Mais robusta, a economia brasileira pode ser penalizada pela falta de ação

David Oakley, Rachel Morarjee e Jonathan Wheatley

Costuma-se dizer que quando os Estados Unidos pegam um resfriado, o Brasil vem abaixo com uma pneumonia. "Mas, agora, os Estados Unidos estão na UTI e nós sequer espirramos", diz Aloízio Mercadante, membro do governista Partido dos Trabalhadores (PT) e assessor econômico do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A idéia de que o Brasil, que já foi vulnerável às oscilações do mercado global, é finalmente capaz de ficar de manter-se de pé devido aos seus próprios méritos é popular dentro do governo e é confirmada pelos fatos. Mas para muitos analistas isso é confundir desejo com realidade. Eles só não sabem ainda se o Brasil terá pela frente uma correção dura e acentuada, ou se o país será capaz de planejar um pouso suave.

Não obstante, uma análise dos últimos 15 anos deixa claro que algo de fundamental de fato mudou. De 1994 a 1999, o Brasil desistiu de tentar encontrar soluções mágicas para o problema crônico da inflação galopante e abraçou a ortodoxia, introduzindo três pilares de estabilidade econômica que continuam firmemente em vigor: estipulação de meta de inflação (o que significa que o Banco Central tem liberdade para ajustar as taxas de juros para controlar a inflação), uma taxa de câmbio flutuante e superávits primários do orçamento (anteriores ao pagamento das dívidas) suficientemente volumosos para manter a relação entre a dívida pública e o produto interno bruto em uma curva descendente.

Enquanto implementava essa estrutura, o Brasil foi protegido de choques externos sucessivos - as crises mexicana, o asiática e russa ainda estão bem vivas na memória nacional - e o seu plano de estabilização esteve em vários ocasiões muito perto de perder o rumo.

Quando Lula da Silva aproximava-se da sua primeira vitória na eleição de outubro de 2002, muitos investidores temiam que um governo do PT abandonasse a ortodoxia e quebrasse o país. O valor dos ativos brasileiros despencou.

Mas, em vez disso, em uma famosa "carta ao povo brasileiro" (regida em parte por Mercadante), a equipe de Lula da Silva prometeu respeitar os contratos e não fazer nada que pudesse minar as políticas ortodoxas do governo anterior. Em vez de sair enfraquecida, a estabilidade do Brasil consolidou-se. O aumento da demanda global liderado pela China provocou uma disparada das exportações brasileiras, que baseiam-se predominantemente em commodities.

Muito dinheiro foi injetado no país. O governo brasileiro tornou-se um credor líquido nos mercados internacionais e criou uma reserva de US$ 200 bilhões (? 135 bilhões, £ 110 bilhões) em moeda estrangeira, tornando o Brasil muito menos vulnerável a crises externas. Neste ano, o país foi recompensado com status de grau de investimento pela Standard & Poor's e a Fitch, duas das três maiores agências de classificação de crédito do mundo. O crescimento econômico, que durante duas décadas ficou em uma média de 2,5% ao ano, encontra-se agora entre 4% e 5% ao ano. Embora estes números possam ser inferiores àqueles dos outros grandes mercados emergentes, o Brasil está avançando a partir de um patamar mais elevado e, segundo os ministros, mais sustentável.

Então, o Brasil deveria sem dúvida estar bem preparado para enfrentar uma desaceleração econômica global? Walter Molano, economista do BCP Securities de Greenwich, Connecticut, acha que não. "O desacoplamento é uma história de longo prazo", diz ele. "Cedo ou tarde a economia global será liderada pelas economias asiáticas, mas não ainda. A China ainda é relativamente pequena, se comparada aos Estados Unidos, e não é capaz de sustentar produtores de commodities como o Brasil. Tem havido muito entusiasmo e euforia, mas neste momento o Brasil está destinado a passar por uma liqüidação".

Ele afirma que o Brasil apresentou um histórico misto no que se refere ao aproveitamento da disparada dos preços das commodities no decorrer dos últimos cinco anos. No setor privado, companhias como a Petrobras (petróleo), a Vale (mineração) e a CSN (aço) tornaram-se líderes globais. "Mas o governo, que sempre foi elogiado por não fazer nada, pagará agora o preço pela inação. Ele nada fez para modernizar a infra-estrutura, a qualidade da saúde e da educação ainda é terrível e a criminalidade é generalizada".
Segundo Molano, se o Brasil acredita que não sofrerá as conseqüências de uma crise nos Estados Unidos e na Europa, o país está negando a realidade: "Não existe forma de o Brasil ocultar-se disso".

Alexandre Lintz, economista do BNP Paribas em São Paulo, tem uma opinião semelhante. "Isso me lembra a Europa no início deste ano", diz ele. "Todos achavam que poderiam escapar do contágio da crise das subprimes dos Estados Unidos. Mas de repente ficou óbvio que isso não seria possível".

Ele aponta para um índice de clima econômico produzido pelo instituto Ifo de Munique e a Fundação Getúlio Vargas, uma escola brasileira de economia. O trabalho previu de maneira acertada as recessões de 1998-1999 e 2001-2002, e agora está prevendo outra.

Segundo ele, entre os fatores responsáveis por isto estão os custos crescentes de produção, causados em parte pelos preços mais elevados das commodities e também pelo aumento do custo da mão-de-obra (os salários aumentaram 10,5% em termos nominais no período de um ano até julho de 2008 e 3% após ser aplicada uma correção para a inflação no período - contra 1,7% após esta correção no período de um ano encerrado em junho). Ele também culpa uma disparada "superaquecida" de investimentos, especialmente na indústria de construção. E embora a demanda doméstica continue aumentando - impulsionada pelo acesso a um crédito mais barato - os gastos do governo também têm subido, acrescentando pressões inflacionárias.

O resultado é que o Banco Central do Brasil terá de continuar elevando as taxas de juros. A sua taxa base já aumentou neste ano de 11,25% para 13%. Ele espera que ela chegue a 15,75% até o final do ano.

Lintz acredita que o Banco Central, ao responder cedo e de forma agressiva ao aumento da inflação, será capaz de reduzir lentamente o excesso de velocidade da economia. Mas ele acha também que o crescimento brasileiro ficará paralisado no ano que vem. "Estamos apenas começando a perceber que o desacoplamento não ocorreu". UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos