Caça ao troféu leva países do Golfo a gastar em esportes

Andrew England

Enquanto o Manchester United iniciava a defesa do título da Liga Inglesa este mês, um pequeno grupo de sauditas desfrutava o melhor tratamento VIP no campo de Old Trafford. Com a fanfarra veio o anúncio de que a Saudi Telecom Company (STC) e o United tinham fechado um contrato de marketing por cinco anos no valor de cerca de 10 milhões de libras (US$ 18 milhões).

AP 
O golfista Tiger Woods dá uma tacada durante o milionário torneio de Dubai

Para a STC, o acordo, que seria o maior do United fora o patrocínio da camisa, dá direito a distribuir destaques dos jogos, toques de telefone e notícias do clube através de celulares.

O acordo foi o último exemplo de como as companhias e governos de todo o Golfo, rico em petróleo, estão recorrendo a esportes de alto nível como meio de alcançar os públicos doméstico e global.

Milhões de dólares estão sendo despejados em eventos internacionais e prêmios em dinheiro; outros bilhões são investidos em infra-estrutura esportiva. Os países do Golfo e a Jordânia estão gastando quase US$ 12 bilhões só em esportes motorizados e negócios relacionados, segundo estatísticas obtidas para o "Financial Times" este ano pelo grupo de consultoria KHP.

É tudo muito distante dos tradicionais esportes árabes da falcoaria ou corridas de cavalos e camelos. Os países do Golfo só conseguiram uma medalha na Olimpíada, e foi de um marroquino correndo sob as cores de Bahrein. Mas o esporte é cada vez mais visto na região como um meio de obter reconhecimento internacional para as cidades.

Aproveitando sua riqueza em petróleo, os países do Golfo estão atraindo eventos prestigiosos que atraem o público de televisão global. Afinal, segundo consultores esportivos, trata-se de vender suas marcas em todo o mundo e reforçar estratégias para desenvolver o turismo e reduzir a dependência dos hidrocarbonetos. "Eles não estão entrando nisto cegamente, são muito profissionais e procuram usar os melhores consultores ocidentais", diz Nick Massey, executivo-chefe para a Europa e o Oriente Médio da consultoria esportiva Octagon.

Os eventos esportivos internacionais no Golfo hoje vão do futebol - Abu Dhabi vai abrigar a Copa do Mundo de Clubes da Fifa em 2009 - ao rúgbi. Bahrein hospeda um GP de Fórmula 1 desde 2004 e Abu Dhabi terá sua primeira corrida no ano que vem, gastando cerca de US$ 40 bilhões no desenvolvimento de uma ilha que abrigará a pista e um parque temático da Ferrari.

Ao mesmo tempo, o dinheiro está fluindo para fora da região em esportes e negócios relacionados. Os acordos incluem a aquisição de uma participação de 5% na Ferrari pela Mubadala, um veículo de investimentos estatais de Abu Dhabi, e uma participação de 30% na McLaren da Mumtalakat, a holding estatal do Bahrein. A Leisurecorp, fundada pela Dubai World em 2006, tem uma carteira que vai de investimentos em um complexo de golfe na África do Sul até uma participação em um resort de esqui perto de Aspen, nos EUA.

Acrescente-se à mistura uma série de acordos de patrocínio. A Etihad, jovem companhia aérea de Abu Dhabi, tem pacotes de patrocínio com o time de futebol inglês Chelsea, o clube de rúgbi Harlequins de Londres, um campeonato de hurling irlandês e a Ferrari. A autoridade de turismo de Abu Dhabi patrocina o campeonato mundial de rali. Os Emirados, que estão no jogo há mais tempo que os outros, são um dos principais patrocinadores do time de futebol Arsenal de Londres, cujo novo estádio leva o nome de sua companhia aérea.

No campo doméstico, Dubai, Catar e Abu Dhabi abrigam os torneios de golfe do circuito europeu. Em novembro de 2009, os principais jogadores de golfe do mundo vão se apresentar no Campeonato Mundial de Dubai, um novo evento que será a última rodada do European Tour e oferecerá o maior prêmio em dinheiro do esporte - US$ 10 milhões. Essas recompensas atraíram os principais nomes: Tiger Woods teria recebido um cachê de US$ 2 milhões para competir no Dubai Desert Classic.

Dubai já abriga a mais rica corrida de cavalos, a Dubai World Cup, com uma bolsa de US$ 6 milhões para o vencedor. Também foi a origem de uma aposta fracassada para comprar o time de futebol Liverpool pela Dubai International Capital, um grupo de capital privado de propriedade do governante de Dubai, xeque Mohammed bin Rashid al-Maktoum.

Catar hospeda uma corrida de MotoGP, e uma autoridade local foi citada este ano dizendo que seu circuito eventualmente seria aperfeiçoado para os padrões da Fórmula 1. O país gastou cerca de US$ 522 milhões em seu Aspire Zone - um complexo de estádios e outras facilidades - e abrigou os Jogos Asiáticos em 2006. Os lucros econômicos, segundo consultores, vêm dos milhares de visitantes que podem ser levados a um evento de classe internacional e o dinheiro que eles gastam em hotéis, restaurantes e lojas.

Pesquisa realizada para a Mumtalakat, dona do Bahrain International Circuit, estimou o impacto econômico da corrida de Fórmula 1 no pequeno emirado em US$ 548 milhões em 2007, 40% a mais que no ano anterior. "O país tornou-se o ponto focal do mundo esportivo naquele fim de semana", diz Martin Whitaker, principal executivo do Bahrain International Circuit. "Cinco anos atrás tínhamos de ajudar os jornalistas a compreender que era um lugar seguro."

Dubai, que tem menos petróleo que seus vizinhos e foi mais rápido para diversificar sua economia, está um passo à frente de outros Estados do Golfo em termos de sediar grandes eventos. Está construindo uma cidade esportiva altamente ambiciosa com um estádio poliesportivo de 60 mil lugares, um estádio de críquete para 25 mil, além de estádios para hóquei e basquete, cercados por propriedades residenciais e comerciais.

A cidade será a nova sede do International Cricket Council, que se mudou para os Emirados depois de 96 anos no Lord's, no norte de Londres, atraído por um ambiente livre de impostos e uma academia de críquete na cidade esportiva. "Dubai tem o pacote certo", diz James Fitzgerald, porta-voz do ICC, acrescentando que ele superou a concorrência de Kuala Lumpur, Cingapura, Mônaco e Dublin para abrigar a tradicional entidade inglesa.

U. Balasubramaniam, executivo-chefe da Dubai Sports City, diz que esporte e lazer são uma extensão natural da indústria de turismo existente nos Emirados. "É uma situação em que todos ganham, porque para Dubai você tem as instalações feitas, e no que diz respeito aos acionistas eles ganham dinheiro com os imóveis", ele diz.

Mas não será fácil desenvolver esportes locais para populações pequenas, em países cujas temperaturas chegam a 40 graus no verão. Enquanto o xeque Mohammed de Dubai pode ser um bom cavaleiro, muitos jovens cidadãos do Golfo gastam seu tempo em shopping centers ou cafés com ar-condicionado e têm inclinação para a fast food. A obesidade é uma grande preocupação. "A juventude dos Emirados tem pouco interesse por esportes, comparada com os jovens de outros países, com exceção do futebol", disse Ibrahim Abdul Malik, secretário-geral do Comitê Olímpico dos Emirados Árabes Unidos, a um jornal local. "Os jovens árabes têm um estilo de vida fácil e manso. Mas o esporte não é fácil."

Encher estádios e garantir que os vários países não saturem o mercado também será um teste. "De longe parece uma espécie de modelo 'Construa e eles virão', mas eles só virão se você investir e os atrair", diz Massey. "E se você efetivamente construir capacidade excedente vai ser muito difícil." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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