Basra, a capital comercial do Iraque está finalmente pronta para o renascimento

Andrew England

Quando é indagado a respeito das milícias que até alguns meses atrás controlavam Basra, um jovem soldado iraquiano bate a bota no chão como se estivesse esmagando um besouro. Sentindo-se nitidamente confiante com a sua farda camuflada e boina verde, ele a seguir faz um movimento com a mão, como se esta fosse um machado para cortar as suas pernas.

Reuters 
Soldados britânicos cumprimentam crianças e moradores de Basra

A mensagem que ele procura transmitir com tanto ânimo é a crença de que os islamitas xiitas que provocaram o caos na cidade foram esmagados. Mas, será que eles poderiam retornar? "Jamais", insiste o soldado, cujo nome é Assad.

Há quem não concorde com tal avaliação. Mas a segunda maior cidade e o maior centro comercial do Iraque exibe sinais de uma notável reviravolta após uma operação liderada por iraquianos para expurgá-la das milícias armadas e acabar com dois anos de reinado de gangues e facções rivais.

Uma Basra próspera, que detém 70% das reservas conhecidas de petróleo iraquiano e é o único porto de alto calado do país - e que, por conseguinte, responde por 90% das rendas do governo - será crucial para o futuro do Iraque. A capacidade das forças iraquianas de manter a segurança será um teste do grau de desenvolvimento alcançado por elas. Outro teste será a disposição e a capacidade do governo liderado pelos xiitas em Bagdá de aproveitar os avanços na área de segurança para a promoção de serviços públicos e o progresso econômico.

Em dezembro do ano passado, quando as tropas britânicas passaram o controle da província de Basra para as autoridades iraquianas, os moradores locais falavam de uma cidade na qual o medo, a intimidação e a morte eram as normas: os seqüestros eram comuns; dezenas de mulheres foram assassinadas por exibirem vestuário ou comportamento que as milícias consideravam imorais; poucas pessoas aventuravam-se a sair à noite, e muitos intelectuais, médicos, empresários e professores fugiram com medo de tornarem-se alvos.

As tropas britânicas, que foram responsáveis pelo sul do país desde a invasão de 2003, lideradas pelos Estados Unidos, retiraram-se do centro de Basra em setembro do ano passado, em meio a controvérsias e após uma onda constante de ataques mortíferos. Quando se aventuravam para além do perímetro da sua base de segurança máxima, no aeroporto, elas evitavam rotas nas quais a sua presença pudesse antagonizar as milícias. Já os diplomatas britânicos não ousavam entrar na cidade de Basra desde o final de 2006, devido à falta de segurança.

Mas hoje em dia os moradores dizem que podem desfrutar de piqueniques com a família às margens do Shatt al-Arab e de jantares a altas horas da noite nos restaurantes da cidade. As mulheres podem usar lenços coloridos nas cabeças e mostrar as faces, ao invés de terem que cobrir-se dos pés à cabeça com uma túnica preta. Enquanto o soldado falava em frente a um hospital, uma jovem enfermeira usando um lenço negro de bordas azuis entrou na conversa, exibindo uma confiança em meio a desconhecidos do sexo masculino que teria sido praticamente impossível algum tempo atrás.

"A segurança é melhor. Portanto, tudo ficará melhor, inshallah (se Deus quiser)", afirma o médico Assad Hassan, acrescentando que três dos seus colegas do hospital, que haviam fugido do caos, retornaram.

Os funcionários britânicos da área de desenvolvimento também estão começando cautelosamente a visitar a cidade, à medida que procuram auxiliar as autoridades iraquianas a combater o desemprego generalizado e a arruinada estrutura de serviços básicos. Por detrás da janela a prova de balas de um veículo blindado Mastiff, um funcionário inglês ansioso por mostrar as mudanças aponta para árvores recém-plantadas e pilhas de paralelepípedos que serão utilizados na pavimentação das ruas.

"Não se pode descartar a possibilidade de uma retomada da atividade das milícias, mas eu creio que isso é improvável", afirma Nigel Haywood, cônsul-geral do Reino Unido em Basra. "A nossa política será a de continuar consolidando os ganhos na área de segurança com a solução de problemas que têm afligido a população: por um lado a falta de água, esgoto, energia elétrica e coleta de lixo. De outro lado o desemprego. Estamos determinados a avançar nestas áreas a fim de preencher o espaço que caso contrário seria preenchido por terroristas ou potenciais terroristas".

Na semana passada Haywood juntou-se aos moradores locais às margens do Shatt al-Arab para jantar com os líderes tribais, em uma rara visita noturna à cidade. No entanto, de volta ao aeroporto, membros da equipe britânica tiveram que deitar-se no solo para se protegerem de foguetes disparados contra a base. Foi o primeiro desses ataques em um período de três semanas, e os foguetes não chegaram a explodir, mas o incidente demonstra que a ameaça ainda existe.

A melhora da situação pode ser atribuída a uma operação militar batizada de "Ataque dos Cavaleiros", lançada no final de março deste ano pelo primeiro-ministro Nouri al-Maliki. A missão - cujo objetivo principal era desbaratar os combatentes do exército Mahdi, que é leal a Moqtada al-Sadr, o belicoso clérigo xiita - foi recebida inicialmente com ceticismo. Houve relatos de que centenas de soldados do governo recusaram-se a lutar e de que outros aderiram às milícias. A credibilidade de Maliki, que se instalou no palácio de Basra para liderar a operação, foi novamente questionada.

As autoridades britânicas foram pegas de surpresa. O general Mohan al-Firaijii, chefe do exército iraquiano em Basra, vinha planejando fortalecer as suas tropas e lançar a operação em julho. Os norte-americanos e os britânicos apoiaram a medida, mas, sob ordens de Maliki, Firaijii telefonou ao comando militar britânico avisando que a operação seria desencadeada em 48 horas.

Após insucessos iniciais, os cerca de 30 mil soldados iraquianos receberam apoio aéreo dos Estados Unidos, bem como a ajuda de 800 soldados norte-americanos, e os Estados Unidos desempenharam um papel crucial na região predominantemente xiita, que anteriormente estava sob responsabilidade britânica. Antes da operação Ataque dos Cavaleiros havia menos de 20 norte-americanos em Basra.

As forças britânicas forneceram apoio logístico e reconhecimento aéreo. Um acordo de cessar-fogo entre o exército Mahdi e o governo - mediado com a ajuda do Irã, que tanto os Estados Unidos quanto o Reino Unido vinham acusando repetidamente de armar e financiar grupos islâmicos xiitas no Iraque - pôs um fim aos piores combates. O exército iraquiano ocupou distritos que anteriormente eram redutos da milícia, mas o tamanho do estrago causado no exército Mahdi ainda é desconhecido.

"Eles dissolveram-se, abaixaram as armas, nunca foram um exército... Eram combatentes que não atuavam em tempo integral. Pessoas que, como qualquer outro iraquiano, possuíam uma arma em casa, de forma que foi fácil para eles abandonar as armas. Não foi preciso sequer tirar o uniforme, já que na maior parte dos casos não havia uniforme nenhum. Eles simplesmente voltaram aos seus empregos de meio-expediente ou para qualquer outra atividade que desempenhavam antes", diz Joost Hiltermann, analista do Grupo de Crise Internacional. "Mas isso significa também que eles podem se reagrupar novamente para lutar".

No entanto, a autoridade britânica vê a situação sob uma outra ótica, argumentando que muitos dos principais líderes da milícia fugiram, ou para outras partes do Iraque ou através da fronteira porosa com o Irã, ou foram presos. "Os sadristas anunciaram ter firmado um acordo que permitia que o exército iraquiano assumisse controle sobre Basra. A realidade é que, mesmo durante o cessar-fogo, com o qual Maliki concordou para permitir que os combatentes abandonassem as armas e voltassem para as suas casas, os integrantes do núcleo duro do movimento ainda estavam sendo detidos pelo exército quase sem resistência", diz ele. Quase 6.000 morteiros, 690 foguetes e mais de 300 artefatos explosivos foram descobertos, segundo estimativas britânicas. Atualmente o exército iraquiano - com cerca de 20 mil soldados em Basra - patrulha a cidade com caminhonetes, caminhões e veículos blindados de transporte de tropas.

Não há dúvida de que os moradores estão aliviados com a melhoria da segurança, mas muitos ainda têm dúvidas. Há duas semanas Malik Noori al-Ibrahimi levou a mulher e os filhos para jantar em um restaurante no Shatt al-Arab. Ele diz que aquela foi a primeira vez em mais de dois anos que se arriscou a fazer um passeio desse tipo, e que "as pessoas estavam muito felizes". Mas recentemente Ibrahimi ouviu dizer que a polícia prendeu um homem que veio do Irã com uma lista de pessoas que deveriam ser assassinadas pela milícia, incluindo médicos, professores e gerentes.

Ibrahimi trabalha para uma agência de desenvolvimento financiada pelos Estados Unidos, o que faz dele um alvo potencial. Assim, o fato de ele se mostrar disposto a falar com um jornalista e a divulgar o seu nome revela que há uma nova dose de confiança. No entanto, ele está cauteloso. "Temo que algum dia as milícias voltem... Estamos seguros, mas não 100%", diz ele. "Esta é a nossa maior preocupação aqui em Basra". Ele confia no exército, mas tem pouca fé na força policial, uma instituição sabidamente infiltrada pelas milícias.

Mohammed Naeem, um gerente de informática, concorda, e afirma que enquanto o exército é composto de soldados de outras províncias, a maior parte dos policiais de Basra tem lealdades questionáveis. "Após a queda de Saddam Hussein, toda a polícia passou a ser controlada pelas milícias", diz Naeem. Ele e outros afirmam que poucos dos intelectuais, profissionais e empresários que partiram retornaram a Basra. Naeem quer que as autoridades empenhem-se mais em combater o desemprego, que, segundo estimativas britânicas, está entre 17% e 30%.

O progresso dependerá bastante do sucesso de programas de desenvolvimento e de uma revitalização da economia de Basra. Ao longo de uma rua cheia de pequenas lojas de calçadas quebradas, as pessoas comentam a melhoria da segurança, mas reclamam da falta de empregos e do fornecimento precário de energia elétrica. Vários moradores de Basra dizem contar com duas horas de eletricidade, seguidas por uma interrupção de quatro horas do fornecimento.

Um outro fator importante será a estratégia dos sadristas e do exército Mahdi, que obteve grande parte do seu apoio junto aos jovens insatisfeitos e desempregados. Na semana passada Sadr prorrogou o cessar-fogo com as tropas norte-americanas por tempo indefinido, e recentemente ele tem dito que dividirá o movimento em duas correntes, criando uma organização política e social paralela à força de combate.

Os britânicos estão ansiosos por ver os sadristas - que foram responsáveis por muitos dos ataques contra as forças do Reino Unido - participarem das eleições provinciais. "É possível mudar de abordagem. Basta ver o caso da Irlanda do Norte", diz Haywood. "O mais importante é fazer com que eles abandonem a violência e participem do processo político".

As eleições devem acontecer em outubro, mas o parlamento do Iraque ainda não aprovou a legislação exigida para isso. Os analistas dizem que um dos motivos para a decisão de Maliki de lançar a operação Ataque dos Cavaleiros foi o desejo de desacreditar e reduzir o poder dos sadristas antes das eleições. Mas a tentativa de marginalizar o movimento pode ser arriscada. "Se Sadr vir-se excluído do processo político iraquiano, sentir que o processo é injusto ou escolher misturar política e violência, o JAM (exército Mahdi) poderá transformar-se novamente em uma grande ameaça", afirmaram em um relatório do mês passado analistas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Ainda há muitas incertezas pendentes, como a suposta influência iraniana, a força do exército Mahdi e a capacidade e disposição do governo de permitir maior participação política de outros grupos. "Todo mundo está aguardando uma eleição", diz Hiltermann, do Grupo de Crise Internacional. A eleição norte-americana em novembro é um fator cuja importância é óbvia, acrescenta ele. "Qual será a postura dos Estados Unidos? Eles retirarão as suas tropas do país?". Mas as eleições provinciais no Iraque também ajudarão a determinar o que aconteceu.

"Pode-se argumentar, não só em relação a Basra, mas a todo o Iraque, que nada é sustentável sem soluções políticas. Podemos observar o progresso da situação da segurança em toda parte e afirmar que ele parece ser excelente. Mas não é possível sustentar isso sem que haja um progresso na frente política". UOL

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