época bastante desmoralizadora", admite Zeda Rosenberg, diretora da Sociedade Internacional para Microbicidas. Como outros, ela está determinada a prosseguir e ressalta que cada método de prevenção é diferente - ainda mais cada produto individual.

"As vacinas são sobre ciência, mas os microbicidas são sobre engenharia: sobre acertar a droga certa, no lugar certo, na hora certa", diz ela. Os três produtos que fracassaram usavam outras substâncias químicas; o dela usa altas doses de drogas anti-retrovirais que comprovadamente matam o HIV nos pacientes.

Ainda assim, há riscos que tais microbicidas possam aumentar a suscetibilidade humana ao vírus e, mais importante, que as mulheres não possam usá-los consistentemente, diminuindo sua eficácia fora do ambiente controlado dos ensaios clínicos

Uma lição comum aos fracassos com microbicidas e vacinas é a necessidade de deter a tendência dos pesquisadores de iniciarem ensaios clínicos de grande escala cujos riscos não justificam os custos. No futuro, deve haver uma avaliação científica mais rigorosa por parte governo e dos patrocinadores.

"A tendência tem sido de entrar correndo", diz Tachi Yamada, diretor de saúde global da Fundação Bill & Melinda Gates, forte patrocinadora de todos os tipos de pesquisa de prevenção. "Temos que planejar mais, com maior preparação nas áreas de farmacologia, toxicologia e programação do ensaio." Essa tendência também é reconhecida pela "Aids Vaccine Blueprint" deste mês, publicada pela Iavi, organização de Berkley, que exorta o uso ensaios menores e mais rápidos para testar as hipóteses em estágios iniciais.

Outra tática está refletida na criação recente da Global HIV Vaccine Enterprise, um corpo coordenador no campo, que Alan Bernstein, seu diretor-executivo, diz que agirá como "agente neutro" entre diferentes pesquisadores, identificando áreas de interesses comuns e até formas de facilitar a aprovação das agências reguladoras.

Uma segunda lição é a necessidade de novas abordagens científicas. Bernstein quer ver um rejuvenescimento entre os pesquisadores de HIV, que envelheceram desde "o grande excitamento, quando o vírus foi descoberto em 1983". Ele pede esforços redobrados para atrair uma geração mais jovem ao campo.

Enquanto isso, tanto a Iavi quanto a Fundação Gates recentemente lançaram novos prêmios de pesquisa para patrocinar idéias criativas e não convencionais, removendo os longos e burocráticos procedimentos de aplicação e revisões detalhadas conduzidas pelos especialistas.

Uma terceira lição é a necessidade de apoio financeiro continuado para a pesquisa, que continua uma fração minúscula do total hoje gasto no tratamento e prevenção do HIV, e que sofreu com retirada gradual de empresas farmacêuticas. "Não temos escolha", diz Jean-François Delfraissy, diretor da organização de pesquisa francesa para Aids Anrs, que patrocina o trabalho com vacinas.

Apesar dos problemas, mais dinheiro será necessário no futuro para patrocinar novas hipóteses, custear ensaios e novas abordagens. Uma delas seria a profilaxia por exposição prévia, que propõe dar às pessoas saudáveis em grupos de risco pequenas doses orais de drogas anti-retrovirais receitadas para tratar os pacientes infectados.

Yamada argumenta que a paciência será vital. "Temos que preparar o público para o que a indústria farmacêutica já sabe: a maior parte desses ensaios fracassa, mas temos de prosseguir." Deborah Weinberg

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