Protestos paralisam reformas na Bolívia

Andres Schipani
Em La Paz

Debaixo da lona azul no seu precário quiosque de rua, Rosita, uma açougueira de etnia aymara, reclama. "Não há carne suficiente", diz ela. "Esses conservadores racistas do leste querem que nós, os índios, passemos fome para que cedamos e voltemos a ficar sob a sola dos sapatos deles. Mas nós não permitiremos que eles façam isso. Lutaremos por Evo e por este processo de mudanças".

Mas o processo parece ter chegado a um violento impasse nos últimos sete dias. Embora o primeiro presidente indígena da Bolívia tenha emergido como o vitorioso incontestável em uma eleição nacional no início deste mês que poderia ter culminado com a sua remoção da presidência, a metade oriental do país, que é mais branca e rica, não está querendo admitir a derrota. E esta elite tampouco está feliz com um governo que muitos no leste da Bolívia descrevem como totalitário.

Na segunda-feira (26), os chamados grupos cívicos das províncias de Chuquisaca, Tarija e Santa Cruz bloquearam as estradas nacionais e aquelas que levam à Argentina e ao Paraguai, e ameaçaram ocupar os campos estatais de petróleo em suas regiões.

Esses grupos estão exigindo que o governo eleve o preço do gás exportado para a Argentina e o Brasil dos atuais US$ 5 para US$ 18 por unidade térmica britânica (BTU).

Manifestantes nas terras baixas orientais cortaram os suprimentos de carne para o oeste na semana passada, e bloquearam as estradas, embora o fornecimento já tenha sido normalizado.

Houve também confrontos violentos envolvendo inimigos e apoiadores de Evo Morales e a polícia em várias províncias orientais, depois que grupos de jovens radicais pró-autonomia armados de paus e escudos atacaram policiais em Santa Cruz na semana passada.
Por sua vez, alguns dos aliados indígenas de Morales bloquearam o acesso à capital constitucional e judicial do país, Sucre, um bastião oposicionista, e grupos indígenas nas áreas mais pobres de Santa Cruz afirmaram estar prontos para contra-atacar.

O vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, descreveu as ações como "uma agressão à Bolívia e um ato criminoso", enquanto Morales garantiu que o governo protegerá as instalações de gás.

A Bolívia, geograficamente dividida entre as terras baixas tropicais prósperas do leste e os altiplanos ocidentais pobres, ficou mais polarizada após o referendo. Os governadores da oposição das regiões orientais de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando também obtiveram novos mandatos nas urnas e exibiram uma crescente popularidade, enquanto as conversações entre Morales e os governos do leste não foram capazes de resolver a crise.

"Estamos enfrentando um acirramento de posições radicais que aprofundam a polarização já existente", explica Guido Riveros Franck, diretor da Fundação Boliviana para a Democracia Multipartidária. "E agora estamos à mercê de grupos radicais e violentos de ambos os lados... Neste quadro, o diálogo fica cada vez mais distante".

Morales está seguindo em frente com os seus planos para a realização de um novo referendo com o objetivo de aprovar uma nova constituição nacional. Mas as cinco províncias orientais que se opõem à constituição afirmam que ela privilegiaria injustamente os grupos indígenas, estimularia o controle centralizado e faria com que uma parcela das rendas provenientes do petróleo fosse retirada das províncias que produzem a maior parte do gás boliviano.

Eles estão pressionando para que seja adotado um sistema mais federativo com maior autonomia regional.

"O governo chama o federalismo de divisionismo e separatismo. Mas é isto o que os centralistas querem mostrar, já que eles temem perder o poder", afirma Carlos Dabdoud, um líder oposicionista de Santa Cruz. "Enquanto o presidente encarar esta sua última vitória com arrogância, tentando impor a sua vontade, o conflito continuará".

Morales indicou que poderia adotar uma rota intermediária que concedesse mais autonomia no contexto da nova constituição. Mas os seus aliados estão pessimistas.

"Com a violência, a oposição deseja que a Bolívia retorne ao status quo anterior, egoísta e neoliberal", acusa Sabino Mendoza, parlamentar pró-Morales que redigiu o texto da nova constituição. "Não podemos permitir que isso aconteça". UOL

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